Livro sobre a Palestina busca ser ferramenta de combate à desinformação. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Desde outubro de 2023, o mundo tem assistido ao agravamento da mais longa e cruel ocupação colonial ainda persistente no século XXI. Os acontecimentos ocorridos após a Operação Dilúvio de Al-Aqsa não apenas reacenderam a Questão Palestina no cenário global; escancararam a violência do colonialismo israelense e a resistência incansável de um povo que se recusa a desaparecer. No entanto, para compreender as raízes profundas desse conflito – e as estratégias geopolíticas que o sustentam – é indispensável ir além das manchetes e dos enquadramentos midiáticos hegemônicos.

Foi justamente com esse propósito que, no ano passado, no curso de Geografia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), lecionei a disciplina “Geopolítica palestina, discursos midiáticos e ensino de Geografia”. A proposta era clara: desconstruir as mentiras da grande mídia brasileira, que historicamente exalta o colonizador sionista e demoniza o povo palestino. Para isso, não bastava ler as notícias e depois apontar os mecanismos de manipulação utilizados por nossa (péssima) imprensa hegemônica. Era preciso ir além: reconstruir a historicidade da geopolítica palestina, justamente o que os discursos midiáticos insistem em ocultar.

Nesse esforço de reconstituição histórica e geopolítica, tornou-se evidente que a narrativa sionista se alicerça no apagamento sistemático da presença palestina na terra. Abordamos, ainda que brevemente, a trajetória milenar da Palestina, buscando demonstrar como a população autóctone daquela região possui um vínculo igualmente milenar com o território, além de se organizar enquanto unidade geopolítica desde tempos remotos. Por outro lado, os israelenses – majoritariamente europeus em sua origem – recorrem a falsas narrativas e às Escrituras para criar o mito do “povo que retorna à terra de seus antepassados”, numa operação geopolítica clássica de legitimação territorial que prescinde da materialidade histórica.

Outro momento da disciplina foi dedicado a compreender como o conhecimento geográfico foi instrumentalizado pelo sionismo – desde os seus primórdios de colonização da Palestina – para executar o genocídio da população local. Por meio de técnicas de mapeamento, foi possível atacar aldeias palestinas e perseguir suas principais lideranças. A paisagem natural palestina – com destaque para as oliveiras – foi, em grande medida, substituída por vegetação de origem europeia, numa suposta referência à Israel Bíblica (seja lá o que isso queira dizer). Em relação à demografia, sua transformação para garantir o predomínio de judeus sobre outros povos permanece a principal obsessão de Israel. Na atualidade, as geotecnologias continuam a serviço do genocídio, com destaque para o Lavender, inteligência artificial sionista que decide quem será bombardeado em Gaza – demonstrando como o colonialismo se atualiza tecnologicamente sem perder sua essência violenta.

Reunindo artigos que escrevi sobre essas temáticas em veículos da imprensa progressista, como o Desacato, estou lançando o livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV). Como indica o trecho acima, a obra parte da conjuntura aberta em outubro de 2023 para oferecer uma análise aprofundada da geopolítica palestina, desmontando os discursos hegemônicos que criminalizam a Palestina e, por outro lado, justificam o genocídio promovido por Israel.

Assim, os cinco capítulos do livro nos convidam à reflexão crítica, nos chamam à solidariedade internacional e à luta pela libertação palestina. Nessas páginas não há apenas uma análise geopolítica; temos uma ferramenta de combate. No livro, resgato a história milenar do povo palestino, sistematicamente apagada pelo sionismo; denuncio o apoio de setores cristãos brasileiros de extrema direita a Israel; analiso como os diferentes grupos sociais no Brasil se posicionam sobre as relações entre israelenses e palestinos; exponho as distorções presentes no sistema de ensino sionista; aponto como a geopolítica palestina pode ser interpretada pelas lentes da Geografia para, finalmente, desvelar como a grande mídia brasileira desumaniza palestinos, omite contextos e naturaliza a violência israelense. Deixo claro: o livro não é neutro. Aliás, não há neutralidade possível quando se trata de um genocídio – o primeiro televisionado da história, como bem definiu a Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL).

Por falar em FEPAL, a obra tem prefácio de seu presidente: Ualid Rabah. Mais do que a apresentação da obra, o texto de Ualid é uma verdadeira aula sobre o modus operandi do projeto colonial sionista, alicerçado na necessidade de extinção da população originária – um capítulo à parte, inédito até para os padrões históricos do colonialismo.

Como aponta o título de um dos artigos reproduzidos no livro, a Palestina é uma causa que unifica todos os oprimidos do planeta. Ela sintetiza a luta contra o imperialismo, contra o racismo supremacista de Israel e contra o assassinato de mulheres, estratégia que visa minar a capacidade reprodutiva palestina e que inclui o infanticídio. Com seu histórico perverso, não é difícil constatar que o sionismo está na mesma prateleira dos regimes mais abomináveis da história, como o fascismo e o nazismo. Consequentemente, ser antifascista é ser antissionista.

Num contexto em que a Palestina é diariamente assassinada nas manchetes, essa leitura é um antídoto contra a desinformação, um mapa para entender o histórico da Palestina, o expansionismo territorial do Estado de Israel e os mecanismos da resistência. Trata-se de um manifesto contra a opressão sionista. Palestina Livre, do Rio ao Mar!

Link do livro: https://loja.editoracrv.com.br/produtos/39993/

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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