Feira do Mel é aberta em Florianópolis, e reafirma que comprar na feira é um ato político.

 

Na 25ª Feira do Mel de SC, abelhas sem ferrão, produtores familiares e mel de bracatinga disputam o mesmo espaço com uma pergunta incômoda: por que o alimento limpo ainda parece exceção?

Por Luiza Soeiro para Desacato.info

Tem algo de subversivo num pote de mel comprado diretamente de quem criou as abelhas. Sem ser o fetiche do artesanal que movimenta uma burguesia fina, mas aqui falamos de economia. Quando uma família apicultora do planalto catarinense vende seu mel no Largo da Alfândega por quilo, ela recebe perto de cem por cento daquele valor. No supermercado, o produtor chegaria com sorte a receber vinte.

A 25ª edição da Feira do Mel de Santa Catarina, aberta nesta quarta-feira (10) no Largo da Alfândega, com presença de autoridades estaduais e representantes do setor, reúne cerca de 35 estandes e mais de 300 produtores representados. Mas o evento é também um espelho ampliado de uma dinâmica que atravessa a história econômica do estado: SC possui uma das estruturas agrárias mais democráticas do Brasil, com mais de 80% dos estabelecimentos rurais pertencentes à agricultura familiar, e ainda assim esses produtores ocupam as margens do mercado convencional, enquanto as prateleiras dos grandes supermercados acolhem mel adulterado, embalado em fábricas anônimas, a preços que mal sustentam quem planta.

O termômetro das abelhas

O mel catarinense exporta para os mercados mais exigentes do planeta, Europa e Estados Unidos, porque passa em testes rigorosos de resíduos químicos. Isso é uma consequência direta de um modelo de produção que depende da floresta viva. As abelhas não sobrevivem onde há pulverização intensiva de agrotóxicos. Portanto, cada pote de mel silvestre produzido em SC é, simultaneamente, prova da integridade ambiental daquele território. O mel vira, literalmente, termômetro ecológico.

O mel de melato da bracatinga, vendido por R$ 55 o quilo na feira, é um caso emblemático. Produzido a partir da exsudação da bracatinga — árvore nativa da Mata Atlântica Sul — ele é reconhecido internacionalmente pela pureza e pelas propriedades sensoriais únicas. Não existe versão industrial desse produto, ele só se preserva porque o cenário onde ele ele vive, a floresta, ainda está preservado, e porque existem famílias que cuidam desse habitat.

Quem alimenta o Brasil?

O argumento de que o agronegócio abastece o país é um dos mitos mais bem-sucedidos do marketing político da última década. Os dados do Censo Agropecuário do IBGE contam outra história: a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Ela produz cerca de 80% da mandioca, 48% do café, 43% do feijão e 34% do arroz consumidos no país, tudo isso com um volume de subsídios públicos incompatível ao que o agronegócio de exportação recebe.

Em Santa Catarina, a Rede Ecovida de Agroecologia organiza esse circuito com uma ferramenta que os grandes players não oferecem: a certificação participativa. Em vez dos selos caros e burocráticos exigidos pela indústria, os próprios agricultores e consumidores se visitam, inspecionam as propriedades uns dos outros e garantem coletivamente que o alimento é livre de veneno. 

O custo invisível do veneno 

Enquanto o mercado convencional apresenta alimentos baratos na gôndola, o custo do modelo baseado em agrotóxicos escoa para outro lugar: o SUS. O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo em volume total. Os casos de intoxicação registrados pelo Ministério da Saúde representam apenas a ponta visível de um iceberg que inclui contaminação de aquíferos, morte de polinizadores e adoecimento crônico de trabalhadores rurais. Esse custo aparece na fila do hospital, mas se inicia na nota fiscal do supermercado.

O mercado de produtos orgânicos e agroecológicos no Brasil cresce entre 10% e 15% ao ano, segundo a Organis. O principal motor não é tendência americanizada de lifestyle, mas a recusa consciente ao agrotóxico. Pesquisas de comparação de preços entre feiras agroecológicas e grandes redes revelam, com frequência, que produtos limpos comprados diretamente de produtores são mais baratos do que suas versões convencionais nos supermercados.

O que comprar no Largo da Alfândega

A programação da Feira do Mel vai além dos potes. Entre quarta e sexta-feira, às 14h, a Epagri conduz visitas guiadas sobre o processo de produção, os tipos de mel e o papel das abelhas na polinização. A UFSC oferece orientações sobre qualidade e adulteração, considerado um serviço essencial num mercado onde mel falsificado com açúcar é prática documentada. Há ainda ações de acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva, com experiências sensoriais envolvendo colmeias e abelhas sem ferrão.

Os lançamentos deste ano incluem hidrómeis, licores à base de mel, cosméticos, sabonetes e publicações sobre meliponicultura. Mel em favo, extrato de própolis, geleia real, velas de cera, produtos que, no supermercado, seriam “especiais” e caros; aqui, são o padrão. A feira fecha na sexta-feira, dia 13.

O Largo da Alfândega fica no Centro de Florianópolis.

Ir à feira não resolve o capitalismo. Mas redirecionar uma parte do orçamento doméstico para circuitos curtos, para produtores identificáveis, para alimentos sem veneno, é uma decisão que tem peso econômico real — e peso político também. Quem compra no Largo da Alfândega esta semana está financiando uma apicultora catarinense, uma floresta de bracatinga e a sobrevivência de um modelo que prova, todos os anos, que é possível produzir de outro jeito.


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