Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em outras épocas, quando se falava em direita, no sentido de espectro ideológico, associávamos a palavras como “sistema” e “moralismo”. Ou seja, a direita, conservadora por excelência, como a nomenclatura aponta, desejava conservar o sistema vigente, com todas as suas hierarquias e exclusões, além de conservar a moral e os bons costumes.
Corriqueiramente, a direita se posicionava contra a liberdade de expressão, em favor da judicialização da vida social e, consequentemente, pelo policiamento do que as pessoas poderiam (ou não) dizer.
Por uma dessas ironias políticas, no presente contexto, a direita (sobretudo os setores mais extremos, sob o aspecto retórico) tem se vendido como “antissistema” e favorável à liberdade de expressão. Seria uma mudança de direção ideológica? Maior conscientização sobre os direitos democráticos da população e das mudanças necessárias?
Resposta negativa para ambas as questões. Trata-se de mera demagogia. Em tempos de crise econômica, a classe trabalhadora anseia por medidas que modifiquem uma determinada conjuntura adversa. Eleitoralmente falando, espera-se por rupturas. Como diria o grande filósofo contemporâneo Tiririca: pior do que está, não fica.
Daí, de uma maneira oportunista, políticos de extrema direita – os Mileis e Marçais da vida – se apresentam como nomes antissistema. Mas esse “sistema”, que dizem combater, não é o capitalismo, responsável pela pauperização do proletariado. Combatem o que dizem ser o sistema globalista, hipotético plano de dominação comunista planetário. Do mesmo modo, a única liberdade de expressão que a extrema direita defende é a de seus pares. Para a esquerda, é censura e prisão.
No entanto, tão irônico quanto a extrema direita antissistema é a esquerda “sistema” e “moralista”. E essa lamentável situação passa, em grande medida, por parcela considerável dos setores que se dizem progressistas ter aderido ao identitarismo, o novo soft power do imperialismo estadunidense. Aliás, o próprio termo “progressista”, em muitas ocasiões, é utilizado como verniz para designar uma falsa esquerda.
Para os identitários, as diferenças de identidades substituem a luta de classes. Logo, não se trata mais de derrubar o sistema, mas corrigi-lo. Como se consegue tal objetivo? Simples. A partir da “representatividade”, tendo algumas minorias – negros, homossexuais ou indígenas – em espaços de poder. Mais “sistema” impossível. Não se fala mais “abaixo o capitalismo”; é “abaixo o patriarcado”, “abaixo a branquitude” e por aí vai. Como o povão não compra tais abstrações universitárias, além da arrogância desses setores, a esquerda passa a ser percebida e generalizada como “sistema”.
O identitarismo também é caracterizado pelo moralismo e por ditar regras. Como apontado no início desse texto, algo outrora associado à direita. Não se pode mais usar certas palavras, determinadas expressões devem ser proibidas, devemos nos comportar de uma maneira específica. Assim, a polícia moral identitária quer moldar o mundo de acordo com suas convicções. E isso não vale apenas para o presente. Não é raro também “cancelarem” obras literárias e autores de outras épocas. Desnecessário dizer o quanto esse autoritarismo não é popular.
Diante dessa situação, a mensagem é clara. Ou a esquerda abandona esse posicionamento “pró-sistema” e “moralista”, ou a classe trabalhadora abandona a esquerda. Ou, pior ainda, talvez o objetivo desses setores infiltrados seja exatamente isso: corroer e inviabilizar a esquerda por dentro.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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