Lucas Aguilera relata prisão de integrantes da Flotilha Global Sumud e denuncia criminalização da solidariedade à Palestina

30 dias de cárcere por tentar levar ajuda humanitária à Palestina, Lucas Aguilera, diretor de pesquisa do NODAL (Notícias da América Latina e do Caribe), relata no JTT como foi sequestrado na Líbia do Leste e afirma que a solidariedade internacional passou a ser tratada como crime. Lucas descreve o sequestro do comboio da Flotilha Global Sumud, critica a postura do governo Milei e defende que a resposta ao avanço do autoritarismo é a unidade das forças populares.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A solidariedade internacional ao povo palestino voltou a ser alvo de repressão. No programa JTT, apresentado por Raul Fitipaldi e Rosangela Bion de Assis, Lucas Aguilera, diretor de pesquisa do portal NODAL (Notícias da América Latina e do Caribe) e integrante da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), relatou os 30 dias em que permaneceu detido na Líbia do Leste ao lado da jornalista Paula Giménez, quando ambos integravam o comboio terrestre da Flotilha Global Sumud, iniciativa internacional de ajuda humanitária destinada à Faixa de Gaza.

Segundo Lucas, a prisão ocorreu antes da entrada na Líbia do Leste, região controlada pelas forças do marechal Khalifa Haftar. O jornalista afirma que homens armados, sem identificação oficial e vestidos à paisana, interceptaram a ambulância em que viajavam, destruíram equipamentos, apreenderam o veículo e conduziram os integrantes do comboio para um local de detenção.

Paula Giménez y Lucas Aguilera 
Paula Giménez e Lucas Aguilera

Para Lucas, a experiência revelou uma nova dimensão da criminalização da solidariedade internacional.

“Se levar ajuda humanitária se transforma em delito, algo muito grave está acontecendo. Em um mundo onde o comércio de armas continua circulando livremente, quem leva medicamentos e alimentos termina preso.”

Prisão usada como moeda de negociação

Durante a entrevista, Lucas afirmou que o grupo acabou sendo utilizado como instrumento de negociação diplomática pelo governo da Líbia do Leste.

Segundo seu relato, a libertação ocorreu apenas após intensas negociações conduzidas principalmente pelos governos da Turquia e da Itália.

Na avaliação do ativista, o governo argentino, presidido por Javier Milei, não apenas deixou de atuar pela libertação dos cidadãos argentinos, como divulgou um comunicado que, segundo ele, responsabilizava os próprios integrantes da missão.

“O comunicado da chancelaria praticamente nos culpava pelo ocorrido. Isso poderia inclusive servir para que as autoridades líbias montassem um processo contra nós.”

Lucas comparou essa postura ao tratamento dado pelo governo argentino em outros episódios envolvendo cidadãos do país no exterior, afirmando que, no caso da missão humanitária, predominou o abandono.

O medo como instrumento político

Questionado sobre o objetivo da prisão, Lucas respondeu que acredita tratar-se de uma estratégia para intimidar futuros voluntários.

Segundo ele, impedir iniciativas de ajuda humanitária faz parte de uma política destinada a isolar Gaza internacionalmente.

Apesar da experiência, afirmou que pretende continuar apoiando a causa palestina.

“Querem nos causar medo. Mas, depois do que vivi, sinto-me ainda mais forte para continuar defendendo a Palestina.”

O ativista sustentou que o genocídio contra os palestinos não começou após os acontecimentos de outubro de 2023, mas representa, em sua interpretação, um processo histórico muito mais longo, associado à colonização da Palestina.

América Latina e o alinhamento com Israel

A conversa também abordou a política externa do governo argentino.

Lucas criticou o estreito alinhamento entre a administração Milei e Israel, citando acordos tecnológicos, cooperação em segurança e aproximação política.

Na sua avaliação, esse alinhamento faz parte de uma estratégia mais ampla de influência geopolítica sobre a América Latina.

Ao comentar a situação argentina, destacou ainda que setores da sociedade costumam confundir antissionismo com antissemitismo.

Segundo o jornalista, essa associação dificulta o debate público sobre as políticas do Estado de Israel e invisibiliza a existência de judeus antissionistas e críticos do sionismo.

Unidade das forças populares

Apesar das críticas ao cenário político argentino, Lucas afirmou que a mobilização em favor da libertação dos integrantes da missão revelou um aspecto positivo.

Segundo ele, organizações de diferentes correntes políticas — incluindo setores do peronismo e partidos da esquerda argentina — atuaram conjuntamente pela libertação dos sequestrados.

Para o jornalista, essa convergência demonstra a possibilidade de construção de uma ampla frente democrática diante do avanço da extrema-direita.

“Vimos setores que normalmente não atuam juntos se unirem por uma causa comum. Isso mostra que a diversidade pode ser uma força.”

Diversidade como resistência

Ao encerrar a entrevista, Lucas recordou que o grupo reunia pessoas de diferentes religiões, nacionalidades e culturas.

Cristãos, muçulmanos, budistas e militantes de diversas origens dividiram o mesmo período de prisão.

Segundo ele, essa convivência reforçou a convicção de que a diversidade constitui uma das principais formas de resistência aos projetos autoritários.

Para Raul Fitipaldi, a experiência narrada pelo ativista argentino representa um alerta sobre os riscos enfrentados por quem participa de iniciativas internacionais de solidariedade ao povo palestino e também uma demonstração da importância da articulação entre movimentos sociais latino-americanos na defesa dos direitos humanos e da autodeterminação dos povos.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo


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