Masculinismo que vaza na internet: quando o algoritmo transforma frustração em negócio

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

As redes sociais deixaram há muito tempo de ser apenas espaços de interação. Hoje, funcionam como máquinas de recomendação capazes de direcionar comportamentos, reforçar crenças e transformar emoções em mercadoria. Foi esse o ponto de partida do programa Tecnofeudália, da A Noite Livre do Portal Desacato, apresentado por Fred Guimarães e Thiago Skárnio, que debateu o crescimento do masculinismo digital e como plataformas, influenciadores e algoritmos convertem inseguranças individuais em um mercado altamente lucrativo.

Ao longo da conversa, os apresentadores chamaram atenção para um aspecto frequentemente ignorado: muitos dos homens que acabam capturados por comunidades masculinistas também vivem situações de sofrimento, isolamento, frustração afetiva e precarização econômica. Isso, porém, não significa justificar discursos de ódio ou violência, mas compreender como esses sentimentos são instrumentalizados por produtores de conteúdo que oferecem respostas simplistas para problemas profundamente complexos.

A lógica é conhecida. Dificuldades para conseguir emprego, relações afetivas frustradas, solidão, ansiedade e perda de perspectivas são reinterpretadas como consequência direta da emancipação feminina ou do feminismo. Em vez de discutir as transformações do mundo do trabalho, a concentração de renda, a precarização da vida e a exploração econômica, esses influenciadores apontam um inimigo muito mais fácil: as mulheres.

Nesse processo, o capitalismo de plataformas desempenha um papel decisivo. Quanto maior for a indignação, maior o tempo de permanência do usuário na rede; quanto maior for o engajamento, maior o lucro das empresas de tecnologia. O ressentimento torna-se produto, e o algoritmo recompensa justamente os conteúdos mais radicais, polarizadores e emocionalmente intensos.

O programa destacou que existe uma indústria inteira dedicada a explorar essas fragilidades. São cursos, mentorias, canais de vídeo, grupos fechados, comunidades digitais e influenciadores que vendem uma suposta recuperação da masculinidade enquanto alimentam uma visão conspiratória das relações entre homens e mulheres. Para muitos jovens, essas comunidades oferecem aquilo que a sociedade frequentemente lhes nega: pertencimento, identidade e uma explicação simples para suas angústias.

Mas a explicação é falsa.

Como ressaltaram Fred Guimarães e Thiago Skárnio, o problema não está nas mulheres. A origem das frustrações é muito mais profunda e está relacionada às desigualdades produzidas por um modelo econômico que transforma praticamente todos os aspectos da vida em competição permanente. O desemprego, a insegurança, a dificuldade de construir vínculos, a pressão por sucesso e desempenho e a mercantilização das relações humanas produzem um ambiente fértil para discursos extremistas.

É justamente aí que surge o chamado “masculinismo de plataforma”: um fenômeno em que a exploração comercial da revolta substitui qualquer reflexão crítica sobre as causas estruturais do sofrimento masculino.

O debate também chamou a atenção para a necessidade de evitar estereótipos. Nem todo homem que entra em contato com esses conteúdos está condenado ao extremismo. Muitos conseguem romper esse ciclo quando encontram espaços de diálogo, convivem com outras realidades e percebem que existem alternativas ao discurso baseado na culpa, no ressentimento e na misoginia.

Mais do que combater indivíduos, o desafio é compreender os mecanismos sociais, econômicos e tecnológicos que alimentam esse fenômeno. Afinal, enquanto as plataformas continuarem premiando a radicalização e monetizando o conflito, novas comunidades de ódio continuarão surgindo.

Ao final do programa, os apresentadores reforçaram que o tema está longe de se esgotar e deverá voltar à pauta em futuras edições do Tecnofeudália.

Assista ao programa completo no vídeo abaixo:


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