Os grandes ciclos da sociedade brasileira

Por Flávio Aguiar.

No Norte ela se chama sanfona; no Sul, gaita. Nas lojas, acordeom. O fole vai e vem. É uma metáfora excelente para a sociedade brasileira.

Estamos às voltas com mais uma crise de grande monta. Um governo que não existe, um Congresso 50% (pelo menos) corrupto, avatares do Poder Judiciário ávidos pelo poder discricionário, com apoio de partes da Polícia Federal, a mídia conservadora no lugar de sempre: mentindo sobre o Brasil e o mundo, provinciana, anacrônica, golpista. As esquerdas na defensiva. A extrema-esquerda muitas vezes culpando a centro-esquerda por tudo, mais ciosa de ganhar espaço do que de enfrentar a crise. Protestos importantes mas impotentes nas ruas. Na mídia internacional, em grande parte, com honrosas exceções, uma cobertura pífia que não sai das areais de Copacabana.

Novidade? Decididamente não. Estamos entrando em mais um “período de transição”, em que contradições se aguçam, uma semianarquia institucional se instala, até que alguma nova hegemonia cresça e apareça. Querem ver?

A sociedade brasileira funcionou desde sempre atravessando ciclos de “exclusão” e de “inclusão”. Os períodos de transição de um ciclo para o outro foram sempre marcados por crises algo anárquicas do ponto de vista institucional, e por tentativas infrutíferas a longo prazo dos conservadores de “por a pasta de dente de volta dentro do tubo”. Atenção: “inclusão” não significa necessariamente “democracia”. E os ciclos são tendências, não são homogêneos nem lineares: por exemplo, pode haver uma tendência de inclusão econômica ou legal acompanhada por exclusão política…

Depois da confusão da Independência, a que se seguiu um longo período de disputas regionais entre diferentes facções dominantes, seguiu-se um período altamente excludente, caracterizado pela hegemonia do amplo setor escravista, formado por uma associação de latifundiários e investidores financeiros com ramificações no exterior. Isto durou mais ou menos de 1840 – data do chamado “Golpe da Maioridade” – até o início da década de 1860. Neste momento, marcado por crises de inflação e carestia no abastecimento, começou um novo ciclo, sobretudo a partir de 1865, inclusivo. Neste, a pergunta dominante foi a do que fazer com a escravaria, uma vez que, por mais longevo que fosse o regime escravocrata, ficou claro que ele estava condenado. Uma ponta de lança desta “inclusão” esteve no Exército, pois dezenas de milhares de libertos foram incorporados a ele devido à trágica Guerra do Paraguai, fato que levou boa parte da oficialidade a aderir ao programa abolicionista e republicano. O apogeu deste ciclo foi a Abolição decretada em 1888, através da pena de uma princesa carola e conservadora que, graças a isto, privou os escravocratas remanescentes da indenização pela perda dos escravos e o Império do seu apoio.

Seguiu-se um período anárquico, de disputas entre militares e civis, guerras regionais, que se estendeu até a posse de Prudente de Morais, em 1894, quando se inaugurou novo período excludente, a chamada República Velha, que durou até 1930 e manietou a sociedade brasileira a programas econômicos e políticos extremamente retrógrados, que fariam o orgulho dos Meirelles, FHCs, Fragas, etc.

A Revolução de 1930 inaugurou o período inclusivo, depois da hesitação que se seguiu até 1934, mais longo da nossa História, que se estendeu até 1964, onde o proletariado nascente foi incorporado política, legal e caudilhescamente à vida nacional. Em 64 este período, cujo ápice foi o projeto das “Reformas de Base”, foi interrompido, seguindo-se um período de confrontos internos e externos ao golpe de estado que durou até 1968, quando a hegemonia do “Sistema” se impôs.

O regime de 1964 não caiu: se esvaiu pelo ralo em 1985, seguindo-se o caótico período Sarney-Collor. Deposto este, graças a Constituição de 88, seguiu-se o longo período inclusivo – de grandes massas à sociedade de consumo – que ora está se tentando dar por encerrado. Estamos vivendo o período anárquico das disputas internas entre os golpistas – Temer e seus asseclas de um lado, um Congresso onde predominam as ratazanas, promotores, juízes e policiais federais do outro, a mídia conservadora, capitaneada pela Globo (Folha, Estadão, Veja, IstoÉ e quejandos são candidatos apenas ao Oscar de coadjuvantes) pondo lenha na fogueira, fascistas desatados pelas ruas imitando os juízes e promotores no incenso da impunidade, uma classe média desarvorada pela perda de status nos aeroportos, shopping centers e universidades (nesta ordem de importância), um setor rentista que não quer perder um vintém de suas rendas, um PSDB consumido por lutas internas mas ávido por uma eleição indireta e um Parlamentarismo de ocasião, e na arquibancada o estamento militar que está na escuta mas também não sabe muito bem o que fazer. As esquerdas não estão prostradas mas, como sempre, estão divididas, e um setor delas está unida com a direita no esforço por declarar que tudo o que aconteceu nos governos petistas não passou de uma ilusão.

Vamos ver que bicho dá. Mas tenhamos uma certeza: a longo prazo, a pasta de dente não vai voltar para dentro do tubo.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Fonte: Blog da Boitempo.

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