
Por Cinthia Leone.
Negociada até as últimas horas antes da chegada dos chefes de Estado ao Rio de Janeiro, a declaração final da cúpula do BRICS foi marcada por tensões diplomáticas, principalmente em torno da linguagem sobre conflitos internacionais e sobre como posicionar o bloco frente aos impasses climáticos globais. A ausência confirmada de líderes como Xi Jinping e os ecos dos ataques de Israel e EUA ao Irã — país integrante do bloco — ajudaram a esvaziar politicamente o encontro. Ainda assim, sob a presidência brasileira, o BRICS conseguiu avançar na agenda de finanças, com destaque para a criação de um novo fundo de garantias para infraestrutura e clima, a ser operado pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).
A medida, antecipada pela Reuters e incluída agora na declaração, é considerada um passo concreto rumo à ambição do grupo de assumir mais protagonismo na coordenação de instrumentos próprios de financiamento. A proposta é reduzir os custos de capital e ampliar o acesso a investimentos em países do Sul Global, especialmente em projetos de transição energética e adaptação climática, driblando parte das barreiras impostas pelos padrões dos bancos multilaterais tradicionais. O fundo é apresentado como uma das bandeiras da presidência brasileira do BRICS, que segue até dezembro.
Além do fundo, a declaração final chancela uma proposta política de alto nível para guiar o financiamento climático: a chamada Leaders’ Framework Declaration on Climate Finance. A iniciativa conecta-se ao debate global iniciado no Roadmap Baku-Belém sobre a arquitetura financeira necessária para enfrentar a crise climática e antecipa discussões esperadas para a COP30, que será realizada em Belém do Pará, em novembro.
O texto reitera a necessidade de reformar o sistema financeiro internacional, garantindo mais espaço para políticas industriais verdes, instrumentos sob medida para países em desenvolvimento e uma distribuição mais justa de riscos. Neste sentido, o bloco apresenta uma proposta unificada de reforma específica do FMI, pedindo uma redistribuição mais justa das cotas e do poder de voto.
Apesar da ambição declarada, o documento ainda evita metas quantitativas ou prazos. O texto sugere um movimento de construção de autonomia: o BRICS aposta em estruturas próprias, como um laboratório de comércio e clima, uma parceria de mercados de carbono e o próprio fundo de garantias como ferramentas para financiar sua transição.
O bloco continua pressionando por mais ação prática dos países desenvolvidos — em especial no apoio à transferência de tecnologia e na ampliação do financiamento climático. A declaração também expressa a rejeição do BRICS a medidas comerciais com justificativa ambiental consideradas unilaterais, como as CBAMs, taxas de carbono na fronteira já adotadas por UE e Reino Unido. Esse posicionamento está alinhado às manifestações de países em desenvolvimento nas negociações climáticas da pré-COP de Bonn, na Alemanha, no final de junho.
A expectativa de que os BRICS coordenassem uma resposta mais clara ao impasse do financiamento climático herdado de Baku não se concretizou plenamente. Essa aposta vinha do protagonismo recente do bloco no texto sobre financiamento à biodiversidade fechado em Roma, em fevereiro, após o colapso das negociações da COP16 em Cali, na Colômbia, em 2024. Ainda assim, a presidência brasileira deixou um marco: o bloco passou a articular medidas estruturais com mais clareza e adotou uma linguagem comum que pode ser determinante para as negociações da COP30.
Em 2026, BRICS passará para a presidência indiana, que além de manter o foco nas reformas financeiras para o clima, também priorizará Inteligência Artificial e tecnologias da transição.
BRICS potência
Três estudos divulgados agora destacam o papel central dos países do BRICS na transição energética e na industrialização verde global.
O boletim da Zero Carbon Analytics reúne dados atualizados sobre a expansão das energias renováveis no grupo, mostrando que os BRICS já respondem por mais da metade dos investimentos globais em energia limpa, com destaque para solar e eólica. O relatório da Plataforma CIPÓ aprofunda essa análise ao defender uma cooperação mais estratégica entre os países do BRICS para impulsionar comércio, investimentos e parcerias em tecnologias verdes — transformando a transição energética em motor de crescimento econômico. Já o estudo do Net Zero Industrial Policy Lab (NZIPL) da Universidade Johns Hopkins detalha como políticas industriais coordenadas podem acelerar essa virada, com ênfase em inovação, cadeias de valor sustentáveis e governança climática.
Em conjunto, os três relatórios reforçam a mensagem de que os BRICS não apenas são indispensáveis para o cumprimento da meta de triplicar as renováveis até 2030, como também
“Durante a maior parte dos últimos 30 anos, a pergunta era onde fabricar com qualidade e a baixo custo. E, para a maioria das empresas, a resposta era: vá para a China. Mas agora, quando a pergunta muda para onde fabricar com qualidade e baixo custo com as menores emissões de carbono, o país que ganha destaque é o Brasil — por causa de sua matriz elétrica 90% limpa e de seu enorme potencial de industrialização verde nessa nova ordem energética global”, disse Tim Sahay, Co-Director, NZIPL, Johns Hopkins University.
“Investidores nacionais e estrangeiros estão apostando no potencial do Brasil para o “powershoring”, completa Sahay.
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