Por Francisco Fernandes Ladeira.
O Mandato Britânico na Palestina (1923-1948) representa um período fundamental para a compreensão do processo que culminou na criação do que hoje conhecemos como Estado de Israel. Estabelecido sob os auspícios da Liga das Nações, seu propósito declarado era preparar a região para a autodeterminação, atuando como mediador entre a população árabe palestina e os fluxos migratórios judaicos provenientes da Europa. Contudo, a administração britânica, ainda que nominalmente imparcial, viabilizou – e, em certa medida, fomentou – a consolidação de estruturas político-administrativas judaicas que posteriormente formariam a base institucional israelense.
Essas estruturas abarcavam setores estratégicos como economia, segurança, sistema jurídico e educação, permitindo a formação de uma sociedade judaica coesa e institucionalmente organizada. Em contrapartida, à população árabe palestina era negado acesso a equivalentes mecanismos de desenvolvimento autônomo. Além do mais, movimentos de resistência popular eram sistematicamente reprimidos, como evidenciado pelos levantes de 1920, 1921 e 1929, nos quais protestos contra a imigração judaica foram suprimidos com violência desproporcional pelas autoridades mandatárias.
A insatisfação acumulada desencadeou a Grande Revolta Árabe (1936-1939), um levante amplo contra a presença britânica e a expansão do projeto sionista. Iniciada como uma greve geral, a revolta evoluiu para um conflito armado, ao qual o governo britânico respondeu com medidas de exceção: execuções extrajudiciais, demolições coletivas de propriedades e encarceramento em massa (não por acaso o mesmo modus operandi realizado atualmente por Israel).
No contexto da Segunda Guerra Mundial, temendo a erosão de seu apoio no mundo árabe frente à ascensão do Eixo, o Reino Unido emitiu o Livro Branco de 1939, que impôs restrições à imigração judaica e propôs a criação de um Estado binacional no prazo de uma década. A medida foi interpretada pelo movimento sionista como uma traição, levando organizações como o Irgun, o Lehi e a Haganah (esta última, embrião das Forças de Defesa de Israel) a desencadear uma campanha de atentados terroristas contra instalações britânicas.
Com a Resolução 181 da ONU, de novembro de 1947, que recomendava a partilha da Palestina, e a subsequente retirada britânica em 1948, as instituições judaicas já se encontravam plenamente consolidadas, enquanto a sociedade palestina, fragmentada e sem estruturas de governança unificadas, via-se incapacitada de assegurar sua autodeterminação. Desse modo, o Mandato Britânico não apenas facilitou a implantação do projeto sionista mediante políticas imigratórias, mas também viabilizou a construção de um aparato estatal funcional antes mesmo da proclamação da independência israelense. Portanto, podemos dizer que, em todos os múltiplos crimes sionistas, há mãos britânicas manchadas de sangue.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





