
Por Pablo Moscatelli.
Em seu sentido mais profundo, não.
É preciso, antes de tudo, reconhecer: é melhor isto do que qualquer tentação autoritária, dogmática ou fascista. Isso deve ficar claro, porque por esta democracia mesmo limitada, muita gente lutou, sofreu e deu a vida.
Mas o que temos hoje, no Brasil, é uma democracia reduzida.
Etimologicamente, democracia significa; a intervenção de todos e todas no desenho coletivo da sociedade. Isso implica decidir sobre os rumos da economia, da saúde, da educação, da moradia, do trabalho. No entanto, a primeira grande redução foi transformar democracia em mera participação política institucional.
Passamos a acreditar que ser representado é o mesmo que participar plenamente. E assim começaram as separações artificiais: arte e política, economia e política, educação e política, como se a política não estivesse em tudo.
Mas o sistema não se contentou com isso. Ele deu mais um passo e decretou: “a democracia se exerce apenas nos momentos eleitorais”. Foi aí que surgiram os conselhos econômicos e sociais formais, os mecanismos de controle, as falsas portas de entrada para uma “participação” que só é lembrada a cada quatro anos.
E ainda isso pareceu pouco. Veio então o pior: a política virou gesto vazio, discurso parlamentar, espetáculo midiático. A política deixou de ser espaço de questionamento e construção coletiva, para se tornar ritual, dogma.
Os partidos políticos no Brasil se transformaram em verdadeiras igrejas, impondo o “sacramento democrático” que ninguém ousa contestar.
Lula, teu discurso na ONU, diante dos líderes da esquerda latino-americana, foi brilhante, da boca pra fora. Falaste sobre a defesa cotidiana da democracia, sobre participação popular e sobre o passado de mobilização do PT. Mas a prática é outra.
Precisamos criar condições reais para ampliar a participação popular, forçar os partidos a se democratizarem internamente, permitir que os sindicatos exerçam sua função sem o peso das multas judiciais e do amedrontamento econômico.
Proteger a democracia não é limitá-la, é abri-la. É permitir que todos e todas participem da construção de um país melhor.
Precisamos de um projeto com o povo, e não apenas para o povo. Um projeto que transforme a democracia em bandeira viva e não em instrumento de perpetuação da desigualdade.
Sindicatos e movimentos sociais devem ser estimulados a questionar, não obrigados a seguir como fiéis a um dogma político-social.
Sim, Lula, é correto perguntar: “Quanto tempo do seu dia você dedica a defender a democracia?”. Mas também é preciso inverter a questão: o que o governo está fazendo, de fato, para promovê-la?
A discussão não é apenas institucional, é social, é existencial. Um governo não pode se dizer “popular” com o povo trancado em casa, emocionalmente anêmico e cumprindo rituais vazios de participação.
As transformações profundas exigem grandes transformações sociais. Sem elas, a palavra democracia continuará sendo apenas um símbolo bonito, mas vazio de povo.

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