Por João Pedro Garcia.
A anunciada presença de destróieres e outras unidades navais estadunidenses no sul do Caribe não é apenas uma manobra militar; é um símbolo geopolítico — e um alerta claro de que, para Washington, a vizinhança continua sendo uma zona de influência onde a soberania alheia se submete a interesses externos. Reportagens recentes confirmam o envio de três destróieres guiados ao largo da costa venezuelana sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Para os povos da América Latina e do Caribe, esse tipo de operação reveste-se de memórias dolorosas. A Doutrina Monroe, proclamada em 1823 como um aviso às potências europeias, tornou-se historicamente uma carta-branca para intervenções e para a construção de um “patrimônio de segurança” hemisférico estadunidense — uma tradição ampliada por corolários e práticas imperialistas que usaram justificativas de ordem pública para intervir nos assuntos internos de Estados soberanos. Hoje, quando os recursos e a diplomacia falham, a marinha aparece como alternativa simbólica e prática.
Do ponto de vista venezuelano e de nações caribenhas vizinhas, a chegada de navios estrangeiros ao seu mar territorial ou às suas proximidades é percebida como um ato de coerção. O governo de Caracas reagiu mobilizando forças e denunciando uma tentativa de cerco político-militar que, mais do que combater rotas de tráfico, pressiona um governo que Washington prefere isolar. Os Estados Unidos dizem querer controlar o narcotráfico, mas nada fazem internamente e o uso do fentanil tem se tornado um problema gravíssimo de saúde pública com milhares de mortos anualmente no país.
Nesse cenário, México e Brasil assumem importância estratégica ao se posicionarem contra qualquer forma de intervenção militar externa. Esse apoio rompe parcialmente o isolamento que Washington tenta impor a Caracas e sinaliza que a América Latina tem alternativas próprias diante das pressões externas.
Para a soberania latino-caribenha, a presença de uma frota estrangeira funciona como pressão indireta sobre governos legítimos, ampliando tensões e desestabilizações internas e oferecendo cenários em que atores domésticos, geralmente com cumplicidade externa, podem exigir medidas de intervenção estrangeira.
A paz e a segurança do continente só se consolidarão quando as políticas públicas e as investigações transfronteiriças forem conduzidas com respeito à autonomia dos Estados e à liderança regional — e não quando navios de guerra forem usados como linguagem diplomática. O continente já atingiu o limite de sua paciência com a arrogância, a intromissão constante e as políticas coercitivas das potências imperialistas. Os Estados Unidos, um império em claro declínio, já iniciaram sua trajetória irreversível de queda. No entanto, em um movimento desesperado e predatório, buscam acelerar a pilhagem de nossos recursos naturais, tentando apropriar-se de forma ilegítima daquilo que, por direito e por destino, pertence exclusivamente aos povos soberanos desta terra.
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