Chapecó, SC.– Uma ação policial durante uma festa de aniversário na madrugada de domingo (20) deixou imigrantes da Venezuela feridos/as e assustados/as em Chapecó. Relatos e vídeos obtidos pela reportagem mostram cenas de agressões e invasão de residência por parte de agentes da Polícia Militar.
O grupo celebrava um aniversário com música e decoração quando a PM chegou para a abordagem. De acordo com os presentes, os policiais exigiram o confisco da caixa de som e, mesmo após a entrega voluntária do equipamento, entraram na residência sem justificativa ou mandato.
Imagens mostram policiais agredindo os presentes. Entre as vítimas estava uma mulher com uma criança no colo. Um homem foi algemado e levado para a delegacia sob coerção.
O Ministério Público de Santa Catarina abriu investigação para apurar possíveis ilegalidades na ação policial.
“Informamos que será autuada uma Notícia de Fato, com remessa do relato e dos arquivos audiovisuais para a corregedoria da Polícia Militar para apuração de eventuais irregularidades ou transgressões.”
Vídeos que documentam o ocorrido foram encaminhados à Corregedoria da PM como provas do caso. As vítimas procuraram atendimento médico e registraram ocorrência na Polícia Civil.
As cicatrizes físicas e psicológicas nas vítimas já expõem o custo humano de uma polícia que parece ter esquecido seu papel constitucional.
Gabriel Dias de Almeida, representante legal das vítimas, deu a seguinte declaração:
“As imagens gravadas no momento da abordagem evidenciam uma ação completamente desproporcional por parte da Polícia Militar, que deveria proteger os cidadãos, e não agredi-los.
Uma das vítimas, uma senhora de 49 anos, teve dois dentes quebrados em decorrência de um tapa desferido por um dos policiais, ainda não identificado. Já estamos de posse dos laudos periciais que comprovam as lesões, e nos próximos dias será ajuizada ação cível para reparação de danos materiais e morais. Paralelamente, atuamos também na esfera criminal, visando a punição dos agentes envolvidos por abuso de autoridade.
Reforçamos que situações como essa não podem ser naturalizadas. É inadmissível que cidadãos sejam agredidos por aqueles que têm o dever de protegê-los.”
Mão de obra desejada, humanos indesejados
A violência policial contra estrangeiros em uma simples festa de aniversário escancara a hipocrisia de um sistema que precisa, mas não aceita, os imigrantes. A cidade que abre anúncios convidando trabalhadores e trabalhadoras estrangeiros para suprir sua falta de mão de obra é a mesma que fecha as portas quando esses corpos ousam existir além do turno de trabalho.
O requerimento aprovado do vereador Kovaleski (PL) para discutir “perturbação do sossego” com foco em estrangeiros não é sobre ordem pública – é sobre definir quais expressões culturais são legítimas. A mensagem é clara: queremos seus braços, mas não suas músicas; sua força de trabalho, mas não suas festas; seu suor, mas não sua humanidade.
O crescimento que se alimenta de quem despreza será condenado a morrer de fome quando as vítimas desse paradoxo cansarem de servir a quem nunca as viu como gente.
Emi Pandolfo é comunicadora social e apresentadora do JTT, no Portal Desacato.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


