Como Jorge Bornhausen comanda a crise do PSD e reativa velhos nomes no jogo de 2026 em SC

O centro invisível da crise
A crise que hoje sacode o PSD em Santa Catarina — marcada pela suposta expulsão do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, pela pressão sobre a candidatura do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, e pelo retorno do ex-governador Raimundo Colombo ao centro do tabuleiro — tem um ponto de convergência que não aparece nas estruturas formais do partido, mas organiza seus movimentos com precisão: Jorge Bornhausen. Ex-governador indicado ainda no período da ditadura militar, ex-senador, fundador do PFL (Partido Frente Liberal), articulador do DEM (Democratas), sucessor direto do PFL e um dos responsáveis pela criação do PSD(Partido Social Democrata), Bornhausen ocupa hoje o cargo de presidente de honra da sigla, uma função sem poder institucional explícito, mas que, na prática, opera como centro decisório informal de uma engrenagem política construída ao longo de décadas.
Quem define o jogo
É desse lugar que ele volta a agir no momento em que o partido ameaça fragmentar, intervindo diretamente na definição de candidaturas, alianças e conflitos, num padrão que dispensa exposição pública, mas impõe direção. Foi Bornhausen quem questionou a viabilidade de João Rodrigues como candidato ao governo, foi ele quem lançou Raimundo Colombo — ex-governador por dois mandatos, cuja gestão terminou sob crise fiscal e que teve o nome citado em delações da Operação Lava Jato posteriormente arquivadas por falta de provas corroboradas — como alternativa “viável”, e foi ele quem introduziu o elemento mais explosivo da crise ao acusar o governador Jorginho Mello de oferecer cerca de R$ 300 milhões em obras para Chapecó em troca da retirada de uma candidatura adversária, deslocando o eixo do debate e reposicionando o conflito em escala estadual.
A expulsão como instrumento de poder
A movimentação ocorre ao mesmo tempo em que o PSD avança sobre o processo de expulsão de Topázio Neto por infidelidade partidária, em razão de sua aproximação com o governo do PL, evidenciando que o discurso disciplinar encobre, na prática, uma disputa por comando interno e alinhamento estratégico para 2026. Nesse cenário, Bornhausen atua como aquilo que a política raramente nomeia em voz alta, mas reconhece nos bastidores: o manda-chuva, aquele que não precisa disputar eleição para definir quem disputa, nem ocupar cargo para influenciar decisões, porque construiu ao longo do tempo uma rede de lealdades, dependências e continuidades que sustentam sua centralidade.
Um histórico que atravessa crises
Sua trajetória ajuda a explicar esse lugar. Ao longo das últimas décadas, seu nome ou o de seu grupo político foram associados a episódios relevantes da política nacional, como o escândalo do Banestado, nos anos 2000, quando apareceu em listas de investigados relacionadas à evasão de divisas por meio de contas no exterior — caso no qual sempre negou irregularidades e que não resultou em condenação judicial — e o período em que presidia o DEM durante o escândalo conhecido como “Mensalão do DEM”, que expôs quadros do partido em esquemas de pagamento ilegal e gerou forte desgaste político à legenda sob sua liderança, ainda que sem implicação direta contra ele. Esses episódios, somados à sua origem como governador indicado durante a ditadura e à manutenção de influência ao longo da redemocratização, consolidam um padrão de permanência que atravessa crises, governos e rearranjos partidários sem ruptura estrutural.
Colombo e a reciclagem do poder
A escolha de Raimundo Colombo como solução para o impasse atual reforça essa lógica: trata-se de um nome já conhecido, já testado e já inserido nesse mesmo circuito de poder, cuja trajetória inclui não apenas dois mandatos no governo do estado e três passagens pela prefeitura de Lages, mas também desgaste administrativo e menções em investigações de corrupção que, embora não tenham resultado em condenação, permanecem como marcas políticas. O retorno de Colombo, nesse contexto, não aponta para renovação, mas para recomposição de um grupo que busca manter controle diante do risco de fragmentação interna e avanço de forças externas, como o PL de Jorginho Mello.
O poder que não sai de cena
No fim, a crise do PSD revela menos um conflito ideológico e mais uma disputa sobre quem controla o acesso ao poder, ao orçamento e às alianças futuras, em um cenário onde as decisões não se esgotam nas instâncias formais e onde figuras como Bornhausen seguem operando como eixo invisível, porém decisivo. Em Santa Catarina, a política pode até mudar de personagens a cada eleição, mas continua sendo conduzida por quem aprendeu, há muito tempo, que no jogo do poder não é preciso aparecer para mandar.
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