
“Patrão, o trem atrasou. Por isso estou chegando agora… O trem atrasou meia hora. O senhor não tem razão pra me mandar embora.” (Composição: Arthur Vilarinho, Estanislau Silva Pinto e Paquito, 1941).
Agradeço a todas as pessoas que se preocuparam por nós ao saber dos acidentes de trem na Espanha.
Sendo um destes acidentes mortais, exatamente no trem que eu costumava pegar para ir ao trabalho.
Estou de férias e estamos bem, em casa. Ainda bem.
Diferente da família das pessoas que morreram, mais de quarenta.
Aproveito para lembrar que não é a primeira vez que protestamos e denunciamos (eu, pessoalmente, mas também os coletivos sociais dos quais faço parte) o péssimo e perigoso serviço de transporte público ferroviário, principalmente na região onde moramos e na linha de trem, R4, que sou obrigado a utilizar.
O resto da Espanha tem 1 incidência para cada 10 que aqui ocorrem, segundo o próprio gestor público dos trens, RENFE e ADIF. 90% dos problemas acontecem na Catalunha.
Infelizmente, quem mais necessita deste serviço MUITO precário é a maioria da classe trabalhadora. E a Catalunha possui a maior proporção de pessoas de origem migrante em toda a Espanha.
O sistema político da Espanha, chefiado por uma monarquia instalada na Idade Média, é estruturalmente classista (beneficia os mais ricos, que jamais pegaram um trem na vida).
E ainda por cima, estruturalmente racista. A maioria das pessoas que me acompanham no trem (que SEMPRE atrasa ou que até nem vem), cada manhã, é de origem migrante ou racializada.
E a Espanha sabe muito bem disso, sobre quem mais está excluído e vulnerável. Por mais que a maioria dos espanhóis não queira admitir essa realidade.
O racismo que menciono não se trata de culpa individual de quem me lê e gosta ou não gosta. Ele é, sim, uma questão de responsabilidade coletiva, que nós (eu me incluo, como cidadão privilegiado da classe trabalhadora), temos dificuldades de reconhecer em nós mesmos.
No dia em que as pessoas de origem migrante, grande contingente populacional deste país, tiverem os seus direitos (de votar e de ser votados, inclusive) plenamente reconhecidos, oxalá o transporte público seja uma prioridade reconhecida dentro do arcabouço capitalista que prioriza explorar a mão-de-obra sem valorizar-nos como seres humanos.
RENFE desumaniza. Disso eu já sabia, ao nos tratar como carga e perecível mercadoria.
Que RENFE arrisca e joga com as nossas vidas, isso eu também, Lo Siento Mucho… já sabia.
Com meus sinceros sentimentos às famílias das pessoas mortas (“assassinadas”, de fato; quando, de certo modo, por tudo que aqui expliquei, já se sabia…).
Aquele abraço.
@1flaviocarvalho é sociólogo e residente em Barcelona desde o ano de 2005.
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