
(Columbia GSAPP / CC BY 2.0)
Por Pablo Moscatelli.
O Brasil atravessa um momento em que a ausência de ações sociopolíticas concretas produz não apenas estagnação, mas retrocesso. A crescente dedicação do governo federal à engenharia eleitoral de 2026, em detrimento de políticas que enfrentem as desigualdades estruturais, revela um afastamento perigoso entre Estado e sociedade. Como já advertia Florestan Fernandes, a democracia no Brasil sempre arrisca se transformar “em fachada”, quando não incorpora o povo como sujeito e não apenas como destinatário.
A recente lei que proíbe o uso de linguagem “não binária” expõe o quanto o debate público foi sequestrado por agendas que distraem, fragmentam e desviam as energias que deveriam estar voltadas ao enfrentamento das desigualdades. Do ponto de vista linguístico, e falo como profissional, não existe base científica para proibir uma forma linguística em processo de formação (Ainda é um objeto de estudo). Como lembra Saussure, a língua é uma “instituição social”, que se transforma conforme o uso coletivo; e como reforça Bakhtin, nenhum signo linguístico é neutro nem imune à disputa social. Portanto, proibir uma forma emergente não é apenas erro metodológico: é negar o caráter vivo da linguagem.
Compreendo, porém, o movimento político: as línguas não pertencem a academias, Estados ou governos; pertencem ao povo. Essa afirmação, sustentada por Benveniste, Labov, Bourdieu e por toda a tradição sociolinguística, lembra que não há língua fora dos usos sociais. O valor de uma língua como diria Bourdieu; não está em sua estrutura interna, mas nas relações de poder que definem quem tem autoridade para nomear o mundo.
E é justamente nesse ponto que se revela a contradição central do nosso tempo. Se a língua pertence ao povo, por que o povo está sendo sistematicamente excluído dos espaços de participação? A ausência de participação social não é acidente: é projeto. Como ensinou Paulo Freire, sem diálogo não há democracia, e sem protagonismo popular não há transformação. O que vemos hoje é o fortalecimento de uma lógica que transforma governo em mera administração do poder não em exercício democrático.
Sem convocação popular, sem mobilização e sem escuta, o país segue reproduzindo a mesma maquinaria colonial descrita por Aníbal Quijano, que naturaliza hierarquias e silencia coletividades. Um Estado que legisla sobre a linguagem sem dialogar com seu povo apenas reafirma o que Frantz Fanon denunciou: o poder colonial não desaparece; ele muda de roupa.
Se o governo continua prisioneiro da burocracia capitalista que paralisa, fragmenta e neutraliza qualquer impulso transformador não será capaz de produzir mudanças reais. A máquina do Estado administra, ajusta, regula. Mas não governa. E governo, no sentido forte do termo, exige participação popular, conflito democrático, disputa simbólica, insurgência social, tudo aquilo que Chantal Mouffe (foto de capa) chama de “agonismo democrático”.
Hoje, o Brasil está perigosamente vazio de povo. E um país sem povo no centro não tem projeto, não tem futuro, não tem linguagem que lhe pertença.
É urgente construir um programa que gere ações políticas com o povo, e não para o povo. Programas que convoquem, mobilizem e permitam que a classe trabalhadora fale, renomeie, dispute e reconstrua o país. Sem isso, qualquer tentativa de mudança será devorada pela mesma burocracia que, como lembrava Weber, tende sempre a transformar a política em técnica, e a técnica em dominação.
Não podemos mais aceitar que o poder silencie o povo para preservar a ordem colonial que nos foi legada. Precisamos criar condições reais para transformar a vida de milhões, e isso só acontece quando o povo fala, participa e governa.

Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





