
Na Argentina, nos acostumamos a uma sequência de degradação democrática sob a ficção de uma institucionalidade alardeada que não existe. Como se vivêssemos anestesiados e sem reação. Naturalizando-a. É o caso da investidura presidencial que Javier Milei desonra. A legitimidade que lhe foi concedida pelo voto popular foi perdida durante seu mandato. Ele voltou a endividar o país, pulverizou empregos, pisoteou salários e pensões, babou com Donald Trump, abraçou o genocida Benjamin Netanyahu, insultou a memória dos que tombaram nas Ilhas Malvinas, desfinanciou a educação pública, promoveu um golpe com criptomoedas e chamou de heróis empresários sonegadores em um colóquio da IDEA. Esses são apenas alguns exemplos de uma lista longa demais.
O contrato social é sistematicamente violado pela classe dominante e seu irresistível poder de lobby. Essa mesma classe controla o país à vontade desde o empréstimo dos Baring Brothers, a primeira dívida externa contraída por Bernardino Rivadavia em 1824.
201 anos se passaram e nossa dependência se aprofundou. Tentam nos transformar novamente em uma colônia. Um Estado anterior à Revolução de Maio, embora sem revolucionários. Com heróis mais terrenos, sem armas nem um exército de milícias como as que surgiram durante as invasões britânicas. Mas começam a dizer basta diante de tanta repressão, injustiças e mentiras.
Hoje, a ideia de povo atinge seu pleno potencial na força de sua dimensão coletiva. Um ar que se respira nas ruas e praças, mesmo que a Ministra Patricia Bullrich continue sendo alvo de gás lacrimogêneo e cassetetes pelas forças de segurança sob seu comando. Isso se faz sentir há mais de um ano nas marchas dos aposentados e em como elas vêm angariando apoio, nas multidões que estudantes e professores reuniram em defesa da universidade pública e na luta pelo Hospital Garraham e na solidariedade que ele inspira.
Agora se manifesta nas mobilizações e vigílias em apoio a Cristina. E embora 17 de outubro de 1945 tenha sido há muito tempo, assemelhava-se ao que estava acontecendo. Perón estava preso na Ilha Martín García, e o ex-presidente estava prestes a ser preso.
“O único herói válido é o herói do grupo, nunca o herói individual, o herói solitário”, disse Hector Oesterheld. Lembramos disso a estreia da minissérie El Eternauta, baseada na história em quadrinhos do renomado autor, ativista e vítima do terrorismo de Estado, como quase toda a sua família, durante a ditadura genocida.
Esse herói coletivo começa a despertar, lançado em uma luta de classes em desenvolvimento que pode não ser percebida, mas existe, como disse John William Cooke. “Não é, como afirma a reação, uma invenção comunista”, explicou a figura de proa da resistência peronista.
Trata-se da disputa persistente — como a história demonstra — entre opressores e oprimidos, a tirania do capital financeiro e do povo, como a entendia o filósofo argentino Enrique Dussel. Um bloco social heterogêneo de excluídos a caminho de recuperar sua energia e movimento após sucessivas derrotas, decepções e tragédias como a de 2001.
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