
Por Oliveiros Marques.
Ao folhear essa obra, dia desses, fiquei pensando como Tocqueville resumiria essa sua viagem realizada nos dias de hoje, em uma carta dirigida a Donald Trump. Imagino que, salvo a possibilidade de alguma imprecisão em minha leitura acerca do seu pensamento, o conteúdo seria este:
“Prezado Donald Trump,
Quando pisei na América pela primeira vez, vi nela a promessa de um povo capaz de equilibrar liberdade e ordem, razão e paixão. Hoje, ao observar o seu governo, senhor Trump, constato que essa promessa foi prostituída em nome do espetáculo vulgar. O senhor governa como se fosse um soberano, imaginando que um gesto seu bastaria para dobrar instituições centenárias. O mais alarmante, para além da sua figura grotesca, é a multidão que o aplaude, confundindo arrogância com liderança e mentira com verdade.
A democracia americana, outrora vibrante para os meus olhos, sob o seu governo reduziu-se a um palco para insultos e falsidades. O senhor, com sua retórica venenosa, estimulou a divisão a tal ponto que já não há um povo americano, mas duas tribos em guerra. O senhor não fala em nome da maioria, como eu advertira em meus estudos originais, fala apenas em nome de uma minoria barulhenta que busca subjugar o restante pela intimidação. É a tirania do faccioso, do ressentido, do cínico – e pior, é uma tirania aplaudida por aqueles que deveriam combatê-la.
O que vejo agora não é a democracia que descrevi, mas sua caricatura. As associações que outrora fortaleciam o espírito cívico foram trocadas por redes digitais que isolam, inflamam e emburrecem. O cidadão deixou de ser livre para ser consumidor de ódio. E o senhor, mestre nesse comércio, transformou a política em circo e a nação em plateia dividida. Eis a verdade amarga: a América de hoje não apenas confirma minhas advertências, as ultrapassa, inaugurando um novo estágio de degradação democrática – onde o demagogo não precisa convencer, apenas atiçar as paixões mais baixas.
Mas a história lhe guarda um espaço condizente com a sua estatura. Nos últimos escaninhos de um porão esquecido.
Atenciosamente,
Tocqueville, 15 de setembro de 2025
Alexis Charles Henri Clérel”
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