Os israelenses sempre negam, muito ofendidos, que seu sistema político-social e legal seja como o apartheid sul-africano. E eles têm toda a razão, porque é ainda pior.
Vamos tomar, por exemplo, o caso da pena de morte. Nestes dias, o Parlamento israelense tramitou uma lei que aprova a pena de morte. Como a única boa democracia do Oriente Médio que dizem ser, vários políticos, entre eles o ministro da Segurança, brindaram isso com champanhe.
O interessante aqui é que se trata de uma pena de morte, algo, digamos, peculiar. Porque, sem entrar em muitos detalhes, a execução só seria aplicada aos palestinos. Assim como ouviram!
Estamos diante de um quadro legal tão distorcido que a condição fundamental para a aplicação da pena capital não seria o delito em si, e sim a identidade de quem o comete. A legislação recém aprovada consiste em que, no caso de atentados terroristas, ou homicídios com esse fim, será aplicada a pena de morte no caso… (ATENÇÃO) de que o acusado o cometa com a intenção de negar a existência do Estado de Israel.
Dizendo de outra maneira, em lugar do clássico “feita a lei, feito o trambique”, aqui estamos diante de um claro caso em que diretamente “um trambique que se tornou lei”.
Por um lado, porque evidentemente estamos diante de uma pena máxima que se aplicaria somente aos palestinos. Já que dificilmente um israelense se proporia a atacar outras pessoas com a intenção de negar a existência de Israel.
Isto significa que, se um israelense tomar uma metralhadora, entrar em uma mesquita e fuzilar dezenas de palestinos em seu interior, estaria livre da pena máxima, porque seu objetivo não era anti-israelense. Vejam só, com defensores da civilização ocidental assim, dá gosto. Não é verdade?
E o que ocorreria se um israelense entrasse em modo fratricida e matasse outro israelense por desavenças políticas? Como aquele colono que assassinou o primeiro ministro Yitzhak Rabin em 1995.
Pois, de acordo com a nova lei, apesar de seu status de magnicida e orgulhoso de sê-lo, o assassino deste exemplo se salvaria da forca porque sua motivação não era prejudicar os interesses israelenses, senão eliminar quem ele considerava ser um traidor desses mesmos interesses.
Em outras palavras, estamos diante de uma lei que considera como atenuante o fato de assassino e assassinado terem a mesma nacionalidade. Enfim, Israel e seus israelismos!
Esperem, pois ainda há mais, e coisa bem pior. É que, no estatisticamente improvabilíssimo caso de que um israelense atentasse contra outro israelense e a motivação desse atentado fosse prejudicar os interesses israelenses, o israelense anti-Israel desta suposição também não seria enviado ao patíbulo.
Por quê? Porque os legisladores pensaram em todas as possibilidades e, nos entremeios da lei, esclarecem que a pena de morte, em nenhum caso, será aplicada a ninguém de nacionalidade israelense. Quer dizer, que a forca vale só para quem não a tem.
E, desde seu ponto de vista, é totalmente lógico. Se estiver disposto a montar um apartheid, faça-o até as últimas consequências! Mas, cuidado, que agora vêm as surpresas. Pois, já que acabamos de mencionar o termo apartheid, vamos retomar agora o enfoque do começo deste vídeo.
É que, se formos comparar, esta lei de pena de morte israelense é mais racista, o que já é dizer muito, do que a que aplicava o já de por si racista regime sul-africano, que popularizou esse conceito. Por quê? Pois, porque naquele sistema brutalmente discriminador, em que os negros eram segregados pelos brancos, havia logicamente a pena de morte.
Porém, curiosamente, a lei sul-africana do tempo do apartheid, a esse respeito, não distinguia entre brancos e negros na hora de ser aplicada. É óbvio que os segundos eram muitíssimo mais executados que os primeiros. Mas não havia nenhum impedimento legal para a aplicação da pena de morte aos sul-africanos brancos. Como efetivamente ocorreu em dezenas de ocasiões, enquanto essa punição era legal.
Assim, como veem, objetivamente, com os dados em mãos, esta nova lei israelense sobre a pena de morte é mais racista do que a análoga do sistema que se converteu em sinônimo mundial de exclusão e racismo. Em outras palavras, embora em Tel Aviv se sintam ofendidos quando dizem que Israel é cópia completa do apartheid sul-africano, o certo é que deveriam mesmo se sentirem contentes.
Porque essa é uma comparação que os deixa em melhor condição do que eles merecem.
Tradução ao português e legendas: JAIR DE SOUZA
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