Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.A história política brasileira é marcada por sucessivas tentativas de ruptura da ordem democrática sempre que as elites econômicas e políticas não aceitam o resultado das urnas. Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu após as eleições presidenciais de 1955, quando a União Democrática Nacional (UDN), liderada pelo jornalista e deputado Carlos Lacerda, articulou uma conspiração para impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e do vice-presidente João Goulart.
Realizada em 3 de outubro de 1955, a eleição consagrou Juscelino Kubitschek como o candidato mais votado. Inconformada com a derrota, a UDN passou a defender que JK não poderia assumir a Presidência por não ter obtido maioria absoluta dos votos. A alegação era falsa do ponto de vista constitucional. A Constituição de 1946 determinava que seria eleito o candidato que obtivesse a maioria simples dos votos válidos, exatamente como ocorreu.
Carlos Lacerda transformou sua influência na imprensa em uma poderosa ferramenta de desestabilização política. Por meio de discursos, artigos e pronunciamentos, estimulou a contestação do resultado eleitoral e buscou mobilizar setores militares e empresariais favoráveis à ruptura institucional. A campanha udenista revelava que o compromisso de parte das elites brasileiras com a democracia terminava quando o resultado das eleições contrariava seus interesses políticos.
A conspiração somente foi derrotada graças à atuação do ministro da Guerra, marechal Henrique Teixeira Lott, que, em 11 de novembro de 1955, liderou um movimento militar em defesa da Constituição e da legalidade. Na historiografia, o episódio é conhecido principalmente como Movimento de 11 de Novembro de 1955 ou Golpe Preventivo de Lott, embora também apareça em parte da literatura como Novembrada de 1955. A ação neutralizou os conspiradores e garantiu a posse de Juscelino Kubitschek em 31 de janeiro de 1956.
A Novembrada demonstrou que a legalidade constitucional precisou ser defendida até mesmo pelas armas diante da conspiração promovida por setores civis e militares. Sem a ação de Lott, a vontade popular expressa nas urnas poderia ter sido anulada por interesses políticos que recusavam as regras do regime democrático.
A tentativa de impedir a posse de JK não foi um episódio isolado. Ela integra uma longa tradição de conspirações contra governos legitimamente eleitos, tradição que culminaria no golpe empresarial-militar de 1964. Em diferentes momentos da história brasileira, parcelas das elites econômicas, da grande imprensa e da UDN recorreram ao golpismo como alternativa quando fracassavam no terreno eleitoral.
A trajetória de perseguições contra Juscelino Kubitschek, contudo, não terminou com sua posse. Após o golpe empresarial-militar de 1964, JK teve seus direitos políticos cassados, foi perseguido pelo regime e passou a ser monitorado pelos órgãos de repressão.
Nos anos seguintes, tornou-se uma das principais lideranças civis favoráveis à redemocratização, integrando, ao lado de João Goulart e Carlos Lacerda, a Frente Ampla, movimento posteriormente proibido pela ditadura.
Durante décadas, a versão oficial sustentou que Juscelino morreu em um acidente automobilístico ocorrido em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra. Entretanto, novas pesquisas, perícias e a reavaliação de documentos históricos levaram à reabertura do caso. Em 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aprovou relatório elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão concluindo que Juscelino Kubitschek foi assassinado por ação da ditadura militar brasileira, reconhecendo-o oficialmente como vítima da perseguição política do Estado.
O relatório identificou inconsistências nas investigações anteriores, reuniu indícios de fraude na apuração oficial e recomendou a retificação da certidão de óbito do ex-presidente. Essa conclusão representa uma importante revisão historiográfica e institucional sobre um dos episódios mais controversos da história republicana brasileira.
A trajetória de Juscelino Kubitschek simboliza as dificuldades enfrentadas pela democracia brasileira diante da ação permanente de forças comprometidas com soluções autoritárias. Em 1955, tentaram impedir sua posse; duas décadas depois, segundo a mais recente conclusão da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ele foi vítima da violência política praticada pela ditadura militar. Esses acontecimentos revelam a continuidade histórica de práticas golpistas que marcaram a vida política nacional.
Para o movimento sindical, recordar a conspiração de 1955 significa compreender que a democracia é uma conquista permanente dos trabalhadores e da sociedade. Não há liberdade sindical, negociação coletiva efetiva ou ampliação de direitos sociais sem respeito ao Estado Democrático de Direito. Sempre que a democracia foi rompida no Brasil, os primeiros a sofrer foram os trabalhadores, os sindicatos, os movimentos populares e todos aqueles que lutavam por justiça social.
Mais de sete décadas depois, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek permanece como um importante alerta: a defesa da democracia exige vigilância constante. A Novembrada de 1955 demonstra que a Constituição e a soberania popular somente prevalecem quando há firme disposição para enfrentar projetos autoritários, independentemente de sua origem.
Sugestão de leitura
– Boris Fausto – História do Brasil.
– Maria Victoria de Mesquita Benevides – A UDN e o Udenismo: Ambiguidades do Liberalismo Brasileiro.
– Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (orgs.) – O Brasil Republicano – Volume 3.
– Thomas Skidmore – Brasil: de Getúlio a Castelo.
– Marcos Aurélio Gomes Ribeiro – 1964, A Conspiração Silenciosa.
Dicas de filmes e documentários:
A Conspiração Condor (Filme, 2026): Dirigido por André Sturm, o thriller político gira em torno das suspeitas de conspiração e das mortes de ex-presidentes e traz o jornalista/apresentador Pedro Bial interpretando Carlos Lacerda na maturidade.
Getúlio (Filme, 2014): Focado nos dias finais de Getúlio Vargas, o longa retrata o acirrado embate entre o presidente e seu maior opositor, Carlos Lacerda, após o famoso atentado da Rua Toneleiro.
Agosto (Minissérie, 1993): Baseada no livro homônimo de Rubem Fonseca, a minissérie de ficção retrata com fidelidade o conturbado cenário político de agosto de 1954, momento que abriu portas para as crises de 1955.
Lacerda, o Corvo da Guanabara (Documentário Curta, 2018): Aborda a trajetória política de Carlos Lacerda, explorando suas articulações e seu envolvimento nos bastidores de golpes e conspirações na história do Brasil.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro é professor de História Contemporânea do Brasil e pesquisador do movimento sindical e operário brasileiro.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





