Bolsonaro em desespero

Por André Luiz Pereira.

Bolsonaro não tem mais opções. Não pode negar uma única das provas documentais que pesam contra ele. Não desmentiu os generais nem as demais autoridades militares que prestaram depoimento no processo sobre seus crimes. Até o antipetismo teve que sair por um bom tempo de sua boca. Resta-lhe apenas a campanha de desmoralização do ministro Alexandre de Moraes. Uma ofensiva que depende, cada vez mais, de caminhos políticos desesperados.

Foram duas grandes campanhas, a rigor. A primeira fracassou. Ao apostar na mobilização das ruas, com o aparato bilionário do PL à disposição, esperava comover a opinião pública e constranger as instituições, ao mesmo tempo em que mantinha a base social constantemente excitada (premissa básica do bolsonarismo). O que se viu foi um fiasco: além de correligionários pagos e figuras do entorno imediato do partido, restaram meia dúzia de alucinados com palavras de ordem conspiratórias.

A segunda campanha é mais ousada, mais perigosa, e está em curso. A família de preguiçosos decidiu apostar no tumulto diplomático, na esperança de atrair os holofotes globais e provocar uma comoção nacional. Prestando-se a ser fachada dos planos de Donald Trump, a família do ex-presidente tenta transformar a própria acusação no Supremo em um episódio geopolítico. Não hesita em colocar em risco bilhões de dólares da elite econômica nacional (e toda economia nacional presa a seus interesses), desde que consiga manter a trama do personagem perseguido.

A intenção é dupla: além de neutralizar moralmente a inevitável condenação, a ideia é manter os partidos do bolsonarismo sob controle, sobretudo PSD, Republicanos, Podemos e grande parte do MDB – o que podemos chamar de centrão bolsonarista. Mas nem isso tem surtido efeito. Fora os políticos de Santa Catarina e outros aqui e ali, o silêncio é de espera em consultório. Nem mesmo o governador Tarcísio se manifestou espontaneamente. O ingrato governador o fez tímida e rapidamente de longe, do alto de um conveniente problema médico. E isso porque, nos bastidores, todos foram pressionados a dar alguma mostra pública de lealdade: nas redes sociais, em manifestações de rua, seja lá como pudessem. Fora os comissionados, convidados dos comissionados e alucinados, a opinião segue morna.

A exceção segue sendo Santa Catarina, onde o bolsonarismo ainda surfa no delírio de uma superioridade local, agarrado a um discurso de guerra cultural que já começa a ficar batido para boa parte do eleitorado. Todos os políticos com pretensões em 2026 se apressaram em fazer seus posts no instagram.

Ao forçar Alexandre de Moraes a aplicar a lei, Bolsonaro tenta se colocar no papel de perseguido, como se fosse vítima de um Estado autoritário. O problema é que nem o The Economist, nem o NY Times estão comprando a ideia, muito menos a tarimbada burguesia brasileira. Uma das mais inteligentes, pragmáticas e escravocratas burguesias do mundo. Mas, ao usar sua última ficha nessa jogada desesperada, tocou onde não se toca: nos bilhões dos bilionários. E, aí, o jogo político costuma acabar rápido: dentro ou fora das quatro linhas.

André Luiz Pereira é professor de História e doutorando em História na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

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