Estridentes e lacradores: deputados do PL torram dinheiro público para tensionar democracia nas redes

Lançamos a lupa para os gastos da cota parlamentar dos parlamentares que, esta semana, fizeram o que mais sabem na Câmara: não trabalhar e atrapalhar

Por Amanda Miranda.

1 – De olho neles

Bancada do lacre – Durante este ano, deputados do PL, que articularam um novo golpe de dentro da Câmara de Deputados, gastaram, juntos, mais de um terço da sua cota parlamentar com divulgação do extremismo. Ou melhor, com lacração. O montante pode ser usado para deslocamentos, aluguéis de carro, manutenção de escritórios parlamentares em sua área de origem, hospedagem e alimentação, mas os bolsonaristas investem cerca de 38% disso em comunicação.

Dos cerca de R$ 21,3 milhões utilizados desde janeiro por 105 faccionalizados do bolsonarismo, por volta de R$ 8 milhões foram gastos com a rubrica de “divulgação de atividade parlamentar” (dado atualizado às 6h52 desta sexta). Os mais gastadores foram Sonize Barbosa e Cabo Gilberto. Embora a deputada tenha uma atuação tímida nas redes sociais, Cabo Gilberto Silva, deputado federal por Paraíba, a terra do presidente Hugo Motta, postou foto com esparadrapo escrito “censura” e a escolheu como ícone do perfil do Instagram.

Cabo Gilberto Silva gastou, nestes primeiros oito meses do ano, mais de R$ 240 mil “divulgando” sua “atividade”. Sua última postagem enquanto redijo este texto é um vídeo, de dentro do plenário da Câmara, dizendo que “conseguiram” assinaturas para o impeachment de Alexandre de Moraes. Na legenda, dizia: “vamos libertar o Brasil do ditador da toga”.

Realmente, o Brasil precisa se libertar de parlamentares que pagam R$ 9.300 reais por mês para serem notícia positiva em portais locais. Basta uma busca neste site aqui e a gente já consegue entender porque o deputado “paga” cotas todos os meses para ele. E, pasmem, tudo é feito às claras e está documentado no portal da transparência.

Cá como lá – Aqui no território catarinense foram R$ 340 mil em divulgação de atividade parlamentar. Tudo para ver a bancada do lacre lutar contra o estado de Santa Catarina e a favor de Donald Trump, que está taxando em 50% nossos produtos. Talvez os deputados não saibam que os Estados Unidos são o principal parceiro comercial externo de Santa Catarina. Ou achem mais importante trabalhar para que conterrâneos percam o emprego em nome da anistia de uma família que nunca fez nada pela região. E nunca fará, essa turma deixou claro que não possui agenda de trabalho que não seja orbitar em torno de conspirações.

Zé Trovão é o deputado do PL que mais gastou recursos para esta finalidade neste ano, seguido de Julia Zanatta, que mesmo em licença maternidade (aliás, vocês viram, né?) não deixou de pagar impulsionamento de conteúdo anti-democrático e pró-anistia em suas redes. A Biblioteca da Meta indica que há seis conteúdos ativos nesta quinta-feira.

Ao longo da semana, no entanto, um desses patrocinados falava sobre as tentativas dos parlamentares extremistas de intimidarem e coagirem o presidente da Câmara a pautar o projeto de anistia. Dinheiro público patrocinando discursos contra os cidadãos.

Símbolos do caos – O ídolo da massa lacradora do bolsonarismo, Nikolas Ferreira, tem apenas R$ 3.500,00 de gasto registrado em divulgação de atividade parlamentar. Em compensação, a empresa dele, a Destra Cursos, investiu alto em impulsionamento de conteúdo na página do parlamentar em momentos específicos, como no episódio viral de desinformação sobre o pix. Pegar o bonde do lacre é rentável para o marketing e para os negócios de Nikolas.

E o que dizer do investigado Eduardo Bolsonaro, da presidiária Carla Zambelli e do réu Alexandre Ramagem? Com exceção de Eduardo, que praticamente não trabalhou como deputado este ano pois decidiu fugir e ser agente do caos, Carla e Ramagem também usaram a cota parlamentar para divulgar e propagar discursos extremistas.

Zambelli voou longe: até abril foram R$ 84.519,81 para bancar um aparato de comunicação descrito nas notas como serviços de edição, design, produção de conteúdo, spots de rádio e vídeos. Praticamente uma agência de comunicação a tiracolo para difundir os ideais de uma militância cada vez mais radicalizada. Já Ramagem investiu R$ 54.750,01 em alguns serviços contextualizados como “divulgação de atividade parlamentar por meio de estratégias digitais”. O réu no processo criminal do golpe também paga impulsionamento de conteúdo para o Facebook. Aliás, não é ele quem paga: somos nós.

É impraticável viver num país que normalize a ocupação da mesa diretora de uma casa legislativa com base em chantagem, coação e truculência, amparada por milícias digitais e parlamentares dispostos a tudo pelo like, pelo lacre e pelo ódio.

Mas também fui ver como os deputados do PT usam recursos públicos para a divulgação de atividade parlamentar e a proporção dessa rubrica com relação ao total da cota é menor do que a que ocorre no bolsonarismo. Além disso, não há nenhum deputado governista usando celular como arma e discurso falso como estratégia para derrubar a democracia.

2 – Deu ruim

Não foi obstrução, foi tática de golpe – Quem acompanhou o caos lamentável que ocupou o Congresso nos últimos dias sabe que os deputados não queriam outra coisa além de tensionar a democracia. Eles não conseguiram derrubá-la em 8 de janeiro e nem em todas as outras tentativas articuladas pela quadrilha julgada na ação penal do golpe.

Tentar ganhar uma anistia à força, na base da intimidação e do constrangimento, é um grande atestado de culpa. É um sinal de que são incapazes de aceitar a derrota pacificamente ou de tentarem voltar ao poder dentro da legalidade.

É importante dizer que o bolsonarismo tenta a todo custo capturar as pautas que importam ao país. E que esses deputados, que sustentam suas redes de desinformação com recursos públicos querem a destruição da atividade econômica, das políticas sociais e do estado de bem estar social. Fazem isso não apenas no plenário, mas essencialmente e sobretudo nos seus microcosmos digitais – muitos deles cada vez mais radicalizados.

Violência – A violência do grupelho não se dá apenas no culto às armas e na tentativa de Paulo Bilynskyj de enforcar o jornalista Guga Noblat, mas na forma oculta e obscura como usam as redes para construir uma realidade paralela.

O inquérito da Polícia Federal e a denúncia da Procuradoria Geral da República sobre a tentativa de golpe apresentam episódios em que a institucionalidade foi corroída por quem tentava desequilibrar a democracia por essa via: espionando adversários para atacá-los de forma obscura, contratando “profissionais” para gerar relatórios falsos, produzindo lives e fatos que seriam amplamente repercutidos nos grupos de zap. Tudo isso tinha como destino atingir a opinião pública a ponto de construir um país ingovernável.

Se fosse um caso de cerceamento de liberdade de expressão, nenhum deles teria conta em rede social, nem dinheiro público para bancá-las. É caso de polícia. De justiça. E não pode ficar impune.

3 – Vi no Jornal

Vai fazer falta (1) – E por falar em liberdade de imprensa e de expressão, fui uma das brasileiras tristes e surpreendidas com a demissão da Daniela Lima da GloboNews. Daniela foi uma das jornalistas mais atacadas por sua atuação no ano de 2024, segundo relatório da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. À frente do Conexão, fazia um jornal excelente de assistir, com informações quentes, bem apuradas e qualificadas. Sua demissão precipitada é um claro sinal de guinada editorial que devemos observar com atenção, já que Daniela era visivelmente uma profissional comprometida com a democracia.

Vai fazer falta (2) – Cada vez mais popular por sua argumentação didática, persuasiva e com conteúdo relevante, Jones Manoel foi banido da Meta pouco depois de atingir mais de um milhão de seguidores no Instagram e de ver seu alcance crescer diariamente. A conta do Facebook também foi excluída, sem qualquer tipo de justificativa.

Sem espaço para conspirações, mas é muito estranho isso acontecer num momento de tensão política no país. Embora não seja nem de longe um comunicador governista, Jones Manoel é marxista e ajuda a desmitificar muitos dos preconceitos e simplificações sobre o assunto. Então a Meta, que tem dificuldade para rastrear e banir pedófilos e afins, encontrou um nicho por onde fazer valer sua força? Onde estão os defensores da liberdade de expressão diante de um atentado flagrante a ela?

4 – (anti) Craque do jogo

As milícias digitais do governador bolsonarista Jorginho Mello tentaram me acuar e me constranger, mas não conseguiram. Floripa Mil Grau, Jornal Razão e até a secretária de Educação do Estado dando like em ataques pessoais a mim me lembraram o quanto o jornalismo é grande e potente.

Seguindo meu trabalho de monitoramento e compartilhamento de dados sobre fraudes no Universidade Gratuita (veja aquiaqui e aqui) e certamente preocupados com a repercussão do meu trabalho desde que comecei a produzir vídeos desmascarando estratégias de comunicação e mentiras do governo ao atacar instituições, fui alvo de fake news baixa e deslavada.

Respondi aqui e aqui, mas vou voltar a dizer aqui: não vão achar nada que fira minha reputação e minha credibilidade, nem como jornalista, nem como servidora pública. Como todo ser humano, cometo muitos erros e estou longe de ser perfeita, mas exerço minha dupla atividade com paixão, atenção, ética e sobretudo transparência.

O que “banca” meu ativismo é sim minha carreira profissional, porque com ela tenho estabilidade, jornada de trabalho justa e um ambiente saudável para ser quem eu sou. Mas não sou paga com dinheiro público para exercer este trabalho aqui, que é fruto do meu ativismo e da minha preocupação com o país e com o mundo é feito no meu horário livre, muitas vezes antes mesmo do dia raiar.

Aqui, meu jornalismo é e vai continuar sendo independente. Se em algum momento eu precisar de qualquer recurso para enfrentar essas milícias, é com meus leitores, amigos e comunidade engajada que vou contar.

No mais, vou continuar, doa a quem doer. Calúnias envolvendo meu nome serão tratadas legalmente. Ameaças também.

Leia e assine aqui o boletim completo de Amanda Miranda.

 


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