
Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em mais de uma década analisando o discurso da grande imprensa brasileira, aprendi que, nos noticiários dos principais grupos de comunicação do país, nada é tão ruim que não possa piorar. Para Globo, Estadão, Folha e congêneres, o fundo do poço não tem fundo.
No entanto, vez ou outra, a situação extrapola e surpreende mesmo aqueles acostumados a esperar pelo pior. No Jornal O Globo de domingo (13/7), me deparei com um artigo assinado por um colunista convidado, João Torquato, que se apresenta como “analista de comunicação do Instituto Brasil-Israel e ativista do Movimento Negro”. Isso mesmo! O leitor não se equivocou.
Trata-se de um oxímoro, pois não há como defender uma causa legítima (do negro) e, ao mesmo tempo, compactuar com um projeto genocida. Mas, para não dizer que estou recorrendo ao clássico argumento ad hominem, vamos ao conteúdo do texto de Torquato, intitulado “Aplaudir morte de civis, judeus ou árabes, é problema moral”.
Logo na primeira frase, há um negacionismo geopolítico: “No dia 13 de junho, Israel decidiu atacar o Irã em resposta ao avanço de seu programa nuclear, que representava ameaça para o país e para toda a estabilidade do Oriente Médio”.
Primeiro, conforme admite o próprio autor, a decisão de atacar foi manobra política de sobrevivência de Benjamin Netanyahu. Segundo, o Irã não representa uma ameaça para o Oriente Médio. Quantos vizinhos foram invadidos pelo país persa? Quantos golpes de Estado Teerã apoiou? Que país vizinho iniciou uma instabilidade social com apoio iraniano? As respostas para as três questões são negativas. Já o mesmo não se pode dizer sobre o Estado sionista.
Como não poderia deixar de ser, o suposto ativista recorre à velha cartada de usar antissemitismo e antissionismo como termos intercambiáveis. Outro exemplo de sua imaturidade intelectual foi, na falta de argumentos para questionar a política externa iraniana, se referir ao Irã como “regime fundamentalista e reacionário dos aiatolás”.
Além disso, Torquato faz uma descabida comparação entre racistas e críticos do Estado de Israel, insinuando a existência de uma espécie de “antissemitismo estrutural” de setores da esquerda. Para o autor, acusar quem defende o genocídio palestino de sionista é o “equivalente progressista ao ‘você é comunista’ da extrema direita”.
Invertendo a realidade geopolítica, Torquato acusa o Irã de “bombardear áreas civis na região metropolitana de Tel Aviv”, prática que, como tragicamente sabemos, é típica das forças militares sionistas. Será que ele não acompanha o que acontece em Gaza ou é desonestidade intelectual mesmo?
Finalizando o artigo, tentando sensibilizar os leitores com uma observação “lacradora”, o analista de comunicação do Instituto Brasil-Israel escreveu: “Porque, quando o aplauso à morte de civis, judeus ou árabes, se torna aceitável, o problema deixa de ser apenas político. Passa a ser moral”.
Como (suposto) ativista do Movimento Negro, João Torquato deveria se perguntar sobre algumas questões morais. O que ele tem a dizer sobre a esterilização das mulheres etíopes em Israel? Sobre os pretos e pobres mortos nas periferias brasileiras com o uso de armas exportadas por Israel? E as técnicas de estrangulamento exportadas pelas forças militares sionistas, uma delas, inclusive, utilizada na morte de George Floyd, inspiração da luta antirracista? Provavelmente, nada a declarar. O aplauso a um regime colonial, racista e supremacista – como é o caso do sionismo – talvez seja o maior problema moral de nosso tempo.
E assim o sionismo vai diversificando sua máquina de propaganda. Se antes, para limpar sua sanha genocida, recorreu ao veganwashing, ao pinkwashing e ao greenwashing; com o texto de João Torquato, suposto ativista, o sionismo inaugura o blackwashing.
Torquato precisa se decidir: apoia os negros ou o sionismo. Não há como estar dos dois lados.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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