
Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Toda fantasia de carnaval tem uma característica em comum: ela é improvisada, dura o tempo de um bloco de rua e, quando a festa termina, volta para o fundo do armário sem que ninguém mais lembre muito bem por que aquilo pareceu uma boa ideia. É essa a imagem que não sai da cabeça quando se observa o desenho da chapa que o Campo Democrático apresentou para o governo de Santa Catarina em 2026. Gelson Merisio, ex-conselheiro da JBS e homem que declarou voto em Jair Bolsonaro nos dois turnos de 2018 sem qualquer constrangimento retroativo, foi escolhido para liderar o palanque que promete sustentar a reeleição de Lula no estado mais conservador do país. Ao seu lado, Ângela Albino, ex-PCdoB recém-chegada ao PDT, ocupa a vice-presidência da chapa como quem organiza os enfeites da festa. E, segundo reportagem do colega Marcelo Lula, do SC em Pauta, o plano de governo dessa suposta frente progressista está sendo escrito por Luiz Henrique Mandetta e Cláudia Costin, dois nomes que resumem décadas de gerencialismo neoliberal brasileiro.
Não é exagero dizer que a coisa toda funciona como uma fantasia. Ela é montada às pressas para uma ocasião específica, cumpre sua função decorativa durante um tempo limitado e, passada a eleição, corre o risco de ser guardada sem que ninguém precise prestar contas sobre o que ela realmente representou.
O verniz progressista: a instrumentalização da esquerda como cabo eleitoral do capital
Comecemos pelo nome que dá rosto à chapa. Gelson Merisio construiu toda a sua trajetória política dentro da centro-direita catarinense. Foi presidente da Assembleia Legislativa por cinco anos, ligado a entidades como a Facisc (federação das Associações Comerciais e Industriais de Santa Catarina) e a Acix (Associação Comercial e Industrial de Xanxerê), e chegou a ocupar interinamente o Palácio Santa Catarina em 2010. Em 2018, concorreu ao governo do estado e, no segundo turno contra o Comandante Moisés, declarou apoio a Bolsonaro sem meias palavras. Perguntado recentemente sobre esse episódio, ele afirmou publicamente que não se arrepende, alegando que havia, naquele momento, uma necessidade de ruptura do tecido social. É uma justificativa curiosa vinda de quem hoje se apresenta como o nome capaz de recuperar a imagem de Santa Catarina frente ao país. Atualmente, Merisio também ocupa cadeira no conselho da JBS, o que diz bastante sobre que tipo de interesses ele carrega para dentro dessa suposta unidade progressista.
Ângela Albino, por sua vez, chega como a peça que faltava para a análise do discurso (se é que estamos falando se um discurso só). Depois de mais de duas décadas de militância no PCdoB, período em que se tornou a primeira mulher eleita pelo partido na Assembleia catarinense e construiu um histórico respeitável de defesa dos direitos das mulheres, ela migrou para o PDT em março deste ano, justamente para viabilizar essa articulação em torno de Merisio. A justificativa apresentada foi a necessidade de somar forças em torno de um projeto maior. Só que essa soma tem um preço. Ângela entra com a autoridade moral construída ao longo de uma vida de atuação sindical e parlamentar, com a bandeira da defesa das mulheres e das causas populares, e empresta esse capital simbólico a uma candidatura cujo topo é ocupado por alguém que, há oito anos, torcia pelo rompimento institucional que Bolsonaro prometia. Enquanto ela discursa sobre representatividade e direitos, quem assina o plano de governo é outra gente completamente distinta.
A Santíssima Trindade do capital
E aqui chegamos ao ponto que talvez mereça mais atenção do que tem recebido. Segundo a apuração de Marcelo Lula, em reportagem que merece ser lida com atenção por quem acompanha essa disputa, a elaboração do plano de governo de Merisio está a cargo de uma equipe liderada por Luiz Henrique Mandetta na área da saúde e Cláudia Costin na área econômica.
Mandetta carrega hoje a reputação de ex-ministro que se indispôs com Bolsonaro por defender vacinação e isolamento social durante a pandemia, e é justo reconhecer que essa postura técnica teve mérito num momento de negacionismo oficial. Mas seria ingenuidade resumir sua trajetória a esse episódio. Ele é historicamente ligado ao DEM, hoje União Brasil, partido herdeiro direto da Arena e um dos principais fiadores do ajuste fiscal permanente no Brasil. Votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, apoiou o governo Temer e esteve alinhado à aprovação da Emenda Constitucional 95, o teto de gastos que congelou por vinte anos os investimentos no SUS. Antes da política, presidiu a Unimed Campo Grande, o que ajuda a entender de que lado historicamente ele enxerga a saúde pública, do lado da gestão privada e das cooperativas médicas, e esperamos então, que ele não pretenda trazer isso à Santa Catarina.
Cláudia Costin, por sua vez, é currículo puro da era das privatizações. Foi ministra interina da Administração Federal e secretária de Administração no governo Fernando Henrique Cardoso, participando diretamente da reforma do aparelho de Estado conduzida por Bresser Pereira, aquela que reduziu o tamanho e o alcance do setor público em nome da eficiência de mercado. Sua especialidade é reforma tributária e modelos de gestão previdenciária pensados sob a lógica do equilíbrio fiscal, o que na prática costuma significar corte de direitos e ampliação de parcerias público privadas. Passou também pelo Banco Mundial, instituição cujo receituário para educação e gestão pública não é exatamente conhecido por valorizar o funcionalismo ou romper com a meritocracia de mercado.
Juntar esses três nomes, Merisio na liderança, Mandetta na saúde, Costin na economia, é montar uma espécie de santíssima trindade do capital catarinense disfarçada de frente democrática. As pastas que de fato desenham o que um governo faz na vida das pessoas, a condução econômica e a política de saúde, ficam entregues a quadros que historicamente representaram justamente o projeto que essa suposta frente diz combater.
A esquerda de coadjuvante
O que sobra, então, para PT, PCdoB, PSOL, PV e Rede dentro dessa aliança batizada de Campo Democrático? Na prática, o papel de fornecer militância, capilaridade territorial e o selo de unidade em torno de Lula, sem necessariamente deter poder decisório sobre os rumos do estado. Afrânio Boppré e Décio Lima disputam o Senado com discursos legítimos sobre a necessidade de barrar o avanço da extrema direita em Santa Catarina, e é justo reconhecer a urgência real desse combate. Mas vale perguntar se aceitar a condição de vagão de um trem cuja locomotiva é dirigida por quem apoiou Bolsonaro, com o motor econômico entregue ao ideário tucano e a saúde nas mãos de quem defendeu o teto de gastos, é de fato construir uma frente ampla ou apenas administrar uma derrota anunciada com aparência de estratégia.
Há algo de sintomático nesse arranjo que talvez diga mais sobre o estado da esquerda catarinense do que sobre qualquer cálculo eleitoral bem sucedido. Quando a resposta a décadas de hegemonia conservadora em Santa Catarina passa a ser vestir a fantasia da direita histórica com purpurina progressista, cabe questionar se as novas gerações que hoje militam nesses partidos vão entender essa adaptação como resposta legítima às condições postas ou se, no fundo, ela representa a desistência de montar uma frente de verdade, capaz de enfrentar sem meios termos os sanguessugas populares em que a direita catarinense se transformou.
Talvez a pergunta mais honesta a fazer não seja se essa fantasia vai convencer o eleitorado catarinense. A pesquisa Atlas Intel já sugere que a resposta a isso, por ora, é não. A pergunta mais honesta é o que sobra depois que a festa passa. Se a resposta for apenas mais uma disputa perdida para um governador de direita, com a esquerda tendo emprestado seu nome, sua militância e sua história para sustentar candidaturas cujo plano de governo foi escrito por quem sempre esteve do outro lado da mesa, então talvez seja hora de admitir que essa fantasia, como todas as outras, não resolve o problema de fundo. Ela só adia, com brilho e purpurina, a conversa que a esquerda catarinense precisa ter consigo mesma.
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