Start-ups e fome: as duas faces da economia israelense. Por Tali Feld Gleiser.

A economia israelense, celebrada como potência tecnológica e inovadora, foi construída sobre a desigualdade, a ocupação e a exclusão sistemática da população palestina. Desde 7 de outubro de 2023, o impacto econômico dos conflitos expôs a fragilidade de um modelo sustentado em militarização e especulação.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A narrativa oficial sobre Israel costuma apresentar o país como um “milagre econômico”: uma nação cercada de inimigos que, graças ao engenho de seu povo, teria florescido como centro global de tecnologia e inovação. Mas sob esse mito de prosperidade esconde-se um sistema profundamente desigual, sustentado por um regime de ocupação que garante à economia israelense lucros extraordinários — sobretudo nos setores de defesa, vigilância e segurança digital.

Enquanto o país exporta softwares de espionagem e drones testados em território palestino, dentro de suas fronteiras cresce o número de famílias empobrecidas, sem acesso à moradia digna e pressionadas pelo alto custo de vida. É o que revelam dados recentes da própria imprensa israelense.

A prosperidade que nasce da ocupação

A economia israelense, como toda a sociedade, é altamente militarizada. Desde 1948, o investimento em defesa tem sido não somente um instrumento de segurança, mas motor de crescimento. Cada ofensiva sobre Gaza ou o Líbano gera contratos, pedidos de reposição de armamento e exportações de tecnologias “testadas em combate”.

Essa simbiose entre guerra e lucro é o que muitos analistas chamam de complexo militar-digital israelense. Empresas como Elbit Systems, Rafael e NSO Group — esta última criadora do software Pegasus, usado para espionagem política — cresceram com apoio estatal e se tornaram símbolos de um capitalismo de ocupação.

A “inovação” israelense, portanto, não pode ser entendida fora desse contexto colonial: a “guerra” contínua não é uma crise, é o modelo de negócios.

O contraste interno: pobreza e desigualdade

O Jerusalem Post e o Times of Israel divulgaram em 2024 que quase dois milhões de israelenses viviam abaixo da linha de pobreza — 20,7% da população, incluindo 872 mil crianças. A desigualdade se distribui de modo previsível: são mais pobres os árabes cidadãos de Israel e os judeus ultraortodoxos, grupos marginalizados por razões diferentes, mas ambos fora do centro do poder econômico sionista.

O World Inequality Report 2022 confirma que Israel está entre os países mais desiguais do mundo desenvolvido. Os 10% mais ricos concentram cerca de 49% da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 13%. A diferença de ganhos entre esses dois grupos é de 19 para 1.

Nem mesmo o “milagre das start-ups” escapa a essa lógica. A riqueza gerada pela alta tecnologia permanece concentrada em Tel Aviv e nas mãos de poucos investidores, enquanto o Estado reduz políticas sociais, privatiza serviços e amplia gastos militares.

Crise habitacional

Segundo Ofer Petersburg (The Jerusalem Post, 2024), 204 mil famílias israelenses lutam para pagar aluguel. A crise imobiliária, inflada por anos de especulação e falta de regulação, fez do direito à moradia um privilégio.

Em cidades como Jerusalém e Tel Aviv, o aluguel de um apartamento de três quartos subiu mais de 25% em um ano, ao mesmo tempo em que os salários reais estagnaram. A situação é agravada pela destinação de vastas áreas para uso militar ou assentamentos — que recebem subsídios e infraestrutura negados às comunidades árabes e palestinas.

Turismo em colapso

Após o início da ofensiva sobre Gaza, em 7 de outubro de 2023, o turismo — responsável por cerca de 3% do PIB e 200 mil empregos diretos — entrou em colapso.

  • Em outubro de 2023, houve queda de 76% nas chegadas de turistas em relação ao mesmo mês de 2022.
  • No último trimestre do ano, a redução foi de 81,5%.
  • As perdas diretas e indiretas já superavam 12 bilhões de shekels (R$ 19,8 bi).
  • Hotéis em cidades como Eilat e Nazaré operaram com apenas 10% de ocupação, e dezenas foram fechados.

O setor, que havia se reerguido após a pandemia, voltou a colapsar em razão do genocídio e dos recursos mobilizados para sustentá-lo. A economia de guerra gera lucros concentrados em poucos grupos, mas destrói as bases do trabalho civil e do comércio local. Essa dinâmica tende a se agravar diante do avanço da campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que ganha força e amplia seus impactos econômicos.

A desigualdade como política

Israel não é apenas um país desigual — é um país estruturado para ser desigual. As políticas fiscais favorecem grandes empresas e colonos; os subsídios à habitação concentram-se em assentamentos ilegais na Cisjordânia; e o orçamento militar consome recursos que poderiam sustentar políticas de redistribuição.

O resultado é um Estado próspero para os que dominam o capital e o território, mas precário para quem vive nas margens. A mesma lógica que segrega palestinos sob ocupação produz exclusão dentro das fronteiras israelenses.

A economia como espelho do colonialismo

A economia israelense é frequentemente descrita como resiliente. Mas o que se chama de resiliência é, na verdade, a capacidade de lucrar em meio à guerra. O “milagre econômico” de Israel não está separado de sua violência colonial estrutural e opressão do povo palestino — ele depende dela.

Referências

  • PETERSBURG, Ofer. Israel’s housing crisis: 204,000 families struggle to afford rent. The Jerusalem Post, 26 fev. 2024.
  • The Jerusalem Post. More Israelis are poor as gap widens between haves and have-nots. 2023.
  • The Times of Israel. Nearly 2 million Israelis below poverty line in 2023; 1 in 4 children are poor. 2024.
  • World Inequality Report 2022. Paris: World Inequality Lab, 2022.
  • AA News Agency. Tourism to Israel sees 76% decline in October since war on Gaza. 2023.
  • France 24. Gaza war paralyses Israeli tourism’s post-pandemic rebound. 2024.

Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. É apresentadora e produtora do programa Do Rio ao Mar.


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