Por Michel Goulart da Silva.
Diante da eleição presidencial deste ano, os diversos setores da direita têm colocado problemas táticos e estratégicos que podem impactar em seu futuro político. Observa-se, em especial, setores da direita, agrupados em torno das candidaturas de Ronaldo Caiado e de Renan Santos, tentando se reorganizar em meio às crises dos últimos anos. Essa opção se dá em um cenário de disputas com o bolsonarismo, que, mesmo enfraquecido se comparado aos pleitos anteriores, permanece como uma força política, se colocando como alternativa para uma parcela dos setores conservadores.
Nesse sentido, os diferentes setores da direita devem se dividir em dois segmentos. Por um lado, uma parcela deve apoiar Flávio Bolsonaro, fortalecendo a polarização na tentativa de minar a reeleição de Lula. Outro setor deve apoiar Caiado ou Renan, cujo discurso deve priorizar se diferenciar pontualmente e cooptar os setores que apoiam o bolsonarismo, construindo um campo de atração para a direita não bolsonarista. Contudo, ao fazer essa opção por conquistar apoiadores do bolsonarismo a partir de questões pontuais, os setores em torno de Caiado e de Renan desistem de dialogar com o centro, que deve ou procurar uma alternativa menos reacionária, ou apoiar criticamente a candidatura Lula.
O setor ligado a Renan se diferencia em alguns aspectos ao de Caiado. Herdeiros do MBL, Renan e seu grupo sonham com a possibilidade de voltar a constituir o projeto de uma “nova direita”, aos moldes do que foi o neoliberalismo há três décadas no governo FHC ou do que é atualmente a elaboração de intelectuais apoiadores de Javier Milei, na Argentina. Embora sob uma roupagem que tenta parecer renovada ou mesmo juvenil, seu projeto não traz nada de novo em relação aos ataques contra políticas públicas e direitos adquiridos pela população, se mostrando a favor das privatizações e de combate às organizações dos trabalhadores.
O bolsonarismo, por sua vez, se constituiu como uma visão da realidade, em âmbito político e ideológico, marcada pela defesa da ordem econômica e da conservação moral da sociedade. Utiliza-se da agitação política permanente para mobilizar sua base social, se limitando a pautas como crítica da corrupção, defesa da família e apologia de medidas de privatização do Estado. Contudo, ao mesmo tempo, denunciam o atual status quo como uma construção dominada pela esquerda, que estaria encabeçando uma conspiração em âmbito internacional. Com isso, ao mesmo tempo que denunciam o “globalismo” como uma grande conspiração mundial e incluem até mesmo grandes multinacionais em sua retórica sobre seus inimigos, fazem apologia de governos reacionários como o de Trump ou de Estados militarizados como o de Israel. O centro da política bolsonarista passa por uma espécie de moralização da sociedade, visando derrubar não exatamente as instituições, mas as pessoas que as ocupam atualmente e que supostamente as utilizam para fazer doutrinação e perseguir os “cidadãos de bem”.
Nas duas últimas eleições presidenciais, a direita ficou a reboque no bolsonarismo. Um amplo campo conservador se construiu nos anos anteriores, inclusive com mobilizações de rua, sendo a base social de apoio para fraudes político-jurídicas como o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a Operação Lava Jato. Esse campo se formou a partir de um programa mínimo, em torno da denúncia à corrupção, associando-a exclusivamente a Lula e ao PT. Essa ampla frente conservadora acabou se valendo da legítima revolta da população em relação às instituições, deturpando demagogicamente as críticas das mobilizações de 2013. O discurso demagógico da direita ganhou grande espaço nos anos seguintes, sendo a base da frente eleitoral em torno de Jair Bolsonaro em 2018. Não havia projeto político ou propostas programáticas, mas apenas a vontade de derrotar o PT, mesmo que para isso fosse necessário entregar o governo a um grupo mais preocupado com a manutenção de seus privilégios e sua pregação ideológica reacionária do que com a vida da população.
No governo Bolsonaro, que teve dificuldade em aplicar suas medidas desastrosas diante da tripla crise – econômica, política e sanitária – e se limitou a manter a agitação de desinformação em sua base de apoio, via redes sociais, setores da própria direita entenderam que precisavam romper com os delírios bolsonaristas. No ano de 2022, uma parte da direita seguiu com o bolsonarismo e outra parte, depois do desastre na articulação da “terceira via”, acabou aderindo ao bloco liderado por Lula, seguindo, portanto, sem construir um projeto próprio. O novo governo Lula presenteou a direita com alguns ministérios e outros cargos, ocupados por União Brasil, PSD e MDB.
Em 2026, a direita não-bolsonarista parece seguir pensando apenas no imediatismo tático das eleições. Com isso, nega-se novamente à tarefa de construir um projeto próprio, com base em ideias e em um programa, deixando-se levar pelos embates momentâneos e fazendo coro aos delírios bolsonaristas. Seu único projeto coeso é bastante prático, ou seja, o desafio de manter ou mesmo ampliar o predomínio na política brasileira, como se observa em outras esferas, como no número de prefeituras. Essa postura se dá em um cenário que deve estar marcado por mudanças nos próximos anos, diante do enfraquecimento do bolsonarismo como corrente organizada e da iminente aposentadoria de Lula.
Neste momento, a direita não-bolsonarista opta por um caminho cômodo, no qual a candidatura Caiado será vitoriosa, independentemente do resultado das urnas. Os escândalos de corrupção envolvendo a família Bolsonaro vão fortalecendo esse campo. Se chegar ao segundo turno, o grupo em torno de Caiado talvez consiga enterrar o bolsonarismo e, se perder, seus diversos setores se veem livres para negociar quaisquer acordos com Lula ou com a família Bolsonaro. Portanto, a direita não-bolsonarista novamente deve ficar a reboque do bolsonarismo e do petismo, se abstendo de construir um projeto político próprio e deixando o caminho aberto para que correntes como o bolsonarismo ou outras manifestações ideológicas reacionárias persistam crescendo na política brasileira.
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