‘Tá na hora do Lula chamar o Povo, como faz o Petro

Poucos dias antes de o governo Lula III sofrer um revés indigesto, o governo Petro conquistou uma vitória significativa: a aprovação de uma “Reforma Laboral” que irá impactar o mundo do trabalho colombiano

Lula e Petro – Foto: Ricardo Stuckert

Por Pedro Chê*

Petro? Gustavo Petro é o atual presidente da Colômbia — e, aliás, o primeiro de esquerda a ocupar esse cargo na história do país. Mas por que mencioná-lo, se meu apelo é dirigido ao Lula?

Poucos dias antes de o governo Lula III sofrer um revés indigesto — a derrota na tentativa de alterar as regras do IOF, onde pretendia ampliar a arrecadação para financiar políticas públicas —, o governo Petro conquistou uma vitória significativa: a aprovação de uma “Reforma Laboral” que irá impactar o mundo do trabalho colombiano. Entre os pontos centrais, destacou-se a inclusão dos entregadores de plataforma no sistema de proteção previdenciária, o que é importantíssimo, afinal, como denuncia Paulo Lima, o “Galo”: “A uberização vem pra suprimir direitos”.

A proposta, que enfrentava resistência desde 2023 e chegou a sofrer alguns reveses, teve sua sorte definida com a entrada de um elemento decisivo: o povo. E não me refiro a pesquisas de opinião, ou enquetes.

Contra Petro, em sua busca por um novo pacto trabalhista, estavam as forças de sempre: os detentores do poder econômico e do poder legislativo. Mas, ao invés de deturpar a proposta em nome de uma conciliação humilhante — ou pior, transformá-la em bandeira de ocasião, como tantas vezes fez-se com a justa e popular pauta da “escala 6×1” —, Petro fez algo que, com certeza, arrancaria aplausos do saudoso Leonel Brizola: ameaçou levar a questão à consulta popular. “Esse país ainda vai se levantar, e será com o povo!”, que falta você faz, Caudilho.

Diante das barreiras erguidas, mandou um recado grave: “Se o Congresso não aprovar, levarei a questão diretamente ao povo.” Não tratou o povo como figurante de selfie na “Paulista”. Ao contrário, evocou o povo como um verdadeiro Leviatã — uma força avassaladora capaz de reordenar o jogo. Nesse cenário perigoso, as elites, acuadas, decidiram aceitar a proposta do governo.

Deixemos de sonhar com a Colômbia e passemos a despertar no Brasil. O que vemos é um Governo Lula III frequentemente nas cordas, com o ministro Haddad circulando com suas pastas e eloquência, buscando diálogo com quem não quer conversa — apenas emendas, cargos e favores. Observamos ministros, líderes do governo em ação, e em nada disso, até agora, o povo vinha aparecendo como sujeito da política — a não ser, claro, quando mencionado em pesquisas de opinião.

Eu, como tantos outros — entre os mais de 40% que confiaram o voto a Lula no segundo turno, mas que hoje não estão satisfeitos com os rumos do governo — assistimos a esse cenário com frustração e desalento. O noticiário, dominado por nomes como Lira e Motta, parece um filme de terror barato, com um enredo tão absurdo quanto cruel: o protagonista assiste – impotente-, a um filme de terror do qual ele mesmo faz parte. Resta apenas torcer, entre sustos e cortes (de orçamento), por um final suportável. Se já não podemos esperar otimismo, que ao menos a democracia possa continuar a respeitar em 2027. “O terror é não saber o amanhã” (Zé do Caixão).

Em uma coisa concordo com os bolsonaristas: o Lula “paz e amor” é algo anacrônico. Já não existe uma direita dita “civilizada” (o que nunca foi verdadeiramente) com quem “debater” (o que de fato nunca ocorreu), E o Centrão, longe de ser um Fausto em busca de favores, percebeu-se um Mefistófeles: ele sabe que o poder está com quem vende, não com quem se vende.

Quando digo que essa figura conciliadora perdeu o lugar no tempo, não quero dizer que Lula tenha desaprendido a fazer política — ao contrário. Talvez, nunca antes tenhamos estado diante do Lula tão hábil.

Mas ele insiste em sustentar uma civilidade globalista, enquanto o mundo — e o Brasil com ele — escorrega para uma distopia que lembra O Conto da Aia, com traços de Mad Max. O Diálogo Racional proposto por Habermas se esvai a olhos vistos, estamos caminhando rumo às fundas e ao tacape.

Vejo pessoas aguerridas, como Lindemberg, dizendo que é hora de “enfrentamento”. Vejo colegas nas redes sociais empunhando memes e vídeos para, enfim, militar por este governo. E o governo, de fato, tem boas pautas pelas quais vale a pena lutar — pautas que podem fazer o povo estar junto.

Mas já adianto: o povo está cansado. Cansado de injustiças, de promessas feitas de cima para baixo, e esquecida, a partir de qualquer justificativa. A reforma tributária é fundamental, sim — mas tão essencial quanto uma boa pauta é não se sentir abandonado.

Nessas horas, me imagino — e imagino você, leitor — rebatendo fake news em grupos de família, contestando colegas de profissão, defendendo nas redes um projeto político em que acreditamos. E então penso: como nos sentiríamos se, na primeira oportunidade, esse mesmo governo nos virasse as costas?

Se querem de nós voluntarismo e abnegação, que se ofereça em troca o mínimo indispensável: compromisso. É a única retribuição que a militância não só espera — mas que lhe é devida.

Provavelmente ainda não é tarde para que o governo promova uma guinada popular na sua forma de fazer política. E, sinceramente, não parece ser uma escolha tão difícil. O atual (o “presidencialismo de coalizão”) só tem trazido ao governo pesadelos e apreensões — sem oferecer, em troca, estabilidade, apoio consistente ou governabilidade. Tudo isso, mesmo sendo um governo incomparavelmente melhor do que o anterior.

Recorrer ao povo com certeza é um caminho muito mais promissor. E há muitos — como eu — dispostos a ir às ruas em defesa das boas pautas, da democracia. Pois, entre outras razões, sabemos o que está em jogo. O professor João Cezar de Castro Rocha está certo quando afirma: “será a eleição mais importante das nossas vidas”. Talvez a última eleição verdadeiramente democrática por muitos anos — ou décadas.

Pedro Chê é policial e historiador

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