Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em 7 de outubro de 2023, na ação conhecida como Operação Dilúvio de Al-Aqsa, grupos da resistência palestina, liderados pelo Hamas, romperam o cerco colonial à Faixa de Gaza e realizaram uma contraofensiva sem precedentes contra o sul de Israel. Basicamente, há duas interpretações para o ocorrido. A primeira, a partir da ideia de “acontecimento geopolítico”, envolve a historicidade dos antagonismos entre israelenses e palestinos, que remetem ao início do século XX, quando judeus europeus migraram para a Palestina com o objetivo de criar um Estado nacional próprio, excluindo os habitantes originais daquele território. A segunda, o “evento midiático”, diz respeito ao recorte feito pelos grandes grupos de comunicação ocidentais, que representam Israel como “vítima” e os palestinos como “algozes” – invertendo, assim, a lógica entre colonizadores e colonizados.
Em contraponto a essa narrativa midiática, e para compreender a luta do povo palestino de maneira geral, uma boa sugestão de leitura é o livro “O Hamas conta seu lado da história”, publicado pela Edições Causa Operária. A obra desconstrói as mentiras divulgadas pela grande mídia sobre o 7 de outubro, valendo-se de declarações, entrevistas, documentos relativos à operação anteriormente citada e uma análise histórica do movimento de resistência islâmica.
Como Israel exerce uma ocupação colonial na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, as ações do Hamas e de outros grupos palestinos são legitimadas pelo direito internacional, uma vez que a resistência armada contra a ocupação está de acordo com o artigo 51 da Carta da ONU, que estipula o direito à legítima defesa contra a potência ocupante. Conforme apontado na apresentação do livro, “a luta contra a opressão […] é inerentemente libertária, independentemente de maiores considerações. Assim foi sempre concebido na história da humanidade, de Espártaco ao Vietnã”.
Portanto, devido à sua condição de potência ocupante, Israel não tem direito à autodefesa em Gaza, conforme alegado pelas autoridades sionistas e repetido sistematicamente pelos grandes veículos de comunicação. Seria o mesmo que afirmar que as atrocidades cometidas por portugueses e espanhóis no continente americano eram apenas “defesa contra os indígenas”. Aliás, nunca houve, na história, uma organização terrorista ou ideologia mais monstruosa e perigosa do que o sionismo – doutrina que legitima a limpeza étnica e o genocídio, usando a religião de maneira distorcida para incitar a prática de crimes.
A partir de entrevistas com membros do Hamas, o livro desfaz o mito de que o grupo é hostil aos judeus e tem como objetivo exterminar essa população. Sua luta é exclusivamente contra o movimento sionista, que ocupou a Palestina, promoveu massacres e profanou santuários islâmicos. Nas palavras de Ismail Haniyeh, líder político do Hamas: “Nunca temos como alvo os civis, e a nossa resistência e as Brigadas Al-Qassam têm sempre como alvo o exército de ocupação e os colonos que estão espalhando estragos nas nossas terras. Nesta ocasião, não nos opomos a qualquer comitê internacional e neutro que pretenda conduzir uma investigação sobre os acontecimentos do 7 de Outubro, e ainda que estas investigações se estendam para além do 7 de Outubro”.
Já a opção pela luta armada, segundo Musa Abu Marzuk, chefe de Relações Internacionais do Hamas, é necessária porque nenhuma ocupação na história concedeu a independência ao povo ocupado por meio de negociações. Como exemplo, ele cita a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que, nos anos 1990, abdicou da resistência para aderir a negociações com Israel. No entanto, após trinta anos, não houve avanços rumo à criação do Estado palestino. Portanto, a liberdade é conquistada, não é dada. “Se alguém puder nos ajudar a alcançar nossos objetivos de forma pacífica, por favor! Mas, se não, não podemos continuar a viver nessas condições desumanas”, sintetizou Basem Naim, do Birô Político do Hamas, em entrevista para o livro.
Na segunda parte de “O Hamas conta seu lado da história”, são apresentados os argumentos do grupo para a realização da Operação Dilúvio de Al-Aqsa. É enfatizado que, ao contrário da narrativa hegemônica do “evento midiático”, a batalha do povo palestino contra a ocupação e o colonialismo não começou em 7 de outubro, mas há 105 anos, incluindo 30 anos de colonialismo britânico e 75 anos de ocupação sionista.
Desse modo, a contraofensiva da resistência foi um passo necessário e uma resposta normal para confrontar todas as conspirações israelenses contra o povo palestino e sua causa. Tratou-se de um ato defensivo para se livrar da ocupação israelense, reivindicar os direitos palestinos e avançar no caminho para a libertação e independência, como fizeram todos os povos ao redor do mundo. “Nosso objetivo é claro: queremos libertar nossa terra, nossos lugares sagrados, nossa Mesquita Al-Aqsa, nossos prisioneiros. Não temos hesitação quanto a isso”, apontou um trecho da declaração do Hamas sobre a operação.
No livro, também são refutadas as alegações – sem provas – de que as Brigadas Al-Qassam, braço armado do Hamas, visavam civis israelenses no dia 7 de outubro. De acordo com relatórios dos jornais israelenses Yedioth Ahronoth e Haaretz, muitos civis foram mortos na ocasião por um helicóptero militar do Estado sionista, especialmente no festival de música Nova, perto de Gaza, onde 364 israelenses morreram. Os dois relatórios indicaram que os combatentes do Hamas chegaram à área sem conhecimento prévio do festival e que o helicóptero israelense abriu fogo indiscriminadamente contra ambos, militantes e participantes do evento.
Outros testemunhos israelenses confirmaram que as incursões do exército sionista e as operações de seus soldados mataram muitos prisioneiros israelenses e seus captores. O exército de ocupação bombardeou casas em assentamentos israelenses onde havia combatentes palestinos e israelenses. Tratou-se da aplicação da “Diretiva Hannibal”, segundo a qual “é melhor um refém civil ou um soldado mortos do que capturados vivos”, para evitar uma troca de prisioneiros com a resistência palestina.
Não obstante, as autoridades de ocupação revisaram o número de soldados e civis mortos de 1.400 para 1.200, após descobrirem que 200 cadáveres carbonizados pertenciam a combatentes palestinos mortos e misturados aos corpos israelenses. Isso significa que quem matou os combatentes também matou israelenses – sabendo-se que apenas o exército israelense possui aeronaves militares que mataram, queimaram e destruíram áreas israelenses. É o chamado “fogo amigo”. Também é fato que muitos colonos israelenses nos assentamentos ao redor de Gaza estavam armados e travaram confrontos com militantes palestinos. Esses colonos foram registrados como civis, mas eram homens armados que lutavam ao lado do exército israelense.
Além disso, não há evidências para as alegações amplamente divulgadas pela mídia ocidental, como os “quarenta bebês decapitados”, o “livro Mein Kampf encontrado na sala de uma criança no norte de Gaza”, as “bandeiras do ISIS carregadas pelos combatentes do Hamas”, a “mulher grávida que teve o ventre aberto e o bebê arrancado” e os “estupros em massa” supostamente perpetrados por membros do Hamas.
Do ponto de vista pragmático, como questionam Max Blumenthal e Aaron Maté em artigo no The Grayzone, seria plausível que um grupo de combatentes do Hamas, em pleno ataque surpresa – focado em capturar o maior número possível de pessoas rapidamente –, pausasse a operação para cometer estupros em massa, enquanto as forças israelenses se mobilizavam para contra-atacar?
Podemos discordar de muitos aspectos do Hamas, como seu forte viés religioso. Mas o 7 de outubro deve ser colocado em seu contexto mais amplo. Todos os casos de luta contra o colonialismo e a ocupação em nosso tempo contemporâneo devem ser evocados. Essas experiências mostram que, diante de um mesmo nível de opressão cometida pelo ocupante, haverá uma resposta equivalente por parte das pessoas sob ocupação.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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