Santa Catarina como vitrine do bolsonarismo familiar

Por Mariana Soares.

A pré-candidatura de Jair Renan Bolsonaro (PL) à Câmara dos Deputados por Santa Catarina não representa apenas mais uma disputa eleitoral. Ela simboliza a consolidação de um modelo de poder cada vez mais presente na política brasileira: a transformação dos mandatos em patrimônio familiar e da democracia representativa em um espaço ocupado por dinastias políticas. Eleito vereador de Balneário Camboriú em 2024, Jair Renan já prepara a troca da Câmara Municipal pelo Congresso Nacional, evidenciando uma lógica em que o mandato recém-conquistado converte-se rapidamente em trampolim para voos mais altos.

O episódio ultrapassa a figura de Jair Renan. Trata-se da continuidade de um projeto político baseado na força de uma marca familiar. Assim como outras oligarquias que atravessam décadas ocupando sucessivamente cargos públicos em diferentes regiões do país, o clã Bolsonaro busca perpetuar sua influência institucional por meio da transferência do capital eleitoral entre seus integrantes. O sobrenome transforma-se em ativo político, enquanto a trajetória individual passa a desempenhar papel secundário.

Santa Catarina tornou-se peça estratégica nesse processo. Desde 2018, o estado consolidou-se como um dos principais redutos do bolsonarismo, elegendo sucessivamente representantes alinhados ao ex-presidente e oferecendo um ambiente político favorável à expansão do Partido Liberal. Não por acaso, o estado converteu-se em território prioritário para a manutenção da influência da família Bolsonaro mesmo após o fim do governo federal.

Esse movimento revela uma contradição recorrente no discurso da extrema-direita brasileira. Enquanto seus líderes afirmam combater privilégios e defender a meritocracia, reproduzem mecanismos típicos do patrimonialismo político, nos quais o principal critério para alcançar posições de poder deixa de ser a experiência administrativa, a produção legislativa ou o compromisso com políticas públicas e passa a ser o pertencimento a uma determinada família. A lógica do sobrenome substitui, em grande medida, o debate sobre projetos de país.

A candidatura também recoloca em discussão a banalização dos mandatos eletivos. Jair Renan foi eleito vereador para exercer funções legislativas no município de Balneário Camboriú, mas, antes mesmo de completar metade do mandato, já anuncia uma nova campanha. Embora a legislação permita essa movimentação, ela alimenta uma cultura política em que eleições deixam de representar compromissos programáticos duradouros e passam a integrar uma corrida permanente por cargos de maior projeção.

O fenômeno não é exclusivo do bolsonarismo. A história política brasileira é marcada pela presença de famílias que transformaram o Estado em extensão de seus projetos de poder. Do coronelismo da Primeira República às oligarquias regionais que ainda exercem influência sobre governos, assembleias legislativas e o Congresso Nacional, a concentração familiar de cargos eletivos permanece como uma característica persistente da vida política do país. Na atualidade, as redes sociais, o marketing político e a forte personalização das campanhas ampliam o alcance dessas dinastias, fortalecendo lideranças construídas mais em torno de nomes e imagens do que de programas partidários.

Essa dinâmica enfraquece a função dos partidos políticos como espaços de formação de lideranças e elaboração de projetos coletivos. Em vez de promover renovação, diversidade de representação e debate programático, abre-se espaço para campanhas centradas em figuras públicas e em heranças eleitorais, nas quais o reconhecimento do sobrenome frequentemente supera a avaliação da atuação política e da capacidade administrativa dos candidatos.

Nesse cenário, Santa Catarina assume um papel central. O estado deixou de ser apenas um importante colégio eleitoral da direita para tornar-se um verdadeiro laboratório de reprodução do bolsonarismo. A chegada de Jair Renan à disputa federal confirma a estratégia de ampliar a presença institucional da família em diferentes níveis da Federação, fortalecendo uma estrutura política baseada na identificação pessoal com o ex-presidente e não necessariamente na construção de novas lideranças.

A consolidação das dinastias enfraquece o papel dos partidos na formação de novas lideranças e empobrece o debate democrático, ao deslocar a atenção dos projetos coletivos para a força de marcas familiares consolidadas.

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