“Eu me sinto preso neste corpo de homem”, afirma Otávio, sorridente, vestindo a camisa de um unicornio.
Nunca fui bom ao recordar fisionomias.
Por isso, muito me surpreendi ao ver a cara de Otávio em quase todos os jornais, programas de TV e, principalmente, nas redes sociais antifascistas. Tive a certeza de que já me havia cruzado com ele antes.
Otávio Oscar Luz de Paula nasceu no dia 12 de novembro de 1977, em São Gabriel, Rio Grande do Sul, Brasil. Ele é filho e neto de policiais e o seu avô, segundo ele, morreu quando trabalhava tentando conter um assaltante de banco. Sua biografia (não verificada) relata que Otávio começou a dar aulas de judô aos cinco anos e de Jiu-jitsu com seis. Com 23 anos se mudou para Salamanca, na Espanha. Estudou Criminologia (sempre segundo sua própria informação) e o salto às primeiras páginas dos grandes jornais espanhóis aconteceu quando ele tornou-se uma das primeiras pessoas na Espanha ao utilizar a nova lei de autodeterminação de gênero, logo depois de aprovada.
Com isso, declarando-se como mulher (embora admitindo que nunca passou por um processo de transição e continuando a vestir-se igual a como sempre se vestiu, segundo pode verificar-se nas suas redes sociais) entrou no corpo oficial da polícia do País Basco, a famosa Ertzaintza.
Foram tempos de coincidência com o fato de que o partido herdeiro do nazifascismo espanhol (décadas de ditadura franquista mantiveram a essência política dessa ideologia muito forte, por aqui), lutou contra o que chamou de “Ideologia de Gênero”. Este mesmo partido, VOX, debochou abertamente da lei aprovada no parlamento e impulsada pelo governo de coalizão entre Socialistas e Podemos (de esquerda, na Espanha).
Diversas agentes policiais do mesmo Corpo Policial de Otavio, no País Basco, recorreram na justiça ao seu direito de não usar o mesmo banheiro que ele, que conquistou autorização judicial para isso. Sempre com um sorriso no rosto, ao ser entrevistado pelas principais redes de TV a respeito dessa situação.
Agora, Otávio voltou com força ao noticiário das Redes de TV. Suas aulas estão com lista de espera aumentada.
Foi denunciado por estar trabalhando como “Instrutor/formador” das instituições policiais do Reino da Espanha e pelo seu vínculo com uma organização (considerada criminosa por determinadas sentenças e ordens judiciais) chamada Desokupa. Estes, costumam aparecer nos principais atos públicos organizados pelos apoiadores de Bolsonaro na Espanha. E cresceram assustadoramente como “Consultoria” para expulsar (de madrugada) famílias inteiras (crianças incluídas) que atravessam o drama da mais importante vulnerabilidade social no país, atualmente: a moradia. No país mais famoso do mundo inteiro pelo fenômeno político da especulação imobiliária. A Espanha bateu recordes de país mundial onde existem mais casas sem moradores do que efetivamente sendo habitadas.
Quem o denunciou, ao Otávio, a esse respeito (contratos opacos como professor de policiais) primeiramente, foi o jornal catalão La Directa. O mesmo meio de comunicação que já denunciou (ao obter documentos reservados e usar a Lei de Acesso à Informação) o intercâmbio entre professores de escolas formadoras de policiais, entre a Espanha e o Brasil. Entre os policias brasileiros de São Paulo e do Rio de Janeiro, estavam incluindo professores do maior contingente policial brasileiro responsável pela letalidade (de cidadãos desarmados), mortes por armas de fogo.
“Minha melhor amiga é lésbica” ironiza Otávio ao ser perguntado pela mulher com quem sempre está acompanhado. “No Brasil eu tinha um Fiat Brava e agora dizem que estou rico e só não posso expor meu carro novo pela crise dos adesivos”, diz Otávio se referindo ao fato de ter sido abordado pelos próprios colegas policiais para retirar do seu carro as mensagens que o associavam a organizações que se encontram em pedido de processo de sua ilegalização (num país que proíbe apologia a ideologias pré-Constitucionais, antes da Espanha ter aprovado a atual Constituição, após a morte do ditador).
Segundo o jornal espanhol El Mundo, Otávio já ganhou 30 medalhas de ouro em competições esportivas internacionais, realizadas entre os Cuerpos de Seguridad (policiais).
Não será difícil adivinhar o nome do presidente brasileiro para o qual Otávio pediu o voto, abertamente, nas suas redes sociais.
Uma dica: está preso.
Barcelona, 18 de fevereiro de 2026.
@1flaviocarvalho, sociólogo.
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