MPSC questiona base legal de empreendimentos e amplia pressão sobre gestão Topázio em Florianópolis

Ação do Ministério Público de Santa Catarina reforça críticas de moradores aos projetos de urbanização impulsionados pela prefeitura, especialmente no Rio Tavares

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A decisão do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) de ingressar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra leis e decretos que sustentam Projetos Específicos de Urbanização (PEUs) em Florianópolis fortaleceu a mobilização de comunidades que denunciam o avanço da verticalização sobre áreas ambientalmente sensíveis. O tema foi debatido no programa JTT, apresentado por Sofia Andrade e Raul Fitipaldi, com a participação de Gustavo Werner Júnior, professor, morador do Rio Tavares e integrante do Conselho Comunitário da região.

Segundo Gustavo, a ação do MPSC coloca em xeque a legalidade dos instrumentos urbanísticos utilizados para viabilizar grandes empreendimentos, entre eles o projeto conhecido como Refúgio Campestre, no Rio Tavares. Para o representante comunitário, as irregularidades vão muito além de questões burocráticas e atingem diretamente o meio ambiente, a infraestrutura urbana e a qualidade de vida da população.

Entre os principais problemas apontados está o desmatamento de áreas de restinga que, segundo ele, deveriam permanecer preservadas. O entrevistado afirma que a região sofreu intervenções antes mesmo da efetiva aprovação do empreendimento, alterando uma paisagem que faz parte de um importante corredor ecológico do Sul da Ilha.

Manifestação em frente ao Conselho Comunitário do Rio Tavares. Via Tecendo Redes
Manifestação em frente ao Conselho Comunitário do Rio Tavares. Foto: Tecendo Redes

Outro ponto destacado é a classificação urbanística da área como Área de Urbanização Especial (AUE). Na avaliação do Gustavo, esse enquadramento acabou permitindo flexibilizações incompatíveis com o Plano Diretor e abriu espaço para empreendimentos de grande porte em um bairro caracterizado historicamente por construções de baixa densidade.

A infraestrutura urbana também aparece como uma das principais preocupações. O morador questiona a ausência de respostas convincentes sobre o destino do esgoto gerado pelo aumento previsto da população local, estimado em cerca de 4.500 novos moradores. Segundo ele, o próprio projeto reconheceria impactos sobre o lençol freático ao prever o lançamento de efluentes tratados nas proximidades do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, o que, em sua avaliação, representa um risco ambiental significativo.

Gustavo também criticou alterações apresentadas pelos empreendedores, que ampliariam a área do projeto mediante a incorporação de novos terrenos. Conforme relatou, parte dessa expansão avançaria sobre a área do Parque Natural Municipal das Dunas, circunstância que, para ele, constitui mais um elemento de ilegalidade a ser analisado pelos órgãos de controle.

Durante a entrevista, o integrante do Conselho Comunitário afirmou que a população do Rio Tavares vem organizando mobilizações para demonstrar a rejeição ao empreendimento. Ele relatou que uma audiência promovida pela empresa responsável acabou reunindo dezenas de moradores contrários ao projeto, contrariando a expectativa dos organizadores de obter uma demonstração de aceitação popular. Segundo Werner, a mobilização evidenciou o crescente descontentamento da comunidade diante da expansão imobiliária na região.

Ao ampliar a discussão para o restante da cidade, Gustavo afirmou que o caso do Rio Tavares representa apenas um entre vários processos de verticalização que estariam modificando o perfil urbanístico de Florianópolis. Em sua avaliação, a administração do prefeito Topázio Neto prioriza interesses do mercado imobiliário sem apresentar soluções para problemas estruturais históricos, como mobilidade urbana, saneamento básico e preservação ambiental. Ele também criticou promessas de ampliação viária que considera inviáveis diante das limitações físicas da Ilha de Santa Catarina.

A iniciativa do Ministério Público, ao questionar judicialmente a constitucionalidade das normas que dão sustentação aos PEUs, poderá produzir efeitos que vão além do caso específico do Rio Tavares. Caso a ação seja acolhida pelo Tribunal de Justiça, a decisão poderá influenciar a forma como grandes projetos urbanísticos vêm sendo aprovados em Florianópolis, reacendendo o debate sobre os limites entre desenvolvimento urbano, proteção ambiental e participação popular.

Para os movimentos comunitários, a discussão ultrapassa um único empreendimento. Trata-se, segundo eles, da definição do modelo de cidade que Florianópolis pretende construir nas próximas décadas: uma expansão baseada na valorização imobiliária ou um planejamento capaz de conciliar crescimento urbano, infraestrutura adequada e preservação dos ecossistemas que caracterizam a capital catarinense.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:


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