As manobras dos Estados Unidos e de Israel para controlar Honduras

A revelação de 37 áudios de conversas recentes entre o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, e o atual chefe de Estado do país, Nasry Asfura, abala a política hondurenha devido ao conteúdo das gravações. Nos diálogos, eles discutem planos que incluiriam até mesmo eliminar opositores, além de estratégias para retirar a esquerda dos governos da Colômbia e do México.

Por Giorgio Trucchi.

No último dia 26 de novembro, poucos dias antes das eleições e em pleno período de silêncio eleitoral, uma primeira mensagem do presidente norte-americano Donald Trump no Truth abalou o delicado equilíbrio de um ambiente já de si incerto e tenso. Seguindo o mesmo roteiro usado com Javier Milei na Argentina, o governante ratificou o apoio de Washington ao ultraconservador Nasry “Tito” Asfura (Partido Nacional), ao mesmo tempo em que demonizou a candidata progressista Rixi Moncada (Partido Liberdade e Refundação – Libre) e ao outro membro do bipartidarismo tradicional, Salvador Nasralla (Partido Liberal).

«A democracia será posta à prova nas próximas eleições em Honduras. Será que Maduro e seus narcotraficantes conseguirão tomar o controle de outro país, como fizeram com Cuba, Nicarágua e Venezuela? O homem que defende a democracia e luta contra Maduro é Tito Asfura (…) e sua principal adversária é Rixi Moncada, que afirma ter Fidel Castro como ídolo (…) Os comunistas estão tentando enganar o povo com um terceiro candidato, Salvador Nasralla, que não é amigo da liberdade (…) Tito e eu podemos trabalhar juntos para combater os narcocomunistas e levar a ajuda necessária ao povo hondurenho”, escreveu Trump.

Em 28 de novembro, poucas horas antes da votação, o magnata aumentou a aposta com novas ameaças e um anúncio impactante: a concessão de indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por crimes relacionados ao tráfico de drogas. Especificamente, Hernández havia sido acusado e posteriormente condenado nos Estados Unidos por participar de “uma conspiração corrupta e violenta de tráfico de drogas para facilitar a importação de centenas de milhares de quilos de cocaína (cerca de 500 toneladas)”.

Na prática, ele utilizava policiais e militares para proteger os carregamentos enviados aos Estados Unidos, extraditava traficantes rivais e protegia seus cúmplices, entre eles o cartel de Sinaloa. Com os subornos que recebia, financiava campanhas políticas e eleitorais.

“Se Tito Asfura vencer as eleições presidenciais em Honduras (…) daremos todo o nosso apoio. Se ele não vencer, os Estados Unidos não desperdiçarão seu dinheiro, já que um líder inadequado só pode levar a resultados catastróficos (…) Além disso, concederei o perdão total ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, que, segundo muitas pessoas a quem aprecio profundamente, foi tratado de forma muito dura e injusta. Votem em Tito Asfura e parabéns a Juan Orlando Hernández pelo perdão”.

Interferência estrangeira, ameaças, fraude eleitoral e o uso massivo das redes sociais para aterrorizar a base eleitoral do Libre somaram-se à tentativa de redimir a imagem de Hernández, favorecendo seu retorno tanto físico quanto político, com a clara intenção de dar um novo impulso ao bipartidarismo hondurenho, garantindo assim os interesses da oligarquia nacional, do capital multinacional — em particular o mais próximo de Trump —, bem como as prioridades geopolíticas e geoestratégicas de Washington e não apenas dele.

Nas últimas horas, o site Diario Red publicou em exclusivo a notícia sobre o envolvimento político e econômico de Israel no perdão concedido por Trump a Hernández. O objetivo seria a construção de uma nova base militar norte-americana em Honduras, a aprovação de leis que impulsionem a participação de empresas norte-americanas e israelenses no desenvolvimento da inteligência artificial e a reativação do projeto das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDE), cujo marco estatutário foi revogado durante o governo progressista de Xiomara Castro por atentar contra a soberania nacional.

Várias gravações envolvendo políticos e funcionários públicos ligados ao Partido Nacional, atualmente no poder, foram divulgadas pelo site. Aparentemente, o próprio Asfura faria parte dessa estratégia corrupta e intervencionista, na qual o retorno do ex-presidente Hernández ao país assume uma relevância imprescindível.

«Hernández se tornaria o principal agente político de Donald Trump e do lobby israelense na região, encarregado de transformar Honduras em uma zona estratégica de operações militares, logísticas e econômicas para os Estados Unidos, replicando o modelo das bases de Palmerola e das ZEDES, mas com um poder ainda mais concentrado. Não se trataria apenas de uma restauração pessoal do poder, mas da transformação do território hondurenho em um enclave geopolítico fundamental para os interesses norte-americanos diante da China e de outras potências na América Latina”, alerta o Diario Red.

Nesse sentido, apresentar o ex-presidente como vítima de uma conspiração persecutória e exaltar o perdão como prova de sua inocência faz parte da estratégia da defesa e dos setores que promovem seu retorno ao país. Para preparar o terreno, além do perdão concedido por Trump, são necessárias medidas internas, entre elas o controle absoluto das instituições, eliminando qualquer presença do Libre, a revogação do mandado de prisão emitido contra Hernández por crimes de corrupção (caso Pandora II) e a marginalização da corrente interna do partido contrária ao seu retorno.

O abuso do “impeachment” por parte da maioria parlamentar bipartidária contra membros do Libre faz parte desse contexto. Além do procurador-geral Johel Zelaya, foram destituídos de seus cargos o magistrado do Tribunal de Justiça Eleitoral, Mario Morazán, seus suplentes Lourdes Mejía e Gabriel Gutiérrez, e o conselheiro eleitoral Marlon Ochoa.

A presidente da Suprema Corte de Justiça, Rebeca Raquel Obando, e a suplente de Ochoa, Karen Rodríguez, preferiram deixar o cargo antes de serem intimadas pela comissão parlamentar, composta pontualmente apenas por deputados dos dois partidos tradicionais. Ochoa e outros funcionários e servidores públicos que perderam seus empregos — fala-se em cerca de dez mil demissões — fugiram para o exílio.

Nas últimas semanas, os principais meios de comunicação controlados pela estrutura de poder nas mãos de grupos econômicos de caráter familiar deram grande destaque às declarações de Hernández e sua família sobre seu retorno como “homem inocente”. Mas não é exatamente assim, e vamos ver por quê.

Após o indulto concedido por Trump em dezembro de 2025, a defesa de Hernández havia retirado o recurso de apelação apresentado após a sentença de primeira instância de dois anos atrás. No último dia 8 de abril, o Tribunal de Apelação do Segundo Circuito de Nova York aceitou o pedido e ordenou que o tribunal distrital anulasse a sentença e que o juiz federal Kevin Castel arquivasse o caso “por falta de objeto (mootness)”. No entanto, especialistas na matéria explicam que o “indulto” se aplica porque houve uma condenação.

“Com o desaparecimento do objeto do julgamento e da condenação como efeito do perdão de Trump, o Tribunal não teve outra opção a não ser solicitar o arquivamento do processo; no entanto, trata-se de uma ficção jurídica. O perdão, de fato, é uma clemência que elimina a punição, a pena, mas não a verdade do ocorrido, nem o crime, nem a condição de criminoso da pessoa. Pelo contrário, aceitar o perdão é como reafirmar essa verdade da culpa. Ao retirar o recurso de apelação e aceitar o perdão, Hernández reconhece implicitamente ter cometido o crime”, explica à Pagine Esteri Omar Menjívar, advogado especialista em direito constitucional e direitos humanos.

Para o jurista hondurenho, a decisão de Trump é extremamente grave. “Temos uma realidade factual em que um ex-presidente foi julgado e condenado por um júri federal após uma investigação que durou anos. Depois, temos uma realidade virtual imposta por uma única pessoa que, por simpatia política e interesses políticos e econômicos, decide perdoá-lo. Os fatos, no entanto, dizem que Juan Orlando Hernández continua sendo um traficante de drogas condenado”.

Entrevistado pelo MS Now, Thomas Padden, ex-promotor e membro do grupo de trabalho contra as drogas e o crime organizado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (OCDETF, na sigla em inglês), recentemente dissolvido por Trump, mostra-se consternado com o ocorrido. “Em 47 anos de carreira, nunca tinha visto nada parecido. A libertação de Hernández mina a credibilidade do sistema judicial americano. Quando se liberta um traficante de drogas condenado, incentivam-se outros criminosos a prosseguir com suas atividades ilícitas. Esse é o resultado da impunidade”.

Uma decisão que também contrasta com a retórica trumpista da luta contra as drogas, que teve sua máxima expressão com a militarização do Caribe e do Pacífico Oriental, a destruição de mais de 50 lanchas, supostamente de traficantes, e a morte de mais de 80 pessoas, mas sobretudo com a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e consorte Cilia Flores.

A tese defendida pela ex-procuradora responsável por indultos do Departamento de Justiça dos EUA, Liz Oyer, é que há muito mais por trás do indulto concedido a Hernández e do sistema de concessão de indultos nos Estados Unidos. “Trump exerceu seu poder de clemência como nenhum outro presidente jamais fez, concedendo indultos e comutações de pena a uma longa lista de fraudadores, políticos corruptos e outros condenados por crimes graves que nunca expressaram publicamente seu arrependimento”, afirma ela ao MS Now.

Segundo Oyer, o dinheiro e a influência estão desempenhando um papel determinante no sistema de indultos sob o mandato de Donald Trump. “Ele praticamente criou um sistema de clemência do tipo ‘pague para ser atendido’, no qual pessoas que gravitam em sua órbita enriquecem aceitando pagamentos para exercer pressão e obter clemência para seus clientes. Trump está concedendo indultos a pessoas com quem mantém relações comerciais, obtendo enormes benefícios para si e para sua família. É uma verdadeira ‘economia da graça’ e é um sistema muito corrupto”.

No caso específico de Hernández, a recente reportagem exclusiva do Diario Red confirmaria a tese de uma autêntica estratégia corrupta israelo-estaunidense de vista às eleições hondurenhas de 2029. “Os áudios vazados revelam que o perdão foi negociado por meio de um intenso lobby liderado por Roger Stone e pela bancada republicana nos Estados Unidos, com o apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Segundo as conversas vazadas, o retorno do ex-presidente a Honduras, a operação logística e sua próxima candidatura à presidência seriam financiados integralmente por Israel”, alerta o site.

Conforme a publicação da The New Republic, no mesmo dia de sua segunda posse, Trump concedeu perdão a 1.500 pessoas acusadas ou condenadas pelo ataque ao Capitólio em 2021. Ao longo de seus dois mandatos, ele concedeu perdão a mais de 70 pessoas, entre aliados, doadores e indivíduos condenados por fraude. Mais da metade deles durante o primeiro ano de seu segundo mandato.

Para Menjívar, por trás do perdão concedido ao ex-presidente hondurenho haveria acordos muito concretos. “Eles sabem que Juan Orlando Hernández é uma peça-chave, um operador político capaz de garantir os interesses econômicos da oligarquia nacional e das multinacionais. O perdão não é gratuito. Há interesses em jogo e promessas feitas que devem ser respeitadas. Promessas que, no entanto, comprometem o país e sua soberania”.

*Jornalista italiano radicado na América Central desde 1998, é correspondente da Agência Rel UITA e colabora com diversos meios de comunicação internacionais. Em 2005 e 2009, recebeu o Prêmio de Jornalismo em Direitos Humanos, concedido pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) do Brasil. Em 2025, recebeu o prêmio “Mártires da Resistência – Lorenzo Zelaya”, instituído pela Presidência da República de Honduras.


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