Violência contra mulheres: o crédito à palavra e a falência institucional do cuidado

Por Sheila Rubia Lindner.*

A violência contra mulheres é, ao mesmo tempo, um dos fenômenos mais documentados e um dos menos enfrentados na história recente da saúde pública. Em novembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou novos dados globais: quase uma em cada três mulheres no mundo — cerca de 840 milhões — já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. O índice praticamente não se moveu desde o ano 2000. Vinte e cinco anos de políticas, convenções internacionais, campanhas e legislações específicas, e o avanço anual ficou em torno de 0,2%. Esse número é o retrato mais honesto do problema: não falta reconhecimento formal do tema, falta enfrentamento real dele. 

É importante marcar, desde já, que violência de gênero não se resume à violência doméstica ou ao relacionamento afetivo. Ela atravessa o assédio no ambiente de trabalho, o abuso de poder em relações de orientação acadêmica, o constrangimento sexual em consultórios e corredores hospitalares, a violência obstétrica, a violência sexual entre desconhecidos, o assédio moral disfarçado de rigor profissional. Reduzir o tema à figura do parceiro violento é, paradoxalmente, uma forma de proteger todos os outros agressores — o colega, o chefe, o orientador, o médico, o líder religioso — que seguem fora do radar porque não se encaixam no recorte mais divulgado do problema. 

Essa contradição é o ponto de partida deste texto. Vivemos um tempo em que a violência contra a mulher tem nome em lei, tem delegacia especializada, tem protocolo no SUS, tem dia internacional, tem disciplina em currículo de saúde coletiva. E, ainda assim, segue sendo tratada, na prática cotidiana das instituições, como um relato a ser verificado antes de ser acolhido. A fragilidade do tema não está na ausência de discurso. Está na distância entre o discurso e o que acontece quando uma mulher, de fato, abre a boca para contar o que viveu. 

O crédito à palavra como ato de cuidado 

Toda violência de gênero acontece, majoritariamente, sem testemunhas, sem câmeras, sem laudo imediato. Ela ocorre dentro de casa, dentro de uma relação, dentro de uma hierarquia de poder que normalmente já isolou a vítima antes mesmo do episódio mais grave. Por isso, o relato da mulher não é “uma das fontes” de informação sobre o que houve — na maioria dos casos, é a fonte. Tratar essa fala com desconfiança como ponto de partida é, na prática, inviabilizar o próprio reconhecimento da violência. 

Dar crédito ao que a vítima diz não significa abrir mão de qualquer processo de escuta qualificada ou de investigação, quando ela for necessária. Significa não inverter a lógica: não é a mulher que precisa provar que sofreu, é o sistema que precisa se organizar para acolher primeiro e investigar depois, sem fazer da dúvida o ponto de partida do atendimento. Há uma diferença ética enorme entre escutar com cuidado técnico e escutar com suspeita. A primeira protege; a segunda pune duas vezes.

Esse crédito inicial à palavra é também uma questão de saúde. Quando uma mulher chega a um serviço de saúde, a uma delegacia, a um CREAS, e percebe que sua dor está sendo medida, contestada ou minimizada, o dano não fica restrito ao episódio de violência original. Um segundo ferimento é produzido ali, por quem deveria proteger. 

A instituição que se protege a si mesma 

As instituições que deveriam acolher mulheres em situação de violência — serviços de saúde, sistema de justiça, segurança pública e até espaços de trabalho e universidades — frequentemente reproduzem, em sua lógica de funcionamento, os mesmos mecanismos de poder que produziram a violência. Cobram provas concretas onde raramente existem. Avaliam o comportamento da mulher antes, durante e depois do episódio, como se houvesse um roteiro correto de como reagir a um estupro, a uma agressão, a um assédio. Perguntam por que ela demorou para denunciar, por que continuou na relação, por que não gritou, por que estava bebendo, por que usava determinada roupa. Cada uma dessas perguntas desloca o centro da investigação: em vez de investigar o agressor, investiga-se a vítima. 

Esse comportamento institucional não é um defeito pontual de profissionais despreparados — embora a formação insuficiente também tenha seu peso. Ele é, antes, um mecanismo de autoproteção. Reconhecer plenamente a violência relatada por uma mulher frequentemente implica reconhecer falha do próprio sistema, do próprio serviço, às vezes de um colega, de uma instituição, de uma corporação. Proteger a reputação da instituição passa a ser, na prática, mais urgente do que proteger a mulher. A reputação do agressor, sobretudo quando ele ocupa posição de prestígio, poder ou proximidade institucional, frequentemente pesa mais na balança do que o relato da vítima. Isso vale para igrejas, empresas, universidades, hospitais, forças policiais e o próprio sistema judicial. Quando a instituição se fecha, ela não está sendo neutra: está fazendo uma escolha, e essa escolha tem nome. 

Esse fechamento institucional tem efeito concreto sobre os números que abrem este texto. Parte considerável da subnotificação de violência contra a mulher não decorre de a mulher não querer falar. Decorre de ela já ter aprendido, por experiência própria ou alheia, que falar tem custo e raramente traz reparação proporcional. 

Quando o agressor tem currículo: o caso da universidade 

A universidade gosta de se pensar como espaço de exceção: lugar de pensamento crítico, de produção de conhecimento sobre desigualdade, muitas vezes o próprio lugar onde se ensina e se pesquisa violência de gênero. Essa autoimagem cria um ponto cego perigoso. Quando o relato envolve um colega bem avaliado, um pesquisador produtivo, um orientador com prestígio internacional, alguém que já discursou publicamente sobre direitos humanos ou que se declara aliado da causa feminista, a reação mais comum não é investigar — é duvidar do relato em nome da biografia do acusado. 

O senso comum constrói a imagem do agressor como um homem rude, sem instrução, facilmente identificável. Essa imagem é cômoda e é falsa. Dentro da universidade, o agressor frequentemente é o professor querido pelos alunos, o pesquisador que capta recursos, o colega articulado que sabe usar a linguagem da própria área para se defender — inclusive a linguagem dos direitos humanos e da equidade de gênero, quando ela serve de escudo. Quanto mais sofisticado o vocabulário de defesa, mais difícil fica para a comunidade acadêmica aceitar que aquele relato é verdadeiro, porque a sofisticação é lida, erroneamente, como prova de caráter. 

O resultado é um cálculo institucional silencioso: o currículo do acusado pesa contra a palavra da vítima. Quanto mais ele representa para o departamento, o programa de pós-graduação ou a captação de financiamento, maior a resistência institucional em tratar a denúncia com seriedade. Comissões de ética e sindicâncias se arrastam, colegas evitam testemunhar por medo de retaliação profissional, e a estudante ou servidora que denuncia frequentemente é quem termina mudando de orientador, trancando matrícula ou deixando o programa — enquanto o acusado segue lecionando, orientando e representando a instituição. A universidade, nesses casos, não está sendo ingênua. Está protegendo um ativo que considera mais valioso do que a integridade de quem denunciou. 

O ciclo da revitimização 

Quando o sistema responde ao relato de violência com desconfiança, burocracia excessiva, repetição desnecessária do depoimento ou questionamento moral da vítima, instala-se o que a literatura em saúde coletiva e ciências sociais chama de revitimização: a mulher é ferida de novo, agora pelas próprias estruturas que deveriam tratá-la. 

Esse processo costuma ser cíclico, não um evento isolado. A mulher relata a violência no posto de saúde e é questionada. Vai à delegacia e precisa repetir os detalhes mais íntimos do episódio para um agente que duvida dela. Se avança um processo judicial ou uma sindicância interna, repete novamente o relato, agora diante do agressor, de seus colegas ou de seu advogado, em um ambiente formal que raramente foi pensado para acolher. Em cada etapa, a dúvida institucional reaparece, e cada repetição da dúvida reativa o trauma original. Quando o agressor ocupa posição de autoridade — um chefe, um orientador, uma liderança religiosa ou comunitária —, o ciclo de revitimização costuma se misturar ainda com pressão para não prosseguir, retaliação profissional, isolamento de colegas e amigos que preferem não se posicionar, e o resultado é uma mulher que aprendeu, na pele, que pedir ajuda também dói. 

O que esse processo custa na vida real 

As consequências da violência, somadas às da revitimização institucional, não se limitam ao momento do episódio. Elas se espalham por todas as dimensões da vida da mulher. 

No plano mental, o quadro mais comum envolve sintomas de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade generalizada, transtornos alimentares e do sono e, em casos mais graves, ideação suicida. A literatura em saúde mental e violência é consistente nesse ponto: não é só o evento traumático que produz adoecimento, é também o ambiente de descrédito que se segue a ele.

No plano físico, além das lesões diretas da agressão, mulheres em situação de violência crônica apresentam maior prevalência de doenças relacionadas ao estresse sustentado — hipertensão, distúrbios gastrointestinais, dores crônicas sem causa orgânica evidente, comprometimento do sistema imunológico — e, no caso de violência sexual, maior exposição a infecções sexualmente transmissíveis e gestações não planejadas, como reforça o próprio relatório da OMS de 2025. 

No plano familiar, mesmo quando a violência não acontece dentro de casa, ela costuma alterar a dinâmica doméstica: famílias que pressionam a mulher a não prosseguir com a denúncia para preservar a paz ou a reputação familiar, parentes que se posicionam ao lado do agressor por proximidade ou conveniência, e um processo de isolamento da rede de apoio que muitas vezes já havia começado antes mesmo da denúncia, como estratégia do próprio agressor para garantir silêncio. 

No plano social, o estigma ainda recai com mais força sobre quem denuncia do que sobre quem agride. Mulheres que relatam violência sofrem julgamento da própria comunidade, perda de relações de amizade, exclusão de espaços religiosos, comunitários ou acadêmicos, sobretudo quando o agressor tem prestígio social ou profissional. 

No plano do trabalho — e, no caso da universidade, também no plano da formação e da carreira acadêmica —, a violência compromete diretamente a capacidade produtiva: afastamentos, perda de concentração, presenteísmo, atrasos na titulação, mudanças forçadas de orientador ou de equipe, e demissões ou desligamentos motivados direta ou indiretamente pela situação. Quando a violência ocorre no próprio ambiente profissional ou acadêmico, é quase sempre a vítima, não o agressor, quem acaba mudando de função, de turma, de programa ou de instituição. 

Encerrando 

Falar sobre violência contra mulheres em 2026 não pode mais se restringir a campanhas de conscientização ou à existência formal de leis e protocolos. O dado de que o índice global de violência praticamente não se moveu em 25 anos é um convite direto a olhar para dentro das instituições — inclusive as de saúde, inclusive a universidade, inclusive os próprios espaços de formação e pesquisa — e perguntar: o que estamos fazendo, concretamente, quando uma mulher chega até nós e conta o que viveu? Estamos acolhendo, ou estamos, mais uma vez, pedindo prova? 

Fonte de dados: Organização Mundial da Saúde (OMS), relatório global sobre prevalência de violência contra mulheres, divulgado em novembro de 2025.

Sheila Rubia Lindner é docente e Chefe do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculada ao Centro de Ciências da Saúde (CCS) e ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/UFSC). É também líder do Grupo de Pesquisa Violência e Saúde (VESA/UFSC), ativo desde 2005, com trajetória consolidada na produção científica e na formação de pesquisadores na área de violência de gênero, saúde coletiva e políticas públicas.


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