Polilaminina coloca Brasil no mapa da inovação, e expõe suas fragilidades

Foto: Divulgação

A polilaminina saiu do ambiente laboratorial para o centro do debate público brasileiro ao reunir promessa científica, pressão social e controvérsia regulatória. Desenvolvida ao longo de quase duas décadas pela pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, na UFRJ, a substância é uma versão polimerizada da laminina, proteína da matriz extracelular que, como explica a epistemologista Alexandra Boing, “funciona como um trilho que orienta o crescimento dos neurônios”. A proposta é que essa estrutura estimule a reconexão de axônios rompidos em lesões medulares, um avanço potencialmente significativo em casos de paraplegia e tetraplegia. Para Boing, o reconhecimento desse trabalho também passa por sua dimensão política: “são décadas de pesquisa básica em um país que historicamente investe pouco em ciência, e isso precisa ser valorizado”.

O principal marco recente ocorreu em 5 de janeiro de 2026, quando a Anvisa autorizou o início da fase 1 dos ensaios clínicos em humanos, após a atualização regulatória promovida pela RDC nº 945/2024. Essa etapa envolve apenas cinco pacientes e tem como objetivo avaliar a segurança da substância, não sua eficácia. “A fase 1 não significa que o tratamento está aprovado, significa que ele pode começar a ser testado com segurança”, ressalta Boing. Ainda assim, a repercussão midiática e a chamada “janela de ouro” de até 72 horas para aplicação após o trauma intensificaram a pressão por acesso imediato, impulsionando a judicialização. Até 24 de fevereiro, a Anvisa registrava 55 pedidos judiciais e 30 autorizações para uso compassivo fora do protocolo oficial.

Esse cenário, embora compreensível diante da urgência dos pacientes, preocupa a comunidade científica. “O uso compassivo não substitui o estudo clínico, porque não segue o mesmo rigor metodológico”, explica Boing, alertando para o risco de comprometer a produção de evidências confiáveis. Ao mesmo tempo, o caso escancara fragilidades estruturais: a patente internacional da polilaminina não foi registrada por falta de recursos, o que pode limitar o retorno econômico ao Brasil. “A gente produz ciência de alto nível, mas não consegue sustentar essa produção com financiamento contínuo”, afirma. Entre a esperança e o método, a polilaminina expõe não apenas uma possível inovação médica, mas também os limites de um sistema científico que avança apesar de suas próprias condições.

Assista a entrevista na íntegra:


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