Estou lendo um livro chamado El infinito en un junco, e nele há uma expressão que trata de uma das maiores provas de amor de uma pessoa pelo lugar onde vive: querer sair dele por não suportar a incoerência de não ser, o local, aquilo que se propõe a ser.
Sinto que as pessoas mais agarradas aos ideais fundacionais de um partido como o PT são as que um dia (pelo menos 1 único dia) já pensaram em sair dele. Quando não saem, resistem, se sentem mais fiéis às suas origens, do Partido, do que aqueles que se adaptam a adular a política de plantão.
O meu último texto no Portal Desacato tratava de algo assim.
Voltei a ele depois de receber mensagem das principais confederações de sindicatos europeus reunidas em Barcelona (na sede de Comisiones Obreras), junto com a Fundação Rosa Luxemburgo e a Fundação Friedrich Ebert. Queriam fazer homenagem a Paulo Freire no dia do seu aniversário.
O MST publicou homenagem. Sindicatos da CUT também o fizeram. Diversos movimentos sociais.
O PT, não.
Este ano, no 19 de setembro, não se publicou nem uma nota na página do PT na Internet.
Podem consultar. Verão que não há nada aparente, fazendo referência a esta pessoa tão importante para o partido.
É sintomático. Não é recalque. Nem melindro.
Pois, bem. Dias depois, todos falaram do discurso de Lula na ONU.
Eu até pensei que eu estava sendo muito carrancudo por gostar, mas por ficar com um gostinho de Algo me falta.
Eu queria é que ele gritasse mais, sacasse do bolso uma bandeira ou uma gravata da Palestina, rasgasse papéis e jogasse pro alto, baixasse do púlpito e começasse a bradar para a plenária de braços erguidos, em desespero, chorando mais uma vez…
Não. Não foi nada disso. Foi só um sonho meu.
No dia seguinte, Lula foi a um fórum de presidentes progressistas (Chile, Espanha, Brasil, Uruguai…), ali mesmo, numa sala da ONU, e soltou o verbo. Bem melhor que no plenário, no dia anterior. Pediu ao controlador do tempo que lhe cortasse a fala aos 4 minutos, alegando que os latino-americanos somos de falar demasiado. E falou 12 minutos.
Falou muito menos do que no dia anterior e disse Tudo. Muito!
Aliás, Lula fez aquilo que Paulo Freire mais pregava: a Pedagogia da Pergunta.
Aquela que vale mais que mil respostas.
Perguntou mais do que afirmou e constituiu um marco histórico dentro do seu próprio partido. Provocou o PT a se olhar no espelho e a fazer terapia (qualquer uma, mas que faça!).
Fazer de conta que não se sentiu aludido pelas espontâneas recentes perguntas de Lula seria impensável, agora, para qualquer petista. Olhar para o outro lado vai dizer mais do futuro do partido do que pensa a sua classe dirigente. Como sempre, as melhores inquietudes e angústias (de Lula), as que saem de dentro, sem filtros, nem escritores fantasmas de refinados discursos diplomáticos que nada acrescentam a quem tanto espera, saíram certamente debaixo de intensa pressão emocional.
Parabéns, Paulo Freire. Só você mesmo.
Com a palavra: Quem quiser responder as perguntas de Lula.
Por não suportar a incoerência de não ser aquilo que se propõe a ser.
“Em certo sentido, todos levamos dentro íntimas bibliotecas clandestinas de palavras que nos marcaram profundamente” (El infinito en un junco, Irene Vallejo). Lula só botou pra fora.
Aquele abraço.
@1flaviocarvalho, @amaconaima, sociólogo, escritor. Barcelona, 7 de agosto de 2025.
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