Por que nenhum país se desenvolve sem um setor industrial forte

Por José Álvaro Cardoso.

 O desenvolvimento econômico está longe de ser uma consequência natural de uma política econômica “correta”. Os países que conseguiram se desenvolver o fizeram por ter encarado a luta pela soberania nacional e pelo desenvolvimento. Desenvolvimento é fundamental para a soberania, e esta é um quase uma pré-condição do desenvolvimento, como estamos testemunhando inclusive, pela guerra EUA X Irã. Além disso, os países precisam aproveitar também, de forma estratégica, as oportunidades que se apresentam a cada conjuntura mundial específica.

No contexto global atual, que apresenta vários focos de guerras – todos provocados e mantidos pelo imperialismo – o Brasil encontra-se em uma posição estratégica, com as importantes reservas de petróleo e uma das maiores produções de biocombustíveis, o que posiciona o país na condição de importante ator no mercado energético global. Além disso, o país se destaca pela posição de segundo maior exportador de alimentos do mundo (mordendo os calcanhares do primeiro lugar, os EUA), com uma extensa área de terra disponível para a agricultura, tecnologia avançada e condições naturais favoráveis, combinação que pouquíssimos países têm no mundo. Essa posição privilegiada permite ao Brasil atender à crescente demanda global por alimentos, consolidando sua posição como um dos principais fornecedores internacionais.

No entanto, como revela a história, poucos países conseguem proporcionar uma vida melhor para os seus povos, sem desenvolver o setor industrial e o setor de serviços mais elaborados, que vem colado à indústria. São serviços de média-alta complexidade técnica que dependem de conhecimento especializado e que atuam como extensão da cadeia produtiva — sem eles, a indústria para ou perde competitividade. Eles diferem dos serviços básicos (limpeza predial, vigilância) por exigirem capacitação técnica específica e estarem integrados ao processo produtivo

Ao longo das últimas décadas a produtividade na agricultura cresceu mais do que em muitos setores da indústria. Um agricultor pode produzir hoje o que 10 ou 15 produziam há 70 ou 80 anos. O paradoxo é que a agricultura mais eficiente do mundo é incapaz de sobreviver sem subsídios e proteção. Cada vaca na Europa é financiada com um montante 4 ou 5 vezes superior à renda per capita de muitos países da África. O fato é que nenhum país do mundo pode elevar significativamente a renda per capita, se não dispuser de um setor industrial e um setor de serviços mais complexos.  Os países subdesenvolvidos nunca se desenvolverão exportando alimentos e matéria primas para os países ricos.

As atividades exportadoras positivas são aquelas ligadas a indústria manufatureira. As atividades exportadoras ruins decorrem de um tipo de produção que acontece quando a agricultura e a indústria extrativa são deixadas ao sabor da lógica do mercado. As atividades exportadoras positivas têm características como: rendimentos crescentes, preços mais estáveis, melhoram a vida dos trabalhadores, tem salários inflexíveis, as mudanças técnicas levam a maiores salários e geram grandes sinergias entre os segmentos da economia. As atividades exportadoras ruins, ao contrário, apresentam rendimentos decrescentes, preços flutuantes, trabalho geralmente não qualificado, criam estruturas de classes “feudais”, tem salários flexíveis (geralmente para baixo), e criam poucas sinergias entre os setores da economia.

Logo após a Segunda Guerra, os EUA montaram um plano para desindustrializar a Alemanha, que foi o principal país que provocou a Segunda Guerra Mundial (claro, não foi o único). Para punir a Alemanha, que supostamente havia provocado a conflagração sozinha, os países imperialistas que saíram vencedores da guerra definiram que ela iria se tornar um Estado agrário. De 1946 a 1947 foi colocado em prática o plano Morgenthau (Henry Morgenthau Jr, secretário do tesouro dos EUA entre 1934 e 1945), autor do plano. A partir de maio de 1945 (quando a Alemanha se rendeu), os equipamentos industriais foram retirados do país ou destruídos e as minas de extração mineral foram submersas em água e concreto.

Em 1947, apenas dois anos depois, os EUA já tinham percebido que a desindustrialização havia provocado rápido declínio da produtividade agrícola. Os conhecidos mecanismos de sinergia entre indústria e agricultura, funcionaram, nesse caso, pela via contrária: na medida em que se destruía a indústria, caia também a produtividade da agricultura. Esse é um dado muito interessante. Segundo declarações do próprio Henry Morgenthau, a tentativa de transformar a Alemanha em um Estado agrário poderia exterminar 25 milhões de alemães (mais da metade da população da época).

A produção de matérias-primas e de bens manufaturados obedece a diferentes lógicas econômicas, razão pela qual os países que produzem matérias primas também necessitam de um setor industrial desenvolvido.  Também por essa razão o neoliberalismo e a globalização foram tão destrutivos, especialmente para os países subdesenvolvidos e muito especialmente para os pequenos e pobres.

É fácil verificar a sinergia entre agricultura e a indústria, através de um dado muito direto. Os 5 maiores produtores agrícolas do mundo (segundo os dados da FAO, pela ordem: China, Índia, EUA, Brasil e Indonésia), além de produzirem muitos alimentos, têm também em comum a utilização cada vez maior, de tecnologias, visando aumentar a produtividade agrícola. Com a tecnologia, esses países ampliam a produção de alimentos, sem precisar expandir, na mesma proporção, a área cultivada.

Na China, que encabeça o ranking, a agricultura já é em boa parte, digital. A produtividade avançou muito com a modernização da cadeia de distribuição e a cadeia agroindustrial. A mecanização do setor agrícola no país já superou os 80%. Uma nova geração de máquinas vem sendo desenvolvida e testada: as máquinas autônomas, que não tem condutor, recebem suas coordenadas via GPS.  Os drones também têm destaque na agricultura chinesa: com sistemas de Inteligência Artificial e sensoriamento remoto, aplicam defensivos de forma precisa e mais barata.

Nos EUA, o setor agrícola, apesar de ser o terceiro volume de produção do mundo (atrás da China e Índia), emprega em torno de 2,2 milhões de pessoas, um milhão de pessoas, o que é ínfimo, já que a força de trabalho norte-americana deve estar em torno de 170 milhões de trabalhadores (para uma população de 332 milhões). Atualmente cerca de 95% dos agricultores norte-americanos usam alguma tecnologia de agricultura de precisão e mais de 30% investem significativamente nessa área. A agricultura brasileira, que é a quarta do mundo em volume, não fica devendo muito nessa área, usando também muita tecnologia. A produção nacional gera alimentos para cerca de 10% da população do mundo, com exportações agrícolas recorde de US$ 169,2 bilhões em 2025. Entre os maiores produtores, o potencial de expansão da área plantada do Brasil, é um caso único.

O uso de tecnologia tem sido estratégico para os países garantirem a oferta de alimentos à população. Por isso a existência de um setor industrial forte é o que caracteriza os países que possuem agricultura forte.  Do ponto de vista técnico, quanto menor o peso da agricultura como percentual do PIB, menores são as probabilidades de crises de fome.

Segundo dados do Banco Mundial, do PNUD (ONU) e do governo chinês, a China tirou aproximadamente 800 milhões de pessoas da extrema pobreza desde o final da década de 1970 — o maior movimento de redução da pobreza da história. Tal conquista foi concretizada através de uma série de medidas. Uma delas foi justamente se converter na “fábrica do mundo”, expressão criada pela imprensa e pela academia internacionais. Converter-se em “fábrica do mundo” possibilitou à China que se tornasse também um grande “celeiro”. Não do mundo, já que a China é de longe o maior importador de alimentos, comprando volumes enormes de soja (principalmente do Brasil e EUA), milho, carne suína, carne bovina, trigo, leite e frutas.

 O grosso da produção agrícola chinesa é consumido pela própria população, que equivale a mais de 18% da população da Terra. O consumo interno do país supera a capacidade de produção em várias culturas. Além disso, os chineses consomem cada vez mais proteína animal (carne, leite), o que exige imensa quantidade de grãos para ração. Nesse contexto, o governo chinês prioriza a segurança alimentar doméstica – o que sobra para exportar é residual. A estratégia é exportar manufatura, de alto valor agregado, não comida.

A UNIDO (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (United Nations Industrial Development Organization), agência especializada do sistema da ONU, divulgou recentemente o panorama da indústria mundial, atualizando sua base de dados sobre o valor adicionado no setor até o ano de 2025. Com base no International Yearbook of Industrial Statistics 2025 da UNIDO, o ranking dos maiores parques manufatureiros do mundo em valor adicionado, em 2024, era:

  1. China — 32,0% da manufatura mundial
  2. Estados Unidos — 15,0%
  3. Japão — 6,3%
  4. Alemanha — 4,6%
  5. Índia — 3,3%
  6. Coreia do Sul — 3,3%
  7. Itália — 1,8%
  8. Reino Unido — 1,8%
  9. França — 1,7%
  10. México — 1,7%

O ranking traz informações que ajudam a entender por que a China foi levada à condição de inimigo mortal do Império Americano, há algumas décadas. Há vinte anos, em 2005, nesse ranking a potência asiática aparecia com 13,2%, em 2º lugar e os EUA, 1º no ranking, participava com 22,6% no total. Já em 2025, a participação da China em valor adicionado, de 32%, era equivalente aos 5 países seguintes no ranking: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Índia e Coréia do Sul.

José Álvaro Cardoso é membro do DIEESE/SC, economista, escritor e apresentador da coluna Análise da Economia, no JTT do Portal Desacato.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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