A pulsão da morte ao poder: psicologia do fascismo em tempos de guerra

Às vésperas de uma possível Terceira Guerra Mundial, o colapso da ordem liberal se mistura ao avanço da extrema-direita, ao saque das riquezas latino-americanas e à manipulação do medo coletivo. Por que milhões votam contra seus próprios interesses? Este texto investiga como trauma, desejo e guerra se tornam armas políticas na disputa pela hegemonia global.

Por Jean Flores Quintana.

Estamos na véspera de uma Terceira Guerra Mundial. O choque imperial, o rearmamento global e o massacre televisionado marcam o colapso da ordem liberal. O Irã, a Ucrânia e a Venezuela formam as frentes interligadas de uma mesma disputa pela hegemonia. A extrema-direita avança capitalizando o terror. Milhões de pessoas, atingidas pela precariedade, votam contra seus próprios interesses materiais. Para entender esse suicídio, é preciso ir à raiz: abordar a batalha pelo desejo e pelo medo.

O trauma como arma política

Para Lacan, encontrar o “Real” é um trauma insuportável, capaz de quebrar a rotina. A guerra, a miséria planejada e o colapso ecológico funcionam dessa forma. Deixam a maioria das pessoas à mercê das intempéries. Diante do pânico do abismo, as sociedades buscam um “Mestre”, um líder disposto a suturar a ferida com promessas de ordem, mesmo que sejam delirantes. Enrique Pichon-Rivière percebeu essa dinâmica há décadas. As crises despertam o pânico pela perda e por um ambiente hostil. A máquina reacionária explora essa vulnerabilidade.

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Essas lideranças operam como um escudo psicológico diante de um capitalismo dedicado a destruir o vínculo comunitário. O fascismo oferece às massas uma satisfação destrutiva e obscura. Promete certezas absolutas e culpados sob medida. O migrante, a feminista ou o dissidente carregam o estigma para aliviar a tensão de uma sociedade frustrada.

Soberania, saque e lawfare

A Europa bate os tambores da guerra; a América Latina paga a conta. O Norte Global financia sua militarização e transição verde despojando nossos bens comuns. As elites cipaias administram este novo ciclo extrativista. Daniel Noboa entrega o território equatoriano às operações americanas sob a desculpa do narcoterrorismo. Javier Milei destrói a neutralidade histórica da Argentina para subordiná-la ao eixo Washington-Tel Aviv. A vassalagem de Kast a Trump consolida a ofensiva imperial para bloquear o cabo submarino chinês por meio de sanções à nossa soberania.

A guerra, a miséria planejada e o colapso ecológico funcionam dessa forma. Deixam a maioria da população à mercê das intempéries. Diante do pânico do abismo, as sociedades buscam um “Mestre”, um líder disposto a suturar a ferida com promessas de ordem, mesmo que sejam delirantes.

Diante dessa capitulação continental, é urgente resgatar a coragem do projeto de Salvador Allende e o legado da década de ouro latino-americana. Equador, Brasil, Argentina, Bolívia e Venezuela demonstraram a viabilidade material de exercer controle real sobre a riqueza nacional para tirar milhões da miséria. A resposta de Washington foi brutal. Desencadeou ataques ferozes para desestabilizar esses governos populares. Os golpes institucionais em Honduras e no Paraguai inauguraram essa contraofensiva. O lawfare opera hoje como a arma estratégica perfeita para proscrever, difamar e encarcerar as lideranças regionais. As oligarquias locais executam essa vingança com precisão midiática e judicial, perseguindo um único objetivo: restaurar o modelo de dominação.

A cegueira tecnocrática e a batalha digital

Esse golpe deixou cicatrizes profundas. A esquerda institucional pede perdão por existir e se submete a exames de legitimidade da direita. Em seu ensaio A estrutura psicológica do fascismo (1933), Georges Bataille diagnosticou a raiz dessa derrota. O progressismo habita a “sociedade homogênea”, preso na burocracia do cálculo e da gestão da miséria. Renuncia a disputar o desejo coletivo e oferece gráficos estatísticos diante do sofrimento popular. O fascismo compreende uma verdade mais profunda: a política exige mito e paixão. Captura a “força heterogênea”, essa torrente de pulsões viscerais, violência e afetos transbordantes. A extrema-direita atualiza esse quadro teórico, mobiliza a raiva crua do endividado e canaliza a frustração para o ódio por meio do choque audiovisual. Transformam a angústia em combustível.

A Europa bate os tambores da guerra; a América Latina paga a conta. O Norte Global financia sua militarização e transição verde, despojando nossos bens comuns.

A imprensa corporativa banaliza o perigo, tratando o neofascismo como mera excentricidade, repetindo o erro dos anos 30. Enquanto isso, os conservadores aplicam o manual de Bataille no ecossistema digital: fascinam as massas aterrorizadas por meio do excesso e da crueldade. A administração tecnocrática da crise garante a derrota diante de uma máquina especialista em explorar o ódio. Como alerta Jorge Alemán, o sistema produz nossa subjetividade e nos condena a uma solidão radical. Vencer exige abandonar a frieza estatística. Devemos arrebatar a hegemonia comunicacional e construir meios populares capazes de propagar um novo senso comum carregado de vitalidade emancipadora.

Geopolítica e desejo: o horizonte da Grande Pátria

O resgate do nosso horizonte exige uma atualização estratégica diante do capitalismo de plataformas. A classe trabalhadora sofre hoje com o “confinamento digital”. Após jornadas exaustivas, a via de escape é o deslizar infinito na tela. O algoritmo isola cada pessoa em uma bolha de consumo, indignação pré-fabricada ou vidas inalcançáveis. Essa hiperconectividade fragmenta a comunidade, anula a organização e facilita a extorsão da dívida. Diante da crueldade desse modelo, levantamos a alegria transbordante de nossas lutas e a dignidade inabalável da resistência.

A geopolítica do século XXI impõe quebrar a matriz extrativista. Recuperar o domínio sobre o petróleo, o gás, o lítio andino, a água doce e nossos dados digitais garante a sobrevivência da região. Essa base financiará Estados robustos, capazes de garantir direitos: moradia, saúde e tempo livre. Transformar a indignação cidadã em certezas erradicará a tortura do rendimento constante, a precarização e a autoexploração cotidiana. Essa segurança vital mobilizará novamente o desejo popular. Diante da pulsão de morte do fascismo, opomos a pulsão de vida de uma classe trabalhadora organizada. Transformaremos a força popular em um escudo inquebrantável para recuperar nossa soberania e forjar a emancipação definitiva da Grande Pátria Americana.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.

Jean Flores Quintana é politólogo. Analista da conjuntura política e geopolítica latino-americana, seu trabalho se caracteriza por desafiar o cerco midiático hegemônico. É uma voz ativa na defesa de uma comunicação contrahegemônica e comprometida com as transformações sociais.


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