Professor Paulo contra os 12 deputados do após calypso. Por Flávio Carvalho.

Por Flávio Carvalho.

No dia 14/12/2003, quando Eduardo Suplicy implorou, sem êxito, na Direção Nacional do PT, para não expulsar 4 deputados federais do partido, quase chorou. Não conseguiu.

Ali, alguém teve a coragem de dizer-lhe que não importava o número de deputados a perder e sim o rigor com a disciplina do “Comitê Central” (a Direção Nacional).

A deputada federal Luciana Genro, foi expulsa, entre os 4. Começava sua carta com estas frases: “Em primeiro lugar é preciso dizer que não estamos diante de um processo disciplinar. A maior demonstração disto é que o processo da comissão de ética não versou sobre nosso voto na reforma da previdência.”

A carta de Luciana, hoje disponível na Internet, foi profética em tudo. E todo petista não deveria dormir sem a ler.

22 anos depois, o PT se encontra em meio a uma imensa turbulência. O pior é que era previsível.

A crise é a mesma, embora atualizada, e já extrapolou qualquer Operação Abafa.

12 deputados do PT votaram, no Congresso Nacional, a favor de um projeto político fascista. Estão sofrendo os piores ataques pessoais (sou contra isso), quando, na verdade, o problema é Político, com P maiúsculo. Sou contra o que eles fizeram, como projeto político. Pessoalmente, nem os conheço. Não posso ser contra Eles.

Expulsada, na época, Luciana Genro falou o que vale para hoje. Ela denominou assim: “é O PT negando-se a ser PT”.

Bombeiros, atualmente, COM medo de ser feliz, dentro do PT, tentam desviar o foco.

Bla bla.

Se é apenas um tema interno, como se não vissem o que o Brasil inteiro já viu.

Bla bla.

Se a orientação para a bancada parlamentar era outra e alguém “cometeu um engano” na hora de votar com a consciência (protofascista) ou de forma inconsciente, ingênua, enganada…

Bla bla.

Se era “apenas” uma tática de aliança estratégica com o fascismo. Tal qual a esquerda fez com Hitler, “para tentar ganhar mais na frente”.

Bla bla.

Se o importante não é a Anistia dos golpistas (que está em jogo depois de todo o trabalho que deu para condenar no STF). Se o que mais importa, sim, é o PIB, o Bolsa-Empresário-Exportador (anti-Trump), o filho de Bolsonaro na Disney…

Esse texto fala de História Partidária, sobre o recentemente passado aniversário do maior defensor da coerência interna do PT (longe daquilo, ultrapassado, de “Roupa suja se lava em casa”; ou “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”; absurdo que escutei nestes dias, escrito por um grupo de companheiros universitários do meu Recife.

Paulo Freire neles!

Nos chamarão de velhos! A nós, os que recorremos à memória histórica como antídoto, antifascista.

Eu estava na quadra do sindicato dos bancários de São Paulo, tentando escutar o discurso de Valerio Arcary, então na extrema esquerda do PT. Quando Berzoini e Vaccari, líderes políticos, defenderam a expulsão da Convergência Socialista, aos gritos de 666! Uma referência ao número associado ao diabo, o anticristo. A antipolítica fazendo-se de analfabeto político (Brecht).

Um dos meus orgulhos petistas é ter me filiado nas Horas Baixas, quando Lula perdeu para Collor. Ao contrário dos oportunistas, por compreender que aquela, sim, era a hora da luta.

Mais ainda, quando ostento a glória de ter passado por um incipiente processo de expulsão do partido, ainda quando eu tinha pouco tempo de filiado.

Desmontei os argumentos da época, agarrando-me na defesa da própria Política escrita nas páginas internas do próprio partido.

Ser coerente é chato e incomoda. A mim, não importa. Nunca foi fácil defender o PT da “conjuntura sempre desfavorável”. Os do Sempre Impossível, Agora não, Deixar pra depois, Paciência… Prossegui reafirmando o quanto seria fácil que o PT se encontrasse relendo a sua própria história. A que mais ensina.

Está em todas as entrevistas de Lula candidato, falando que o que mais importa não é ganhar eleição e sim “elevar o nível de consciência da Classe Trabalhadora”. Busquem na Internet, quem quiser ver pra crer.

Quem lembra?
Era verdade ou mentira?

Faz tempo que acredito, não sem antes fazer muita reflexão e leitura (e escrita, em diálogo com quem lê as bobagens que escrevo) que sigo prestando a melhor disciplina partidária quando escuto atentamente aquele jovem pernambucano, Jones Manoel. O atual maior crítico nacional do que ele chama de lulo-petismo, em tudo que isso representa e significa.

Enquanto o atacam, a ele e à sua família (tal qual contra os 12 mencionados deputados), eu sinceramente apenas agradeço ao líder revolucionário.

Sempre digo que amigo é principalmente aquele que diz o que sabe que não nos agrada escutar.

Minha Vozinha dizia que remédio bom, o que cura melhor e mais rápido, é aquele que arde, como o velho Mertiolathe. Quem quer somente fazer de conta, embrome e assopre o algodão como se fazia com o Mercúrio Cromo.

Não preciso abandonar a palavra Democracia, agora sequestrada na boca também dos neoliberais e fascistas, para decidir voltar a priorizar a palavra Revolução. A primeira, Democracia (no Estado Burguês) até manteria os meus privilégios. Eu poderia até seguir me autoenganando sobre as melhorias na MINHA vida.

Mas, e lá fora da MINHA casa?

É por isso que faz décadas Cuba resiste usando a velha palavra (a que não engana ninguém nem a si mesmo). Revolução!

Paulo Freire dizia que política é abstração, sair de si, pensar no outro, tanto quanto em si mesmo. E que é preciso acreditar na crítica, sempre construtiva. Tanto quanto acreditar no Povo, como ente subjetivo.

Há uma frase que, em outras palavras, muito se atribuiu a Lenin, no meio da Revolução Russa. Que preferia errar com a classe trabalhadora do que ter a pretensão de acertar sem ela.

A vida é uma eterna formação política.

O problema é que tem gente que acredita que formação política é somente um evento que de vez em quando se realiza.

“O medo de amar é não arriscar” (Beto Guedes)

Aquele abraço.

@1flaviocarvalho, @amaconaima, sociólogo, escritor. Barcelona, 7 de agosto de 2025.

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