Mídia cria uma realidade paralela sobre o Mundial de Clubes. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Fabricar desinformação e distorcer a realidade são as especialidades da grande mídia brasileira. Isso não se aplica apenas a assuntos “sérios”, como política e economia. Também ocorre em assuntos mais “leves”, como o futebol. A distorção da vez pode ser observada na cobertura midiática da Copa do Mundo de Clubes da FIFA.

Nos últimos dias, comentaristas esportivos repetiram exaustivamente que os clubes brasileiros, principalmente o Flamengo, podem jogar de igual para igual contra qualquer grande clube europeu. Torcedores mais iludidos caíram nesse engodo.

Antes de o clube carioca ser derrotado pelo Bayern de Munique, imperava um otimismo exagerado na imprensa. “Não há favorito”, era o que mais se ouvia/lia nos noticiários esportivos. Em uma mesa redonda na ESPN, articulistas vislumbraram uma campanha épica do Flamengo, sendo campeão mundial derrotando gigantes, como o anteriormente citado time alemão, Paris Saint-Germain (PSG), Real Madrid e Manchester City. Seguindo essa linha analítica, na Globo, o ex-jogador Roger Guedes colocou o Flamengo entre os favoritos ao título mundial, a despeito da disparidade entre clubes europeus da “primeira prateleira” e sul-americanos.

Antes que alguém venha com a cartada do “viralatismo”, a questão é óbvia. Os grandes clubes europeus são melhores do que seus congêneres em outros continentes, não porque jogadores da Europa são melhores do que os outros. A última seleção que venceu a Copa do Mundo, a Argentina, é sul-americana.

PSG, City, Bayern, Inter de Milão e Real estão na elite do futebol mundial simplesmente por terem maior poderio financeiro. Logo, podem contar com os melhores jogadores, independentemente da nacionalidade. Em outras épocas, quando não havia essa disparidade econômica, clubes sul-americanos, na maioria das oportunidades, venciam seus rivais europeus.

Do mesmo modo, não é pachequismo mencionar a superioridade dos clubes brasileiros em relação a seus vizinhos subcontinentais. Palmeiras, Flamengo, Botafogo e Fluminense, por exemplo, além de repatriarem jogadores que atuavam na Europa (diferentemente de argentinos e uruguaios, com bem menos recursos), têm contratado atletas que se destacam em outros países sul-americanos. Assim, ao mesmo tempo em que se reforçam, enfraquecem seus rivais.

No entanto, nem a contundente derrota do Flamengo para o Bayern de Munique fez os comentaristas da mídia hegemônica mudarem de opinião. Parafraseando a grande pensadora contemporânea Andréia Sadi, nos discursos midiáticos, não foi o Bayern quem venceu, foi o Flamengo quem perdeu. O “argumento” mais citado foi o de que o rubro-negro “perdeu para si próprio”, levou quatro gols por causa de seus erros. Se não fossem esses contratempos, os cariocas estariam comemorando sua classificação. Só se esqueceram de que essas falhas do Flamengo foram provocadas pela pressão feita pelo clube alemão em sua linha de ataque. O “se” não existe. É de praxe: o desempenho do adversário nunca é levado em consideração.

Outro ponto ressaltado é que o Flamengo “jogou de igual para igual” contra o poderoso time europeu. Quem não assistiu ao jogo pode até acreditar em mais essa distorção midiática. O Bayern dominou toda a partida, acelerou e diminuiu o ritmo do jogo quando foi necessário. O que vimos em campo foi um time alemão tranquilo contra um Flamengo extremamente nervoso.

Lembrando o título de uma música de Cyndi Lauper, no capitalismo, “money changes everything” (dinheiro muda tudo). Muda até o futebol. Já não tão imprevisível como outrora. Como dito, quem tem dinheiro, investe maciçamente, tem os melhores jogadores e, consequentemente, vence os principais torneios.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

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