Naksa 59 anos: A guerra colonial contra a Palestina nunca terminou

Em 1967, “Israel” ocupou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, o Sinai egípcio e as Colinas de Golã sírias, em apenas 6 dias, passando a controlar praticamente toda a Palestina histórica.

Por Sayid Marcos Tenório.

Em junho de 2026 completam-se 59 anos da Naksa, palavra árabe que significa “revés” ou “derrota”, utilizada pelos palestinos para designar os acontecimentos de junho de 1967. Mais do que uma guerra entre “Estados”, a Naksa representou uma nova etapa de um processo colonial iniciado décadas antes e que continua em curso até os dias atuais.

A narrativa dominante apresenta a chamada Guerra dos Seis Dias como um conflito convencional travado entre “Israel” e países árabes vizinhos. Essa interpretação, porém, ignora a dimensão central do problema, de que a Palestina é palco de um processo de colonialismo de assentamento, baseado na ocupação da terra, na expulsão da população nativa e na implantação de colonos sobre os territórios ocupados.

A Nakba de 1948 expulsou mais de 750 mil palestinos de suas casas e destruiu centenas de aldeias. A Naksa de 1967 aprofundou esse processo. Naksa

Não se tratou de uma ocupação temporária. Desde então, a colonização tornou-se política permanente.

Assentamentos ilegais foram construídos sobre terras palestinas, recursos naturais passaram a ser controlados pelo ocupante, comunidades foram fragmentadas por muros, cercas e postos militares, enquanto Jerusalém Oriental passou a sofrer um acelerado processo de colonização destinado a alterar sua composição demográfica.

Foi a partir da Naksa que se consolidou o sistema hoje identificado por organizações internacionais de direitos humanos como apartheid. Palestinos e colonos israelenses vivem sob regimes jurídicos distintos, embora ocupem o mesmo território.

Enquanto os colonos desfrutam de plenos direitos civis e proteção estatal, milhões de palestinos permanecem submetidos à ocupação militar, à restrição de movimentos, às demolições de casas, às prisões arbitrárias e à violência cotidiana dos colonos.

O muro que corta a Cisjordânia, os bloqueios militares, a fragmentação territorial e a expansão constante dos assentamentos não são desvios ocasionais. São instrumentos de um projeto colonial destinado a inviabilizar a autodeterminação palestina e transformar a ocupação em fato consumado.

A Naksa, portanto, não terminou em junho de 1967.

Ela continua em cada novo assentamento construído. Continua em cada família expulsa de Jerusalém. Continua nos milhões de refugiados impedidos de regressar às suas terras. Continua nos presos políticos palestinos e na tentativa permanente de apagar a identidade nacional de um povo que se recusa a desaparecer.

Os acontecimentos posteriores a 7 de outubro de 2023 demonstram essa continuidade histórica. O genocídio em Gaza não surgiu de forma isolada. Ele representa a radicalização de um processo iniciado com a Nakba e aprofundado pela Naksa.

A destruição sistemática de bairros inteiros, hospitais, escolas e infraestrutura civil é parte de uma lógica colonial que busca tornar inviável a permanência dos palestinos em sua própria terra.

Diante dessa realidade, surge uma questão fundamental: qual é a legitimidade da resistência palestina?

A resposta encontra-se no próprio Direito Internacional. Diversas resoluções das Nações Unidas reconhecem o direito dos povos submetidos ao colonialismo, à ocupação estrangeira e à dominação racial de lutarem pela autodeterminação.

As Resoluções 3070, 3246 e 37/43 da Assembleia Geral da ONU reafirmam a legitimidade da luta dos povos colonizados por todos os meios compatíveis com esse objetivo, inclusive a luta armada de resistência, como está ocorrendo em Gaza.

Esse princípio foi reconhecido nas lutas de libertação nacional da Argélia, Angola, Moçambique, Namíbia, Vietnã e África do Sul. Não existe razão jurídica ou moral para negar aos palestinos um direito reconhecido a tantos outros povos submetidos à dominação colonial.

Por isso, a memória da Naksa deve ser compreendida não apenas como recordação de uma derrota militar, mas como símbolo de uma luta que permanece viva.

Cinquenta e nove anos depois, a Palestina continua sendo uma das grandes questões anticoloniais do nosso tempo.

A Naksa recorda ao mundo que a questão palestina não é apenas uma disputa territorial. Trata-se de uma luta contra o colonialismo de assentamento, contra o apartheid e pela autodeterminação nacional.

É a luta de um povo que, apesar de massacres, expulsões, cercos e ocupação, continua afirmando seu direito de existir, resistir e viver livre em sua própria terra.

Sayid Marcos Tenório é historiador e analista de geopolítica. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2. Ed. 2022. 408 p).

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