Por Leandro Lanfredi, Esquerda Diário.
O Brasil já foi denunciado pela relatora da ONU para os territórios palestinos ocupados como sendo responsável por 9% das importações de petróleo por Israel. Antes do assunto aparecer na grande imprensa nacional, já vínhamos mostrando, ainda em 2023, com dados inéditos obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) como a Petrobrás vinha lucrando com o genocídio. Recentemente, junto a diversos ativistas envolvidos na campanha internacional por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel, promovemos uma série de artigos e elaborações em diversos veículos que denunciavam como as exportações do país à entidade sionista tinham aumentado em 51% em 2024. Nestas denúncias, mostramos também a explícita ligação da Petrobras com ao menos 2 navios que comprovamos que transportavam produtos da Petrobrás, que operaram em terminais da Petrobrás Transporte, e um deles inclusive era um navio operado pela própria Petrobras Transporte.
Esta denúncia demonstrou que, em meio à nova ofensiva genocida de Israel, o Brasil aumentou suas exportações e tornou-se ainda mais cúmplice destes crimes. O aumento do comércio do país com Israel segue orientação e diversas iniciativas que vêm sendo feitas pela Apex-Brasil, empresa ligada ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que tem como dirigente o ex-governador petista Jorge Viana. Esses fatos comerciais, somados aos mil e um laços militares, falam mais alto da cumplicidade brasileira do que os discursos de Lula denunciando o genocídio.
Recentemente, a Folha de São Paulo repercutiu essas denúncias que nós e diversos movimentos de solidariedade ao povo palestino temos feito. Nesta matéria, a Petrobras respondeu ao jornal que “não vende petróleo diretamente a refinarias israelenses desde 2023”. Essa própria frase deixa indicado que ela vende indiretamente e ela sabe disso. A Petrobrás está contribuindo de forma mais velada, mas contribui mesmo assim no genocídio.
Mostramos a seguir um dos caminhos deste comércio indireto. Ele começa nas plataformas do pré-sal, passa pela ilha italiana da Sardenha e termina nos caças e tanques israelenses.
Contexto: Israel cada vez mais dependente da importação de derivados
Israel tem 2 refinarias, uma em Haifa e outra em Ashdod. Antes da agressão ao Irã, Israel deu um salto em sua importação de petróleo cru, procurando robustecer seu estoque. Em um dos ataques retaliatórios, o Irã conseguiu danificar a refinaria de Haifa, diminuindo a capacidade de refino da entidade sionista.
A seguir, publicamos duas tabelas elaboradas a partir de informações que cruzamos de diversos softwares públicos de comércio internacional, softwares de movimentação de navios e informações públicas de comércio exterior.
Neste cenário, julho apresentou uma queda de 70% na importação de cru em relação a junho, ou uma queda de 57% em relação à média de importações de petróleo não refinado considerando os 11 meses anteriores, excluindo junho (que tinha sido recorde de importação). É o contrário do que aconteceu com os derivados.
Nos derivados, julho apresentou um crescimento de 31% em relação ao número já recorde de junho, se for considerada a média dos 11 meses anteriores sem junho, o crescimento foi de impressionantes 297% nos derivados.
De onde vêm os derivados para Israel?
Sem nenhuma surpresa, mais de 17% das importações de derivados de Israel vêm do imperialismo norte-americano, especialmente da refinaria Valero Bill E no Texas. Também se destacam refinarias e terminais de estados vizinhos que são cúmplices do genocídio. As refinarias e terminais da Grécia somam 21% nos últimos 3 meses, as refinarias e terminais da Turquia somam 10% no mesmo período, do Chipre, local de crescente presença militar e comercial israelense, advém 4%, soma similar à do vizinho Egito que garante derivados a Israel ao mesmo tempo que mantém a passagem de Rafah fechada à ajuda humanitária. Um número surpreendente (ao menos para este autor) é a refinaria de Dangote na Nigéria, da qual vieram 8% do petróleo refinado para Israel. Estes países citados até aqui somam 64%, com a Itália as fatias da pizza alcançam 81%.
Um aliado, nada secreto, de Israel é a Itália. Deste país, entraram 17%, e particularmente representativa é a refinaria Saras, em Sarroch na Sardenha. Essa refinaria é de propriedade da gigante Vitol, sediada na Suiça, conglomerado que é das maiores empresas de distribuição de petróleo e derivados no mundo. Esta empresa é uma gigante pouco conhecida, o que pode estar conectado com seu caráter de empresa de capital fechado e o secretismo de quem são os seus acionistas controladores. Esta empresa alega ter tido um faturamento de gigantescos US$331 bilhões em 2024 (comparáveis com os US$387bi da Exxon ou US$365bi da Shell). Esse faturamento advém dela ter um grande naco do comércio mundial de petróleo e derivados, responsabilizando-se pelo comércio diário de 7,2 milhões de barris de petróleo (para ter ideia da grandeza disso, é mais do que 2x toda a produção do Brasil). Do ponto de vista do refino, é uma empresa relativamente pequena, refinando 850 mil barris/dia, mas 300 mil destes barris acontecem na refinaria Saras já mencionada.
Imagem da refinaria Saras, obtida em seu site
Esta empresa é uma parceira direta do Estado genocida, responsável por parte do comércio de importações e exportações de hidrocarbonetos, sendo ela a operadora logística para exportação do excedente de óleo do campo de Karish.
Nos críticos meses de junho e julho, a refinaria Saras de propriedade da Vitol exportou cerca de 45 mil toneladas de derivados para Israel, respondendo sozinha por 12% de toda importação da entidade sionista. No mesmo ano de 2024 as exportações brasileiras de óleo cru para a Itália também aumentaram. Pelos dados oficiais do Brasil, obtidos via Comexstat, ocorreu um aumento de 17%. Esse aumento é muito maior do que o aumento para todo o restante do mundo, de somente 4,9%.
Através da análise de dados de comércio internacional e da qualidade do petróleo refinado em cada refinaria, temos o dado histórico de que, em média, a refinaria Saras usa o petróleo brasileiro como 7% do seu blend. No mês de aumento de exportação para Israel, no entanto, o papel do Brasil deu um salto, foi a impressionantes 47%!
Obtido na plataforma Kpler
A tabela acima ilustra as importações de petróleo brasileiro para Sarroch, o gráfico separa a exportação por companhia, nela vemos a Petrobrás, a Shell, Equinor (estatal norueguesa), a Francesa Perenco (que abocanhou campos da Petrobrás no Norte Fluminense que foram privatizados no governo Bolsonaro) e liderando o ranking está a PRIO. Esta empresa é supostamente brasileira, mas que tem como maiores acionistas os fundos imperialistas BlackRock com 5,48%, Aventti Strategic Partners com 4,51% e Vanguard Group com 4%.
Esta exportação por empresas privadas ilustra em si a privatização do petróleo do Brasil, mas a própria exportação da Petrobrás também ilustra essa tendência. Após uma venda expressiva em março, como pode ser visto acima, a Petrobrás voltou a vender para a unidade da Vitol em Junho. Mesmo mês que a refinaria sarda fez uma complexa operação de exportação para Israel envolvendo o Navio “Maria M” que foi até o Chipe onde fez operação de transferência conhecida como “Ship to Ship” para o navio “Nina An” que foi até a fronteira do Egito com Israel onde desligou seus transmissores e foi até Israel para descarregar.
Imagem do navio Nina An no aplicativo “Vessel Finder”
A exportação mais recente da Petrobras para a unidade da Vitol em Sarroch aconteceu através da FSO Macaé que carregou 51 mil toneladas para o navio Tore Knutsen no início de junho. Este navio teve como destino o porto de Sarroch na Sardenha, chegando lá em 26 de junho. Essa exportação é em si todo um símbolo da privatização.
A FSO Macaé é uma unidade que armazena produto da Petrobrás, oriundo de P-52 (Roncador), P-53 (Marlim Leste), P-51 (Marlim Sul) e P-55 (Roncador) e é 100% terceirizada e privatizada. Trata-se de uma unidade operada pela imperialista japonesa MODEC, maior operadora mundial de FPSOs e FSOs.
Imagem da FSO Cidade de Macaé em site da MODEC
O caminho privatizado do petróleo brasileiro para o genocídio através da Itália ilustra muito bem como é necessário fortalecer uma luta para que nenhuma gota de petróleo do Brasil e da Petrobrás vá a Israel, bem como para que o petróleo seja nosso e não do imperialismo e para o genocídio
Na última sexta-feira, a Federação Nacional dos Petroleiros, junto a ativistas do movimento de solidariedade à Palestina, esteve na Petrobrás entregando uma carta exigindo todo fornecimento de petróleo e derivados que tenham destino direto ou indireto para Israel.
Ajude a difundir a campanha para que nenhuma gota de petróleo brasileiro tenha como destino Israel.
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