Educação ou Repressão? O Futuro e a Luta por Escolas Democráticas
Por Emi Pandolfo – Portal Desacato
Nesta sexta-feira, 11/07/2025, a movimentação de alunos, docentes e do SINTE trouxe à tona uma problemática que vem ocorrendo com pouca visibilidade.
No ano passado, em 2024, esta jornalista que vos escreve passou em frente à escola e avistou duas viaturas policiais bloqueando o acesso à entrada. Movida pela curiosidade, estacionei o carro e me aproximei de um dos policiais, que balançava o braço, orientando os motoristas a desviarem — como fez comigo. Ao me aproximar, vi um caminhão estacionado em frente à escola, onde policiais fardados descarregavam inúmeras caixas.
Estranhei o bloqueio total da rua, já que o caminhão ocupava apenas o estacionamento e não havia motivo para interromper o trânsito. Perguntei ao policial próximo a mim — com o tom simpático de uma pessoa apenas curiosa — o que estava acontecendo. Ele respondeu que estavam descarregando materiais para a “nova escola militar”. Questionei como funcionaria essa “nova” escola, e ele explicou que, em 2025, as turmas do 6º ano se tornariam militares, e nos anos seguintes, o processo se estenderia progressivamente até toda a escola ser militarizada. Quando mencionei que era jornalista e gostaria de entender melhor, sua expressão mudou abruptamente: o semblante aberto deu lugar a um fechamento total. “Não posso falar nada”, disse. Agradeci e me retirei.
Hoje, não havia viaturas impedindo a passagem naquela rua. Em vez disso, um movimento bonito e corajoso de alunos e alunas tomava conta do local, com faixas que traziam frases como: “Fechar a Escola é Abrir Espaço para a Ignorância”, “#ZITTANÃOPODEFECHAR”, “Diga Não ao Fechamento da Zitta”, “Zitta Flach, Escola Integral”, entre outras. A cena me encheu de um misto de admiração e pavor.

Cleber Ceccon, do SINTE de Chapecó, segurava um microfone quando cheguei. Ele falava sobre um abaixo-assinado que carregava nas mãos, afirmando que o sindicato levaria o documento às instâncias deliberativas do SINTE, além de encaminhar um ofício à Secretaria de Educação de Chapecó e ao Governo de SC, exigindo que a escola permanecesse regular. “Não nos importamos que a escola militar continue no espaço da Zitta até que tenha seu próprio prédio. Este espaço não pertence a nenhuma secretaria, exceto à Educação. Há uma parceria com a segurança pública, mas a escola ainda é da secretaria”, explicou Cleber.
Aquela conversa com o policial em 2024, fruto de curiosidade — mas também da consciência sobre os problemas da militarização escolar —, ficou guardada até hoje, até ver crianças preocupadas em perder suas vagas na escola onde já criaram laços com professores e colegas. Cleber me contou que, ainda em 2024, docentes efetivos foram pressionados a pedir remoção para outras escolas, resultando na permanência de apenas dois professores. Esses dois ainda mantêm a esperança de que a escola não seja totalmente militarizada.
O Portal Desacato tem denunciado constantemente abusos contra professores e professoras. Recentemente, falamos sobre a EEB de Muquem, em Florianópolis, que querem transformar em escola cívico-militar. Um dia após a entrevista com Juliana Andozio e o professor Pedro, um defensor da militarização agrediu fisicamente um docente da escola, gritando: “Queria dar um tiro na sua cara!” Em entrevista, o professor Andrei, vítima da agressão, contou que seus alunos imploram por seu retorno — mas ele não consegue voltar. Está traumatizado e com medo do que ainda possa acontecer.
Pensando nos alunos do Professor Andrei que quero focar nos alunos e alunas dessas escolas em risco de militarização. Nessas crianças e adolescentes que encontram na escola conforto, acolhimento, aprendizado e convivência com a diversidade.
“Diversidade” — essa palavra seria aceita na cultura militar? Como poderia, se nela todos devem seguir à risca as regras de vestimenta e comportamento ditadas por uma hierarquia rígida?
“Medo” — sim, o medo me invadiu ao ver meninos e meninas que podem perder sua escola para outros jovens que não terão a liberdade de ser quem são, caso não se encaixem no padrão militar. Meninas que correm risco real de assédio por homens de farda, como denunciam estudantes da EEB Professora Irene Stonoga, escola cívico-militar em Chapecó.
O que está em jogo na militarização da EEB Professora Zitta Flach — e de tantas outras escolas pelo país — não é apenas uma mudança administrativa, mas um profundo conflito de valores. A escola pública, em sua essência, deveria ser um espaço de formação crítica, de convívio com a diversidade e de construção coletiva do conhecimento. Transformá-la em um ambiente militarizado significa substituir a pedagogia pelo disciplinamento, a liberdade pelo controle, a pluralidade pela uniformidade.
As vozes dos alunos que protestam, dos professores resistentes e dos sindicalistas que lutam pela manutenção da escola regular não são meros obstáculos a um projeto político — são a defesa de um direito fundamental. A educação não pode ser tratada como um experimento de hierarquia e repressão, onde estudantes são treinados para obedecer, e não para pensar.
E quando crianças e adolescentes erguem faixas com medo de perder seu espaço de acolhimento, precisamos ouvi-los. Quando professores são ameaçados e agredidos por defenderem uma educação democrática, precisamos vê-los. Quando denúncias de assédio e opressão surgem em escolas militarizadas, precisamos confrontá-las.
A pergunta que fica é: que sociedade queremos construir? Uma que forma cidadãos questionadores, capazes de transformar realidades, ou uma que produz soldados para a manutenção de um status quo excludente? A resposta está nas ruas, nas salas de aula, e, sobretudo, na coragem de quem ainda acredita que a educação deve libertar — nunca submeter.
Matéria escrita por Emi Pandolfo em 11/07/2025.
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