Por Francisco Fernandes Ladeira.
Antes de 7 de outubro de 2023, quando houve o recrudescimento do genocídio em Gaza e na Cisjordânia, poucas pessoas, inclusive as mais politizadas, conheciam profundamente a geopolítica palestina. Esse desconhecimento facilitava a propagação de determinadas narrativas ocidentais, como aquelas que apontavam que o “conflito Israel-Palestina” era causado, essencialmente, por questões religiosas – o que oculta a ocupação colonial sionista. Segundo essa perspectiva, há uma rivalidade secular entre judaísmo e islamismo. Ainda nessa lógica, um ditado, cuja autoria é desconhecida, diz: “Tudo separa os árabes, somente o ódio aos judeus os une”.
Atualmente, mesmo em meios mais conservadores, esse tipo de raciocínio equivocado não encontra respaldo. De fato, não há antagonismos entre islã e judaísmo. Pelo contrário, no Alcorão – livro sagrado dos muçulmanos – é enfatizado que judeus e cristãos (os “povos do livro”) são seguidores de religiões autênticas e devem ter suas crenças, rituais e costumes respeitados. As maiores perseguições aos judeus não foram feitas por muçulmanos, mas por cristãos (Inquisição, pogroms, Holocausto etc.)
No entanto, no conturbado histórico das relações entre israelenses e palestinos, há um episódio que teve como uma das causas o fator religioso: precisamente, a disputa entre o que os judeus chamam de “Muro das Lamentações” e os muçulmanos conhecem como “Muro de Al-Buraq” ou “Muro Ocidental da Mesquita de Al-Aqsa”. Trata-se dos Distúrbios de al-Buraq, ocorridos em 1929, ainda durante o Mandato Britânico na Palestina – portanto antes da criação do Estado de Israel.
Como explicou Breno Altman no vídeo “A Verdadeira História do Exército Israelense”, publicado no Opera Mundi, o termo Distúrbios de al-Buraq se refere a uma série de conflitos que eclodiu em agosto de 1929, com epicentro em Jerusalém, mas logo se espalhou por outras cidades, como Hebron e Safed. Na tradição islâmica, o termo “al-Buraq” está relacionado ao cavalo alado utilizado pelo profeta Maomé em sua viagem noturna de Meca a Jerusalém e sua posterior ascensão aos céus. Assim, para os muçulmanos, a “Muralha Ocidental” seria o lugar onde Maomé teria amarrado o equino antes de sua jornada celestial. Para os judeus, o mesmo muro é o último vestígio do Segundo Templo de Salomão, destruído pelos romanos no primeiro século de nossa era, portanto, o local mais sagrado da fé judaica.
Essa sobreposição simbólica fez do muro um ponto de choque inevitável. De um lado, muçulmanos defendiam seu vínculo religioso histórico; de outro, judeus, estimulados pelo movimento sionista, reivindicavam seu espaço de oração. Assim, a disputa pelo direito de oração no muro se transformou no epicentro de graves tensões, cujo pano de fundo era marcado não apenas pela disputa religiosa, mas também por dinâmicas coloniais.
O movimento sionista, em plena expansão, estimulava a imigração judaica da Europa para a Palestina. Na época, esse processo era visto pelos palestinos como uma ameaça à perda de suas terras. Nesse sentido, o muro se converteu em símbolo dessa disputa, extrapolando o aspecto religioso e ganhando um peso político.
Nesse contexto, no dia 14 de agosto de 1929, uma marcha de jovens judeus – munida de bandeiras sionistas e com cânticos ultranacionalistas e antiárabes – rumou em direção ao “Muro das Lamentações”. Foi o estopim dos Distúrbios de al-Buraq. Vale ressaltar que essa marcha teve como principal organizador o grupo de extrema direita conhecido como Betar, fundado por Vladimir Jabotinsky – admirador declarado do fascismo italiano, o que demonstra o elo histórico do sionismo com outras doutrinas autoritárias.
Em resposta à marcha, grupos palestinos organizaram uma grande manifestação em Jerusalém para reafirmar o caráter islâmico da “Muralha Ocidental”, denunciando aquilo que consideravam uma “usurpação sionista”. Com a crescente tensão, confrontos entre judeus e palestinos eclodiram em Jerusalém e cidades vizinhas. Multidões palestinas atacaram bairros judeus, e milícias de autodefesa sionistas responderam com represálias brutais. A violência se generalizou.
Por seu turno, as autoridades britânicas intervieram no conflito, mas majoritariamente contra os palestinos, que sofreram centenas de prisões e condenações pesadas. O governo de Londres atribuiu os Distúrbios de al-Buraq ao “medo árabe diante do avanço do sionismo e da imigração judaica”. O saldo do conflito foi trágico: 133 judeus foram mortos e 339 feridos, enquanto 116 árabes faleceram e outros 232 ficaram feridos. Tudo isso sem contar o rastro de destruição em várias cidades.
Para o movimento sionista, esse conflito reforçou a premissa de que suas ambições na Palestina somente seriam realizadas pelas armas. Assim, as antigas milícias de autodefesa dos judeus se transformaram em uma força militar própria. O Haganah, principal milícia, passou a ser uma organização de massas. O grupo adquiriu armas vindas do exterior e criou suas próprias oficinas para fabricar granadas e outros equipamentos rudimentares – prática equivalente ao que hoje faz o Hamas para enfrentar o colonialismo israelense.
Dessa forma, de uma “milícia improvisada”, o Haganah se transformou numa espécie de exército subterrâneo. Seu grande salto, no entanto, veio com a Revolução Árabe Palestina (1936-1939), quando o grupo se consolidou como uma força estruturada, integrando-se à Polícia Colonial Britânica na repressão ao povo palestino. Com isso, o Haganah ganhou treinamento, armas e financiamento – inclusive lutando ao lado dos britânicos durante a Segunda Guerra.
A partir de então, com o aumento do poderio bélico, os sionistas passaram a recorrer cada vez mais à violência para concretizar a aspiração de criar um Estado étnico na Palestina. O resto, como tragicamente sabemos, é história.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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