Por Francisco Fernandes Ladeira.
Do ponto de vista histórico, o sionismo não só promoveu a limpeza étnica na Palestina – processo que visou à substituição da população local por judeus majoritariamente europeus –, mas também colocou em prática um memoricídio palestino. Desse modo, quando foi declarada a “independência” de Israel, em 1948, para que se criasse um sentimento de identidade nacional, foi promovido o apagamento sistemático da história milenar palestina e forjada uma ligação direta e ininterrupta entre os antigos israelitas e o atual Estado de Israel. Nada mais do que manipular o passado para fins políticos.
Entre os instrumentos desse memoricídio, destaca-se a arqueologia bíblica, que funciona como um verniz de cientificidade sobre as escrituras judaicas, legitimando, assim, a expropriação de terras palestinas. Em Israel, essa vertente arqueológica ganhou seu principal impulso após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando o Estado sionista ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
Para a narrativa sionista, a conquista da Cisjordânia, em particular, equiparava-se a um equivalente moderno da Batalha de Jericó – o momento em que os antigos israelitas, conforme o relato bíblico, conquistaram a “Terra Prometida” dos cananeus.
Dessa forma, tornou-se necessário comprovar, por meio da ciência, uma presença judaica ancestral naquela terra, que precedeu em séculos a presença árabe, frequentemente representada como “invasora”. Para confirmar essa versão da história, o governo israelense patrocinou a realização de inúmeras escavações arqueológicas no território da Cisjordânia ocupada, na busca por conectar o passado bíblico e antigo da região com o presente moderno de Israel.
No entanto, como alerta a pesquisadora Bianca Costi em seu canal no YouTube “ArqueoloBia”, muitos desses arqueólogos tinham intenções religiosas explícitas. Diversos deles, inclusive, eram rabinos que buscavam achados que corroborassem sua fé.
Entre os exemplos do uso político da arqueologia – tanto naquela época quanto nos dias atuais – estão a confiscação de sítios arqueológicos localizados em territórios ocupados, a demolição de infraestrutura palestina nessas regiões e até a destruição de sítios com o intuito de apagar vestígios de uma presença palestina mais antiga e reforçar uma suposta herança israelita.
Estima-se que, atualmente, cerca de 500 sítios arqueológicos palestinos estejam sob controle israelense. Muitos deles foram destruídos durante bombardeios do exército israelense ou para a construção do muro que separa Israel da Cisjordânia. Além disso, diversos diretores da Israel Antiquities Authority (IAA) – órgão governamental responsável pelo controle e gestão do patrimônio arqueológico israelense – têm formação militar, o que evidencia a estreita relação entre política, militarismo e arqueologia sionista.
De acordo com a Lei das Antiguidades, aprovada em 1978, qualquer escavação em Israel deve ser autorizada pela IAA, e todos os achados passam a pertencer ao Estado. “É uma prática profundamente colonial, uma tentativa de controlar também o passado e o patrimônio da região, afastando o povo palestino da possibilidade de ter voz ativa sobre a história daquela terra […] Isso contribui para o apagamento da presença palestina e até para a destruição de sua cultura material, reforçando uma suposta continuidade entre os reinos judaicos antigos e o Estado de Israel atual”, adverte Bianca Costi.
Recentemente, também foi instituída uma lei que concede ao Estado o controle sobre áreas com potencial arqueológico, o que facilita ainda mais a expropriação de terras palestinas, uma vez que qualquer área pode ser desapropriada para escavações.
Conforme destacado por Tufy Kairuz em texto fundamentado em referencial bibliográfico contundente, mesmo após escavações arqueológicas intensivas na Palestina, não foram encontradas evidências materiais ou inscrições que corroborassem as narrativas bíblicas sobre a história hebraica, israelense ou judaica.
Autores renomados como Israel Finkelstein, Thomas L. Thompson e Keith Whitelam argumentam que a Torá e o Antigo Testamento foram redigidos séculos após os eventos que alegam descrever, assumindo um caráter mais legendário do que estritamente histórico. Consequentemente, as reivindicações sionistas que postulam um vínculo histórico exclusivo com a Palestina carecem de respaldo arqueológico e histórico.
Em síntese, o Estado de Israel, à semelhança de outros projetos coloniais, sustenta sua legitimidade não em base factual ou ética, mas primordialmente pelo poder das armas.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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