Geografia, mídia e colonialismo: reflexões sobre a questão palestina na live Cinegnose

Por Francisco Fernandes Ladeira.

No domingo (12/4), durante minha participação na live Cinegnose, comandada pelo professor Wilson Ferreira, tive a oportunidade de apresentar as bases teóricas e as motivações por trás do meu novo livro, “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV). Ao longo da conversa, ressaltei que a geopolítica palestina, especialmente após os desdobramentos de outubro de 2023, não pode ser compreendida apenas por movimentações militares, mas sim como uma guerra de percepções travada intensamente no campo da comunicação. Como geógrafo especializado em mídia, propus uma análise pautada na “geografia midiática”, na qual o território é disputado não só fisicamente, mas por meio de termos, enquadramentos e omissões que tentam moldar a opinião pública.

Aprofundei essa análise ao propor uma distinção entre o “acontecimento geopolítico” e o “evento midiático”. Argumentei que, enquanto o acontecimento geopolítico diz respeito às mudanças reais nas correlações de força, às rupturas territoriais e aos movimentos de resistência no chão da Palestina, o evento midiático é uma construção artificial. Este último é produzido para ser consumido, despojado de sua profundidade histórica e transformado em um espetáculo que prioriza o choque imediato ou a narrativa conveniente às potências ocidentais. Entender essa diferença é o que nos permite perceber como um fato real é frequentemente sequestrado por uma narrativa que visa esconder as engrenagens do poder.

Um dos pontos centrais que enfatizei foi o caráter colonial do movimento sionista. Expliquei que, ao compreendermos o projeto de Israel sob a ótica do colonialismo de povoamento, a leitura sobre os eventos recentes muda drasticamente. Dentro dessa lógica, argumentei que a Operação Dilúvio de Al-Aqsa não deve ser classificada sob o rótulo “ação terrorista” – terminologia amplamente utilizada para deslegitimar lutas de libertação –, mas sim como um movimento de resistência contracolonial. Essa distinção é fundamental, pois coloca o debate no campo do direito de um povo oprimido de reagir à ocupação e ao cerco prolongado, conforme previsto, inclusive, em marcos do direito internacional para povos sob domínio colonial.

Além disso, sustentei que, sob uma perspectiva rigorosa da geografia e da história, não existe um “povo judeu” no sentido étnico e biológico do termo, mas sim uma comunidade de fiéis unidos por uma religião. Essa desconstrução é vital para entender como o sionismo utilizou um mito de “retorno” para justificar o que foi, na verdade, um processo de limpeza étnica da Palestina. Discuti como esse projeto não se limitou à expulsão das populações originárias, mas avançou para uma verdadeira “substituição da geografia local”: o apagamento de nomes de vilas árabes, a destruição de marcos arquitetônicos e a alteração da paisagem para forjar uma nova identidade territorial que negasse a existência prévia do povo palestino. Essa transformação geográfica é a face material do apagamento histórico que tento combater por meio do livro.

Também ressaltei a educação midiática como uma ferramenta de sobrevivência intelectual. Discuti como é fundamental que o cidadão aprenda a decodificar as camadas de interesse por trás de cada notícia, desenvolvendo a habilidade de identificar quando o jornalismo é instrumentalizado pela propaganda de guerra para apagar contextos históricos. Ao tratar das contranarrativas, pontuei que meu objetivo foi dar voz a perspectivas que desafiam o discurso hegemônico, humanizando o povo palestino e revelando como a Palestina funciona hoje como um termômetro da geopolítica mundial e do desgaste das potências ocidentais. Concluí ressaltando que meu esforço visa fomentar uma leitura que permita romper a superfície das notícias e entender como o poder e o espaço são manipulados por meio da informação na contemporaneidade.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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