Por Roberto Liebgott, Cimi Sul-Equipe POA, e Ivan Cesar Cima, Cimi Sul-Equipe Norte RS.
Começamos dizendo que o futebol não é o problema. Nunca foi.
O problema é quando o futebol deixa de ser expressão da cultura popular para tornar-se mercadoria, espetáculo permanente e instrumento de distração coletiva. O problema é quando a indústria do entretenimento sequestra a atenção das sociedades, transformando a dor de milhões em notícia secundária e o espetáculo em assunto absoluto.
Enquanto as guerras prosseguem sem descanso, ceifando vidas palestinas e iranianas, destruindo cidades, hospitais, escolas e sonhos, as manchetes dedicam horas intermináveis às análises sobre esquemas táticos, negociações milionárias, à ascensão e à queda de jogadores e aos negócios que movimentam o futebol global.
As plataformas de apostas – as bets -, com seus mercadores, os tais influencers, invadem televisões, rádios, celulares e redes sociais. Apropriam-se da paixão popular para alimentar um mercado bilionário que lucra com a esperança dos pobres. Vendem a ilusão do enriquecimento fácil justamente para aqueles que o próprio sistema condena à exclusão, ao desemprego e à insegurança. A aposta transforma-se em política de sobrevivência para quem foi privado do direito a uma vida digna.
Na Venezuela, os recentes terremotos deixaram milhares de mortos, feridos e desaparecidos. Famílias continuam procurando seus parentes entre os escombros, tentando reconstruir a vida em meio à devastação. Ainda assim, essa tragédia disputa espaço com intermináveis debates sobre Neymar, Messi, Mbappé e tantos outros protagonistas de uma indústria que movimenta cifras inimagináveis, enquanto o sofrimento humano desaparece das manchetes.
Vivemos um dos períodos mais violentos desde a Segunda Guerra Mundial. O avanço do autoritarismo, a expansão de projetos de inspiração nazifascista, o fortalecimento de governos de extrema direita e a naturalização da guerra revelam um mundo em que a vida perdeu valor diante dos interesses econômicos, militares e geopolíticos. Multiplicam-se os massacres no Irã e na Palestina, onde crianças são soterradas, onde a fome se impõe como arma de guerra e onde a destruição alcança níveis indescritíveis. Do outro lado, perduram a indiferença e o silêncio, convertidos em método de governo e estratégia de comunicação.
Também a Terra dá sinais de exaustão. O clima responde com secas, enchentes, incêndios e tempestades cada vez mais intensos. A natureza parece gritar aquilo que muitos insistem em não ouvir: não haverá futuro possível quando o lucro se converte na única medida das decisões humanas.
A mídia corporativa, subordinada aos interesses do mercado, participa dessa engrenagem ao selecionar aquilo que merece visibilidade e ao silenciar as tragédias, ou lhes reservar um espaço cada vez menor. Em contrapartida, amplia o espetáculo, alimenta o consumo, promove as apostas e transforma o futebol em um produto capaz de ocupar quase todos os espaços da vida cotidiana.
Não se trata de condenar o esporte. O futebol continua sendo dos povos, lugar de encontro, memória e alegria. O que precisa ser denunciado é sua captura pelos grandes interesses econômicos, pelos cartéis das jogatinas, e que fazem do entretenimento uma cortina permanente para ocultar guerras, genocídios, injustiças sociais e a devastação do planeta.
Quando a bola ocupa quase todos os meios de informação, a humanidade corre o risco de deixar de enxergar o sangue que escorre fora dos estádios.
As perguntas permanecem, urgentes e incômodas:
Até quando aceitaremos que o espetáculo do engodo valha mais do que a vida? Até quando a consciência coletiva permanecerá prisioneira da indústria da jogatina, enquanto povos inteiros seguem morrendo sob bombas, fome, abandono e silêncio?
11 de julho de 2026.
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