
Por André Luiz Pereira.
Uma pergunta que acho que poucos se fazem é por que o identitarismo – entendido aqui como a versão moralista, autoritária e às vezes injustificadamente violenta das lutas por reconhecimento – encontra tantos adeptos fervorosos. E me parece que tanto os anti-identitários mais apressados quanto certos defensores da ideia de “Brasil mestiço” acabam errando pelo mesmo motivo: ambos subestimam a realidade social à qual esse tipo de discurso se refere.
O pessoal que insiste no conceito de mestiçagem talvez tenha alguma razão ao afirmar que existe no Brasil uma norma pública antirracista relativamente consolidada, ligada à própria construção da identidade nacional e à história do pensamento social brasileiro. No plano discursivo oficial, aquele que pode ser defendido publicamente com argumentos, quase ninguém consegue sustentar que injúria racial não deva ser criminalizada, por exemplo. Há um consenso social mínimo em torno disso. Em vários países, inclusive com estampa de civilizados, esse tipo de acordo está longe de existir. A ideia de convivência mestiça, de alguma forma, produziu também uma expectativa normativa de integração e rejeição pública ao racismo explícito.
Mas a hipótese do Brasil-mestiço frequentemente parece incapaz de explicar de onde vem a força afetiva e política do identitarismo contemporâneo. Para explicar seu crescimento, muitos recorrem quase exclusivamente a fatores externos. Há várias hipóteses: financiamento norte-americano, pequeno poder universitário, importação de categorias raciais estrangeiras, vaidades teóricas ornamentais, boa recepção nos meios de comunicação hegemônicos etc. Tudo isso existe em alguma medida que não sei precisar e parece ajudar a entender essa versão de péssima militância, mas não me parece nem tocar o mais importante: o terreno histórico de onde essa atitude brota com tanta confiança.
E esse terreno existe. A burguesia deste país é branca e trata todo mundo como preto. A frase é obtusa e exagerada de propósito, quase uma mimesis desta atitude, que contém algo de verdadeiro. O padrão de dominação brasileiro é marcado pela herança escravista e sua indiferença brutal em relação aos de baixo. Mesmo quando a miscigenação funciona como ideal nacional, ela não elimina a experiência quase diária da humilhação, da suspeita, da violência policial, da exclusão estética e desigualdade econômica. A promessa integradora da mestiçagem convive há muito tempo com práticas sociais hierárquicas insuportáveis sem alguma reação.
Talvez seja justamente dessa contradição que o identitarismo retire sua força. Ele aparece como resposta a uma sociedade que afirma publicamente valores universalistas e antirracistas, mas cuja experiência cotidiana frequentemente desmente esses mesmos valores. Quanto maior a distância entre a norma pública e a vida social, maior tende a ser a força das formas ressentidas de luta por reconhecimento. Esse pessoal está longe de ser parecido com a extrema-direita, mas tem uma semelhança curiosa: são uma resposta errada para um sentimento, uma intuição, de que tudo está podre e precisa acabar.
O problema é que, ao captar um sofrimento real, o identitarismo frequentemente transforma discriminação em chave explicativa total da sociedade. Questões civilizacionais mais amplas, valores como tolerância e ceticismo saudável, outros elementos que tornam as coisas ruins como estão são todos submetidos a uma gramática moral centrada em identidade e privilégio, em que vale tudo, já que do “outro lado” estão os defensores conscientes de privilégios. A crítica social se torna uma caricatura e a militância política sai desmoralizada. Não é por acaso que existe uma crise enorme de legitimidade sentida por amplas camadas de estudantes em relação ao movimento estudantil e enorme dificuldade de convencimento mais geral da pertinência do que defendem. Divergências passam a ser lidas como falhas éticas, como canalhice ou como frieza e paciência conveniente em relação a problemas urgentes. Uma parte da energia política se desloca da transformação estrutural para a vigilância moral dos discursos e comportamentos. No melhor dos casos, pois sempre há quem aproveite o fervor moral em funcionamento para tirar proveito pessoal pelo caminho. Do outro lado, a situação não é muito melhor, pois muitos denunciantes do identitarismo fazem questão de se enquadrar em suas suspeitas de hostilidade e indiferença. Realmente são leões para apontar as falhas da militância, mas rugem bem pouco ou nada contra os problemas apontados por ela. Invocam certo espírito antirracista nacional, herdeiro de lutas passadas, e a constituição fenotípica mestiça do nosso povo como traço constituinte de um projeto de nação, mas não conseguem dar respostas para a percepção de que o branco pobre encontra menos hostilidades e tem mais oportunidades de vida do que um mestiço ou preto igualmente pobre.
Ainda assim, me parece um erro imaginar que isso tudo seja apenas manipulação cultural, tribalismo moral, arrogância e imposição artificial “de cima”. Nenhuma militância consegue produzir tamanha adesão dentro e fora dos campi pelo Brasil se não tocar experiências reais de sofrimento social. O identitarismo não inventa o problema que denuncia: só distorce e dificulta o caminho para resolvê-lo.
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