Redação.- Florianópolis costuma figurar nos rankings nacionais como uma das capitais mais seguras do Brasil. No entanto, por trás da imagem turística da chamada “Ilha da Magia”, cresce um debate cada vez mais urgente sobre a violência policial e o aumento da letalidade em operações realizadas nas periferias da Grande Florianópolis.
O tema foi discutido no programa JTT, apresentado por Sofia Andrade e Raul Fitipaldi, que recebeu Fernanda Ecco, integrante da Pastoral Carcerária e pós-graduanda em Segurança Pública e Criminologia; Moisés Nascimento, mobilizador social, presidente da Frente Juventude Voz das Favelas e liderança do Morro do Mocotó; e Márcio Costa Ruzon Xavier, coordenador nacional de Direitos Humanos do Instituto Anjos da Liberdade.
Durante a entrevista, os convidados questionaram a narrativa oficial de segurança pública construída em torno de Santa Catarina. Para Márcio Xavier, os indicadores frequentemente divulgados deixam de considerar a violência praticada por agentes do Estado, especialmente contra moradores das periferias.
“Quando se fala em redução da violência, propositalmente o Estado exclui a violência policial desses números”, afirmou. Segundo ele, a sensação de segurança experimentada em áreas turísticas e regiões de maior renda contrasta com a realidade vivida nas comunidades populares, onde operações policiais e abordagens violentas se tornaram frequentes.
Periferias sob pressão
Moisés Nascimento destacou que a violência simbólica promovida por setores da extrema-direita catarinense, com a exibição constante de armas e discursos de enfrentamento, contribui para a naturalização da violência. Segundo ele, essa postura acaba repercutindo diretamente nas comunidades, fortalecendo uma lógica de confronto em vez de políticas públicas voltadas à prevenção.
Para o dirigente comunitário, a ausência histórica do Estado em áreas periféricas é um dos fatores centrais para compreender os problemas relacionados à segurança pública. “A comunidade não pode continuar refém dessa política violenta, onde não existe nenhuma solução voltada para a população”, afirmou.
Relatos de dor e indignação
Fernanda Ecco trouxe relatos que ilustram o impacto humano da letalidade policial. Atuando junto a famílias de pessoas privadas de liberdade, ela contou o caso de um jovem morto aos 16 anos, deixando uma filha recém-nascida. Segundo Fernanda, situações semelhantes têm se repetido em diferentes bairros da região metropolitana.
Ela questionou a naturalização dessas mortes e criticou a recorrente justificativa de que houve confronto. “Eu acredito na oportunidade, no ajudar, no recomeçar. Tudo tem mudança”, declarou, defendendo políticas que priorizem a proteção da vida e a recuperação de jovens em situação de vulnerabilidade.
O debate sobre as câmeras corporais
Um dos principais temas da entrevista foi a luta pela retomada das câmeras corporais nos uniformes da Polícia Militar de Santa Catarina. Para os participantes, os equipamentos representam uma ferramenta importante de transparência, proteção da população e também dos próprios policiais.
Moisés Nascimento defendeu que a sociedade mantenha a pressão sobre o governo estadual. Segundo ele, a retirada das câmeras ampliou a sensação de insegurança nas comunidades e reduziu os mecanismos de fiscalização das abordagens policiais.
Ele também criticou o aumento dos investimentos em equipamentos bélicos enquanto áreas como educação, cultura e políticas sociais permanecem com recursos insuficientes. “O Estado promove a violência quando prioriza armamentos de guerra em vez de investir em prevenção e oportunidades”, afirmou.
Convocação para mobilização
Ao final da entrevista, os convidados convocaram a população para participar do ato em defesa das câmeras corporais na Polícia Militar de Santa Catarina.
A mobilização está marcada para o dia 16 de junho, às 10 horas da manhã, em frente à sede do Poder Executivo estadual. Segundo os organizadores, a iniciativa busca pressionar o governo pela retomada da política de monitoramento das ações policiais e pelo fortalecimento de mecanismos de controle e proteção dos direitos humanos.
Mais do que um debate sobre tecnologia ou procedimentos operacionais, a discussão revela uma disputa sobre o modelo de segurança pública que Santa Catarina deseja construir. Enquanto os índices oficiais continuam projetando uma imagem de tranquilidade, moradores das periferias, organizações sociais e defensores dos direitos humanos insistem em uma pergunta que atravessou toda a entrevista: segurança para quem?
Assista à entrevista no vídeo abaixo
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