Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
A Guerrilha do Araguaia constitui um dos capítulos mais importantes da história da resistência à ditadura empresarial-militar brasileira (1964–1985). Desenvolvida entre o final da década de 1960 e 1974, na região do rio Araguaia, entre os estados do Pará, Maranhão e o então norte de Goiás (atual Tocantins), a experiência tornou-se um dos maiores símbolos da luta pela democracia, pela justiça social e pelos direitos humanos no Brasil.
Organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a guerrilha nasceu em um contexto de crescente endurecimento do regime após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968. Com o fechamento dos canais democráticos, a intervenção nos sindicatos, a perseguição ao movimento estudantil, às organizações populares e aos partidos de oposição, parte da esquerda brasileira passou a defender a luta armada como uma das formas de resistência à ditadura empresarial-militar.
Entre os principais dirigentes destacam-se João Amazonas, secretário-geral do PCdoB e principal formulador político da estratégia da guerrilha; Maurício Grabois, comandante militar responsável pela organização das frentes guerrilheiras; Ângelo Arroyo, dirigente político e militar que sobreviveu às primeiras campanhas repressivas; e Pedro Pomar, importante dirigente comunista que participou da elaboração política do projeto de resistência.
Entre os combatentes, tornou-se lendária a figura de Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão. Negro, ex-boxeador e engenheiro, conquistou profundo respeito entre os moradores da região. Além de seu papel militar, Osvaldão ajudava agricultores nas plantações, auxiliava famílias camponesas, compartilhava alimentos, orientava moradores e participava da vida cotidiana das comunidades. Seu conhecimento da floresta e sua relação de confiança com a população fizeram dele uma das principais lideranças da guerrilha. Após sua captura e assassinato, seu corpo foi exibido pelas Forças Armadas como forma de intimidar os camponeses, tornando-se um dos episódios mais brutais da repressão.
As mulheres desempenharam um papel indispensável na Guerrilha do Araguaia, rompendo barreiras de gênero em um período marcado pelo conservadorismo. Entre elas destacam-se Helenira Rezende de Souza Nazareth (“Fátima”), estudante de Letras da Universidade de São Paulo e uma das principais dirigentes políticas da guerrilha. Reconhecida por sua liderança, dedicação e capacidade de organização, Helenira também desenvolveu intenso trabalho junto às comunidades rurais, participando de atividades de alfabetização, assistência às famílias e formação política.
Outra importante militante foi Dinaelza Coqueiro (“Dina”), professora baiana que atuou diretamente na organização da resistência e na aproximação com os trabalhadores rurais. Seu compromisso com a educação popular e com a construção de vínculos de solidariedade marcou sua atuação no Araguaia.
Também merece destaque Maria Lúcia Petit da Silva, conhecida como “Sônia”, que participou da organização da guerrilha e do trabalho comunitário desenvolvido com os camponeses. Em 1996, seus restos mortais foram os primeiros oficialmente identificados entre os desaparecidos políticos do Araguaia, tornando-se um marco na luta pelo direito à memória e à verdade.
Outras mulheres, como Criméia Alice de Almeida, embora não tenha permanecido em combate durante toda a campanha militar, participou da preparação da guerrilha, da organização política e, posteriormente, tornou-se uma das principais militantes na luta pela localização dos desaparecidos do Araguaia e pela responsabilização do Estado brasileiro pelas violações de direitos humanos.
A convivência entre guerrilheiros e moradores da região foi um dos aspectos mais marcantes dessa experiência. Os militantes procuravam compartilhar o cotidiano da população, ajudando no cultivo da terra, oferecendo atendimento básico de saúde, alfabetizando crianças e adultos, ensinando práticas de higiene e colaborando com a organização das comunidades. Essa relação contribuiu para conquistar a confiança de muitos camponeses, embora também os tenha tornado vítimas da repressão estatal.
Entre 1972 e 1974, a ditadura empresarial-militar desencadeou grandes operações militares para eliminar a guerrilha. Milhares de soldados foram mobilizados em ações marcadas por prisões ilegais, torturas, desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e ocultação de cadáveres. Camponeses suspeitos de colaborar com os guerrilheiros também foram presos, torturados e submetidos a graves violações de direitos humanos.
Décadas depois, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, do Ministério Público Federal, de pesquisadores e dos familiares dos desaparecidos permitiu esclarecer parte desses acontecimentos, embora muitos documentos permaneçam sob sigilo ou tenham sido destruídos, e diversos corpos ainda não tenham sido localizados.
Para o movimento sindical, a Guerrilha do Araguaia integra a mesma história de resistência protagonizada por trabalhadores urbanos e rurais contra a ditadura empresarial-militar. Enquanto sindicatos sofriam intervenções, dirigentes eram presos, torturados, cassados ou assassinados, homens e mulheres enfrentavam o autoritarismo em diferentes formas de organização e luta. Preservar essa memória significa reafirmar o compromisso com a democracia, a liberdade sindical, a justiça social e os direitos humanos.
Sugestão de livros
- A Guerrilha do Araguaia – Jacob Gorender.
- A Esquerda em Armas – Jacob Gorender.
- Operação Araguaia: os Arquivos Secretos da Guerrilha – Taís Morais e Eumano Silva.
- Brasil: Nunca Mais – Arquidiocese de São Paulo.
- Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (2014).
- Obras de Carlos Fico, Daniel Aarão Reis, Denise Rollemberg, Marcelo Ridenti e Hugo Studart.
Sugestão de documentários e filme
- Guerra do Araguaia – O Massacre.
- Araguaia: A Conspiração (filme).
- Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro.
- Araguaia: Campo Sagrado.
- Guerrilha do Araguaia (TV Câmara).
- O Pastor e o Guerrilheiro (2023).
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