
Um petroleiro russo chegou a Matanzas carregando centenas de milhares de barris de petróleo bruto em um momento crítico para a ilha. Sua chegada não só garante um fornecimento imediato de energia, como também faz parte de um processo de recuperação mais amplo que Havana já havia iniciado após meses de cerco imposto pelos Estados Unidos, cuja intenção declarada era justamente estrangular economicamente o país até seu colapso interno. Esse bloqueio, longe de ser uma abstração diplomática, teve consequências materiais concretas: apagões, paralisia de setores produtivos e pressão constante sobre o cotidiano do povo cubano.
Em janeiro de 1944, após quase 900 dias de cerco, o Exército Vermelho lançou a Ofensiva Leningrado-Novgorod, uma operação militar em larga escala que finalmente rompeu o cerco nazista a Leningrado, hoje São Petersburgo. Por meio de uma combinação de ataques coordenados em diversas frentes, as forças soviéticas empurraram a Wehrmacht de volta dezenas de quilômetros para o oeste, reabrindo rotas terrestres e garantindo o abastecimento de uma cidade que havia sido submetida a uma tentativa sistemática de aniquilação pela fome e pelo frio. Mais de um milhão de pessoas morreram durante o cerco, mas a resistência e a contraofensiva soviéticas transformaram o que deveria ter sido uma derrota em um dos episódios que demonstrariam, em última análise, o esgotamento da ofensiva nazista na Frente Oriental.
A resistência e a contraofensiva soviéticas transformaram o que deveria ter sido uma derrota em um dos episódios que acabariam por expressar o esgotamento da ofensiva nazista na frente oriental.
A comparação não é acidental. Quando se tenta hoje apresentar a chegada de um petroleiro russo a Cuba como resultado de uma suposta flexibilidade por parte de Washington, é difícil não recorrer à ironia: teria sido aceitável afirmar em 1944 que a Alemanha nazista havia decidido “aliviar” o cerco de Leningrado? Que, após quase três anos de sufocamento, o levantamento do cerco foi uma concessão do agressor e não o resultado de seu fracasso? No entanto, é precisamente esse exercício de distorção que vemos nas manchetes recentes.
A manchete do The New York Times exemplifica isso: “EUA permitirão que petroleiro russo chegue a Cuba, facilitando a entrada de combustível essencial após meses do que equivalia a um bloqueio”. É difícil condensar um exercício tão completo de inversão em uma única frase. Os EUA não só aparecem como árbitros da situação, mas como aqueles que “permitem” o fornecimento, enquanto o bloqueio é reduzido a algo que “equivale” a um embargo, quase como se fosse uma percepção subjetiva e não uma política sustentada há mais de sessenta anos. Mas o mais revelador não é apenas essa manchete, mas como ela foi reproduzida quase automaticamente em âmbito internacional. Da RTVE ao El País, o slogan se repete com precisão: “Os Estados Unidos permitem”.
Em ‘Blade Runner’, os replicantes não sabem que são replicantes. Eles se movem, falam e reagem como humanos, mas lhes falta algo essencial: não podem questionar a estrutura que os criou. Sua existência é limitada por um programa que define o que podem ver, pensar e dizer. E, mais uma vez, vemos como o jornalismo atual parece operar com uma lógica semelhante. O que ele produz se assemelha ao jornalismo, adota suas formas e linguagem, até mesmo seu tom crítico em alguns momentos, mas perdeu o que o define. Nesse sentido, a questão é: o que faz do jornalismo o jornalismo? E, ainda mais importante, como podemos distinguir os imitadores?
Se reportar significa contextualizar, identificar dinâmicas de poder e atribuir responsabilidades, aqui ocorre exatamente o oposto. O que resta não é informação, mas uma narrativa fechada que nos impede de compreender a realidade.
Ofensiva contra Cuba
Para entender o que aconteceu, é essencial sair desse contexto. A chegada do petróleo russo a Cuba não é uma concessão, e não apenas porque alguém diz isso, mas porque existem limitações em vários níveis.
Primeiro, há um limite econômico: as ameaças de tarifas e sanções perdem a eficácia contra atores que já operam fora do circuito econômico dos EUA. Vimos isso na guerra comercial com a China, onde as táticas de pressão de Washington encontraram resistência, demonstrando que esses mecanismos não são universais, mas sim dependentes da posição relativa de cada economia no sistema internacional. Os Estados Unidos alertaram que imporiam tarifas sobre aqueles que fornecessem petróleo a Cuba; no entanto, na prática, essa medida é ineficaz contra a Rússia. Desde 2022, o comércio entre os dois países é praticamente inexistente como consequência do regime de sanções, e Moscou redirecionou suas exportações de energia para outros mercados, especialmente na Ásia.
Os Estados Unidos encontram-se atualmente imersos num cenário de alta tensão no Oriente Médio, particularmente em relação ao Irã, mas também à Palestina, o que está gerando custos econômicos, tensões com aliados e debates internos sobre seus próprios objetivos.
Em segundo lugar, uma restrição geopolítica: os Estados Unidos enfrentam uma contradição estratégica fundamental. Não podem intensificar diretamente o conflito contra a Rússia no Caribe sem comprometer outras áreas prioritárias, como o conflito na Ucrânia ou sua estratégia contra a China. A operação com o petroleiro ilustra isso claramente: a embarcação recebeu escolta oportuna de unidades navais russas em trechos estratégicos de sua rota, um fator de dissuasão que introduz uma dimensão militar sem a necessidade de um confronto aberto.
E em terceiro lugar, uma restrição material e temporal: a sobrecarga. Os Estados Unidos estão atualmente imersos em uma situação de grande tensão no Oriente Médio, particularmente em relação ao Irã, mas também à Palestina, o que gera custos econômicos, tensões com aliados e debates internos sobre seus próprios objetivos. Esse contexto afeta diretamente sua capacidade operacional em outras áreas, incluindo o Caribe.
Assim como em Leningrado, o que está em jogo não é apenas um cerco isolado. O cerco fez parte de uma ofensiva mais ampla — a Operação Barbarossa — concebida como uma guerra de aniquilação. Durante quase 900 dias, a cidade resistiu, contribuindo para a erosão de uma máquina militar que acabaria por ruir em toda a frente oriental.
Hoje, algo semelhante está acontecendo, em um contexto diferente e com formas distintas. A intensificação do bloqueio contra Cuba não é um evento isolado, mas parte de uma ofensiva mais ampla do imperialismo estadunidense contra os países que não se submetem à sua lógica. E é precisamente aí que esse evento adquire seu significado, para além de um episódio em si, como mais um indício de uma situação mais profunda e complexa. Isso, somado às limitações reveladas na guerra comercial contra a China ou à incapacidade dos EUA de impor sua vontade militar no Irã, demonstra que essa ofensiva começa a encontrar resistência em diversas frentes.
A Rússia faz isso porque as condições materiais o permitem, e seu homólogo, os Estados Unidos, não o impede porque não pode fazê-lo sem comprometer outros cenários nos quais também está envolvido. Não se trata de vontade, mas de capacidade.
E, no entanto, o que veremos não é o reconhecimento dessas limitações, mas sim seu ocultamento. Já o vemos em manchetes como as do The New York Times. Transformar derrotas em vitórias não é um erro jornalístico, mas uma tática clássica do poder para esconder suas fraquezas. Donald Trump, aliás, transformou essa lógica em espetáculo, a ponto de hoje fazer parte do senso comum político: perder e apresentar a derrota como vitória.
Nem Leningrado, então, nem Cuba, hoje, são o lugar onde o resultado é decidido, mas são momentos em que se torna visível uma correlação de forças que se constrói em escala internacional. O mundo permanece em disputa. E o que aconteceu não é o fim de nada, mas mais uma jogada em um jogo aberto: uma jogada que, mais uma vez, evidencia os limites do poder unipolar. Não é xeque-mate, mas é mais um xeque para o rei.

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