Duas derrotas, uma lição. Por Michel Goulart da Silva.

Por Michel Goulart da Silva.

Nesta semana, a divulgação de dois resultados eleitorais impactou a esquerda. Esses resultados também fortaleceram a influência de Donald Trump na América do Sul. Nas eleições de segundo turno realizadas na Colômbia e no Peru, a esquerda saiu derrotada por pequenas margens de votos. Em ambos os casos, se fala em fraude, o que não deixa de ser verdade. Contudo, explicar essas derrotas por essa razão é uma simplificação equivocada da realidade e, mais do que isso, uma justificativa para não fazer um balanço concreto sobre os erros cometidos.

Por sua constituição própria, a democracia burguesa é uma fraude, na medida em que dificulta ou mesmo impede que os trabalhadores tenham seus representantes ocupando cargos nas instituições. Os processos eleitorais são movidos pelo poder financeiro dos empresários, e as candidaturas que se dizem representantes dos trabalhadores têm uma trajetória de adaptação à institucionalidade burguesa, inclusive por razões materiais. Ou seja, a fraude está na base do sufrágio burguês.

Neste sentido, a única esquerda que consegue algum espaço é aquela domada pelo poder financeiro da burguesia e que se mostra palatável para as instituições do Estado. Essa é uma descrição da esquerda que foi ao segundo turno no Peru e na Colômbia. Nas eleições anteriores, no Peru, Pedro Castillo defendeu um programa de nacionalismo fiscal que, a despeito de seus limites, deixou a burguesia e o imperialismo apavorados com o que poderia acontecer. Seu mandato foi curto e seu governo foi derrubado por um golpe.

Na Colômbia, Gustavo Petro levou a luta anti-imperialista ao máximo que era possível, inclusive desafiando Donald Trump e seu tarifaço. Em âmbito interno, quando a burguesia ameaçou seu mandato, levou os trabalhadores às ruas na defesa de uma reforma nas instituições. Como Castillo, não apontou para a derrubada da ordem burguesa, mas sua busca pelo apoio dos trabalhadores também colocou em alerta o imperialismo e seus representantes locais.

Em ambos os casos, a participação eleitoral somente levaria à vitória se estivesse calcada na mobilização e na luta, em um paulatino e crescente enfrentamento com a ordem burguesa. Este momento, diante dos ataques explícitos do imperialismo, deveria levar ao avanço não apenas em uma retórica nacionalista, mas na organização e mobilização da base dos trabalhadores. Contudo, o limitado discurso nacionalista foi ainda mais impregnado pela retórica da conciliação e os trabalhadores foram chamados a votar e não a lutar contra a ordem burguesa.

Por certo que os setores mais politizados da classe trabalhadora aderiram ao chamado e foram às urnas, mas não sem mostrar desconfiança. Emerge dos setores mais pauperizados da classe trabalhadora a vontade de lutar por mudanças que rompam com a dominação burguesa e apontem para um novo projeto de sociedade. Contudo, ao chamar os trabalhadores a fortalecer a democracia burguesa, por meio das eleições, a esquerda consegue ser abandonada por uma parcela dos setores mais pauperizados e deixar desanimada a vanguarda.

Essa é a lição que fica para o Brasil, onde a esquerda segue priorizando as eleições. Em 2018, Jair Bolsonaro assumiu de forma demagógica o discurso antissistema e saiu vitorioso. Em 2022, a vitória da esquerda poderia ter escorrido pelos dedos, diante da insípida candidatura de união nacional encabeçada por Lula. Em 2026, a incapacidade da direita de construir uma candidatura com projeto político pode pavimentar uma nova vitória da esquerda. Contudo, a esquerda também segue sem projeto, ainda presa na defesa da institucionalidade burguesa e incapaz de organizar os trabalhadores no sentido da transformação social.

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