Por Onwubiko Agozino.
Cem anos após o nascimento de Frantz Fanon, Malcolm X e Patrice Lumumba, vale lembrar que todos eles foram defensores da filosofia africana da não violência. Em Os Condenados da Terra, Fanon utiliza a dramaturgia de Aimé Césaire para demonstrar o papel da literatura revolucionária por meio do diálogo entre a guitarra e a kora, simbolizando o encontro entre instrumentos modernos e tradicionais na cultura nacional. Ele afirma:
“Surge uma literatura de combate, uma literatura revolucionária, uma literatura nacional. Nessa fase, muitos homens e mulheres que jamais haviam pensado em escrever, encontrando-se agora em circunstâncias excepcionais — na prisão, na resistência ou às vésperas da execução — sentem a necessidade de proclamar sua nação, retratar seu povo e tornar-se porta-vozes de uma nova realidade em ação.” [1]
Frantz Fanon era psiquiatra e analisava a violência como um sintoma da doença mental, ao mesmo tempo em que compreendia a literatura revolucionária como um instrumento para despertar a consciência das massas. Malcolm X também defendia que as pessoas escolhessem a cédula eleitoral, e não a bala, por meio da participação em organizações civis como a NAACP. Patrice Lumumba, por sua vez, fez campanha contra os castigos corporais impostos pelo violento sistema de justiça criminal dos colonizadores no Congo Belga — aspecto ilustrado na capa do meu livro Counter-colonial criminology (Criminologia contracolonial).
Hoje, enquanto a União Africana clama pelo silenciamento das armas em todo o continente, insurgências continuam devastando a África, e políticos pertencentes à burguesia lumpem gastam centenas de milhões de dólares na compra de armamentos fornecidos por países imperialistas para matar outros africanos em proporções genocidas.
Defendo uma interpretação inovadora segundo a qual Lumumba, Fanon e Malcolm X eram todos adeptos da filosofia do Ubuntu, entendida como o caminho pan-africano para o desenvolvimento de uma democracia revolucionária no continente. Tanto Edwin Madunagu quanto Joe Slovo escreveram em defesa da estratégia de revoluções populares de caráter social-democrata, em vez de esperar pelo Armagedom das lutas armadas como único caminho possível. Sob a perspectiva dos intelectuais orgânicos, os livros são mais poderosos do que as bombas.
Lições pedagógicas
“Ao contrário do mito criado em torno de Malcolm, a violência não ocupava um lugar central em seu programa para construir uma política revolucionária no Ocidente (…). Malcolm não defendia a violência; ele rejeitava a não violência a partir de sua compreensão radical do mundo real.” [2]
Fanon, como psiquiatra, analisava a violência como sintoma de uma enfermidade social e prescrevia a literatura revolucionária como instrumento capaz de educar e mobilizar as massas camponesas. Seu objetivo era impedir que a “burguesia fantasma” assumisse o controle dos novos Estados nacionais e perpetuasse a exploração das populações.
Malcolm X defendia que as pessoas escolhessem o voto em vez da bala, participando de organizações civis como a NAACP e de instituições religiosas progressistas comprometidas com uma teologia da libertação.
É verdade que Malcolm criticava a NAACP — assim como W. E. B. Du Bois também o fez quando atuava como editor da organização —, mas isso não significava uma rejeição absoluta de seus métodos de organização comunitária.
Segundo Malcolm:
“Nosso evangelho é o nacionalismo negro. Não estamos tentando ameaçar a existência de nenhuma organização, mas difundindo o evangelho do nacionalismo negro. Onde houver uma igreja que pregue e pratique esse evangelho, juntem-se a ela. Se a NAACP estiver pregando e praticando o nacionalismo negro, juntem-se à NAACP. Se o CORE estiver fazendo o mesmo, juntem-se ao CORE. Participem de qualquer organização cujo compromisso seja a elevação do povo negro. E, se perceberem que ela está hesitando ou fazendo concessões, saiam dela, porque isso não é nacionalismo negro. Encontraremos outra.” [3]
Lumumba também combateu o uso dos castigos corporais impostos pelo sistema colonial de justiça e priorizou a reivindicação de reparações, em vez da retaliação.
Insistir hoje na luta armada como estratégia principal diante da realidade neocolonial africana significa, em grande medida, promover a morte de africanos pelas mãos de outros africanos, utilizando armas de destruição em massa fornecidas justamente pelos antigos colonizadores para facilitar a exploração das riquezas minerais do continente.
Quando publiquei essa interpretação — de que os três grandes ícones africanos praticaram formas de luta essencialmente não violentas — em um grupo de discussão sobre sociologia negra radical e em um fórum de debates africanos nos Estados Unidos, recebi uma oposição tão intensa que me convenceu de que essa tese merece ser investigada em um projeto de pesquisa mais amplo, possivelmente culminando em um livro.
Pouco depois, um estudante de pós-graduação de uma importante universidade pública estadunidense respondeu dizendo admirar profundamente os três líderes e que não conseguia aceitar minha “revisão” de suas ideias ao apresentá-los como defensores da não violência.
Segundo ele, minha interpretação só faria sentido “caso se excluísse a violência defensiva (autodefesa, derrubada do colonialismo e do sistema Jim Crow) da própria definição de violência”.
Em seguida, afirmou que Os Condenados da Terra, de Fanon, seria “um magistral chamado à eliminação física e mental do colonizador”.
Também sustentou que Malcolm X jamais teve objeções à autodefesa violenta — evocando sua célebre expressão “por quaisquer meios necessários” (by any means necessary).
Além disso, atribuiu a Lumumba a condição de membro fundador da FRELIMO — sem apresentar qualquer fonte para essa afirmação — descrevendo-a como uma organização dedicada à luta armada pela independência de Moçambique.
O estudante ainda lembrou que Malcolm afirmava ser a revolução negra a única que pretendia ser não violenta, enquanto as revoluções estadunidense, francesa e russa foram extremamente sangrentas.
Segundo ele, os protagonistas dessas revoluções são celebrados como heróis nacionais e internacionais.
Acrescentou ainda que Fanon, Malcolm e Lumumba defendiam que africanos na África e afrodescendentes nas Américas possuíam exatamente os mesmos direitos que os brancos.
Concluiu dizendo:
“Certamente altera profundamente o significado de suas contribuições afirmar que eles eram não violentos.”
Curiosamente, encerrou sua mensagem com a saudação:
“Paz”.
Outro companheiro, participante da série African Dialogue, citou Malcolm X a partir do discurso “Message to the Grassroots”, proferido em Detroit, em 1963, para sustentar que:
“Não há nada em nosso livro, o Alcorão, que nos ensine a sofrer pacificamente. Nossa religião nos ensina a sermos inteligentes. Sejam pacíficos, sejam educados, obedeçam à lei e respeitem todas as pessoas; mas, se alguém colocar as mãos em vocês, mandem-no para o cemitério. Essa é uma boa religião. É a velha religião de nossos pais e mães: olho por olho, dente por dente, cabeça por cabeça e vida por vida. Só um lobo, que pretende transformá-lo em sua presa, se incomoda com esse tipo de ensinamento.”
Entretanto, Malcolm X jamais matou ninguém — ao menos que se saiba — para vingar o linchamento de seu pai.
Não enlouqueceu ninguém em resposta ao sofrimento que levou sua mãe à internação psiquiátrica.
Não incendiou casas para retaliar o atentado contra sua própria residência.
Também não queimou igrejas em resposta aos cerca de cinquenta atentados a bomba contra templos negros entre 1947 e 1965, incluindo o assassinato de três meninas negras durante o atentado à Igreja Batista da Rua 16, em Birmingham, Alabama.
Ao contrário, Malcolm chegou a afirmar que amava um homem branco, fato que surpreendeu profundamente o historiador Manning Marable.[4]
Sob essa perspectiva, pode-se dizer que Malcolm evoluiu após sua peregrinação a Meca e suas viagens internacionais, passando a defender amizade e fraternidade entre pessoas de todas as cores e povos — negros, pardos, indígenas, asiáticos e brancos.
Ele deixou de acreditar que todos os brancos eram “demônios loiros de olhos azuis”, como lhe ensinara Elijah Muhammad.
Nem todos os brancos são loiros.
Nem todos os loiros têm olhos azuis.
E nem todas as pessoas loiras de olhos azuis são más.
Frederick Douglass também escreveu:
“Amei toda a humanidade, inclusive os senhores de escravos, embora odiasse a escravidão mais do que nunca.”[5]
Na minha opinião, Malcolm acabou perdoando seus inimigos, talvez esperando que o Deus Todo-Misericordioso também lhe perdoasse seus próprios pecados.
Embora a autodefesa seja um direito legítimo, proponho que leiamos os clássicos da tradição africana de forma mais estratégica.
Ao reler Os Condenados da Terra, proponho testar a hipótese de que Fanon pretendia demonstrar uma relação causal entre a violência dos colonizadores e a violência posteriormente exercida pelos colonizados contra seus próprios irmãos e irmãs.
Em outras palavras:
se existe a violência colonial (X), surgirá como consequência a violência entre os próprios colonizados (Y).
Se não quisermos assistir ao aparecimento de Y, devemos impedir X.
Era a violência colonial que enlouquecia os africanos.
E, ao mesmo tempo, enlouquecia também os próprios colonizadores.
Esse processo continua ocorrendo atualmente em toda a África submetida ao neocolonialismo e também nos bairros periféricos das colônias internas da diáspora africana.
Como demonstra Gabbidon, o modelo do colonialismo interno foi desenvolvido pelos Panteras Negras a partir da obra de Frantz Fanon para explicar as condições existentes nos bairros periféricos das grandes cidades, que continuam sendo policiados como se fossem territórios coloniais localizados no próprio centro metropolitano.
Os chamados “centros urbanos degradados” (inner cities) também foram interpretados como colônias internas por Stuart Hall e seus colaboradores (1978).[6] Esses autores advertiam que toda a classe trabalhadora — negra, asiática e branca — pagaria o preço do populismo autoritário durante o período do Thatcherismo.
Da mesma forma, os trabalhadores europeus também acabaram vítimas da violência colonial, quando o colonialismo levou as próprias potências europeias à insanidade, desencadeando guerras imperialistas pela disputa de colônias africanas. Estima-se que esses conflitos tenham provocado cerca de 80 milhões de mortes, principalmente de trabalhadores europeus, e não apenas dos seis milhões de judeus assassinados durante o Holocausto.[7]
Essas guerras genocidas ocorreram apesar dos alertas de Rosa Luxemburgo e W. E. B. Du Bois sobre os perigos do imperialismo e da ganância desenfreada por recursos naturais.
Quando Fanon abandonou seu cargo de psiquiatra colonial para integrar o movimento de libertação nacional, dedicou-se sobretudo à diplomacia, à liderança intelectual e moral e à elaboração teórica da luta anticolonial — não à prática do terrorismo ou de atentados suicidas.
O mesmo pode ser dito dos intelectuais comprometidos com a transformação social: escrevemos livros, não lançamos bombas.
Antonio Gramsci observou que até mesmo a burguesia governa principalmente por meio do consentimento obtido sob coerção, e não apenas pelo uso direto da força. Assim, quando o imperialismo recorre sistematicamente à violência, isso constitui uma demonstração de que perdeu a disputa pela hegemonia política e cultural.
Quando perguntaram a Malcolm X se a Nação do Islã defendia a violência como instrumento para conquistar a liberdade nos Estados Unidos, ele respondeu:
“Nós não somos um grupo violento. Somos ensinados a obedecer à lei, mas também aprendemos que temos o direito de nos defender da violência… Nunca bombardeamos igrejas de brancos.”
Malcolm chamava atenção para o fato de que eram grupos supremacistas brancos os responsáveis pelos atentados terroristas, embora a propaganda insistisse em atribuir a imagem da violência ao movimento negro.
Uma leitura atenta de seus discursos permite compreender por que respondeu à famosa pergunta “Através do voto ou através da bala?” (By the Ballot or By the Bullet).
Malcolm escolhia o voto, ao mesmo tempo em que afirmava o direito à autodefesa em um país cuja própria Constituição garante o direito ao porte de armas.
Entretanto, autodefesa não significa necessariamente violência.
Os Panteras Negras recorreram frequentemente à assistência jurídica gratuita para defender seus integrantes de acusações falsas.
Lumumba utilizou o voto para defender a restauração da independência do Congo.
Fanon escreveu livros e ensaios para defender intelectualmente os povos colonizados.
Malcolm utilizou discursos, entrevistas e debates públicos como instrumentos de autodefesa política.
É verdade que a autodefesa pode assumir formas violentas quando alguém sofre uma agressão direta.
Mas, na maioria das vezes, manifesta-se de maneira não violenta:
- greves;
- boicotes;
- manifestações populares;
- desobediência civil;
- recusa ao pagamento de impostos.
Foi exatamente esse o caminho seguido pelos movimentos nacionalistas em Gana e na Nigéria, bem como pela luta contra o apartheid na África do Sul.
Também não existe qualquer princípio de luta armada no Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras.
Mais uma vez, a autodefesa foi equivocadamente confundida com violência.
Como explicou Elaine Brown, ex-presidenta do Partido dos Panteras Negras, durante uma conferência realizada no Centro Schomburg da Biblioteca Pública de Nova York, portar uma arma não transforma ninguém em revolucionário.
Caso contrário — ironizou ela — os policiais seriam os maiores revolucionários do mundo.
Segundo Brown, o verdadeiro objetivo dos Panteras era fiscalizar a atuação policial para impedir abusos de poder.
Além disso, organizaram programas gratuitos de café da manhã para crianças pobres, atendimento médico gratuito para comunidades carentes e campanhas permanentes de registro de eleitores.
Para eles, a autodefesa incluía também:
- defesa jurídica;
- marchas;
- manifestações públicas;
- organização comunitária.
Na maioria das ocasiões, eram os Panteras que iniciavam protestos pacíficos; a violência começava apenas quando a polícia ou o FBI reprimiam essas mobilizações.
O mesmo se aplica a Patrice Lumumba. Ele apelou às Nações Unidas para que enviassem tropas destinadas a proteger a restauração da independência do Congo. Durante essa luta, combateu a violência colonial e reivindicou justiça reparatória, assim como Fanon, sem jamais defender a violência como princípio orientador da emancipação.
Em seu discurso de Independência, declarou:
“Estabeleceremos em nosso país uma paz fundada não sobre armas e baionetas, mas sobre a concórdia e a boa vontade.” [8]
Em sua Mensagem à Juventude Congolesa, pronunciada em agosto de 1960, Lumumba foi igualmente explícito:
“Os jovens, que durante tanto tempo permaneceram inativos e explorados, agora tomaram consciência de seu papel como porta-estandartes da revolução pacífica.” [9]
Poucas semanas depois, dirigindo-se ao Congresso Pan-Africano realizado em Leopoldville, em 25 de agosto de 1960, reforçou sua mensagem:
“Necessitamos profundamente de paz e concórdia, e nossa política externa está orientada para a cooperação, a lealdade e a amizade entre as nações. Queremos ser uma força de progresso pacífico, uma força de conciliação. Uma África independente e unida dará uma enorme contribuição para a paz mundial. Mas, dividida em zonas de influência hostis, apenas intensificará os antagonismos internacionais e aumentará as tensões.” [10]
Tanto a FRELIMO quanto o Congresso Nacional Africano (ANC) nasceram como organizações comprometidas com métodos não violentos. Apenas quando a repressão colonial tornou impossível qualquer ação pacífica passaram a recorrer à luta armada, posteriormente suspensa para permitir negociações políticas.
Mesmo nesses casos, seus resultados não podem ser considerados superiores às experiências conduzidas por líderes como Nnamdi Azikiwe e seu discípulo Kwame Nkrumah, que privilegiaram inicialmente estratégias de ação positiva e resistência não violenta. Somente após ser derrubado por um golpe militar apoiado por forças neocoloniais é que Nkrumah escreveria seu Manual da Guerra Revolucionária.
A principal lição que Fanon, Lumumba e Malcolm parecem transmitir hoje é clara: sempre que populações africanas se armam, acabam frequentemente utilizando essas armas contra outros africanos, produzindo guerras fratricidas em escala genocida, enquanto fabricantes ocidentais de armamentos acumulam enormes lucros.
Talvez seja por isso que parte da cultura hip-hop passou a utilizar a palavra homycide — combinação entre homicide (homicídio) e homie (companheiro) — para denunciar a tragédia de jovens negros matando outros jovens negros.
“Perdi tantos companheiros…
Derramei tantas lágrimas…
Muitos dos meus irmãos…
Estão agora nos cemitérios…” [11]
A obsolescência das lutas armadas na África neocolonial e nas diásporas submetidas ao colonialismo interno não constitui apenas uma questão histórica.
Ela é uma realidade contemporânea.
Sempre que populações africanas ou afrodescendentes dispõem de armas, tendem a utilizá-las, em grande medida, contra membros de suas próprias comunidades.
Esse fenômeno não é exclusivo dos povos africanos.
Ele pode ser observado em diferentes sociedades submetidas a sistemas prolongados de exploração, dominação e opressão.
Por essa razão, a União Africana lançou a iniciativa Silenciar as Armas na África, buscando reduzir as guerras internas que continuam devastando o continente.
Nesse contexto, Agozino argumenta que a filosofia africana da não violência não pertence apenas aos africanos.
Ela constitui uma contribuição universal.
Em sentido oposto, sociedades que adotaram princípios inspirados no Ubuntu — ou naquilo que Jacques Derrida chamou de “o perdão do imperdoável” — obtiveram resultados significativamente mais positivos.
Desmond Tutu respondeu à formulação de Derrida afirmando que, segundo o Ubuntu, simplesmente não existe algo que seja imperdoável.
Essa filosofia inspirou diversos processos históricos de reconciliação.
Na África do Sul, por exemplo, a Carta da Liberdade do ANC, aprovada em 1955, proclamava:
“Haverá paz e amizade.”
Também estabelecia que:
“A África do Sul buscará manter a paz mundial e solucionar todos os conflitos internacionais por meio da negociação — nunca pela guerra.”
Posteriormente, o país criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, destinada a enfrentar os crimes do apartheid sem reproduzir ciclos intermináveis de vingança.
Experiências semelhantes ocorreram na Colômbia, com a Comissão para o Esclarecimento da Verdade, Convivência e Não Repetição, criada para contribuir com o encerramento da guerra civil, e na Irlanda do Norte, onde antigos grupos armados optaram pela disputa parlamentar.
Segundo Agozino, essas iniciativas produziram dividendos muito maiores do que a continuidade de conflitos fratricidas alimentados por armas fornecidas por potências ocidentais em países como Ruanda, Congo, Somália, Sudão, Mali, Burkina Faso, Camarões, Níger, Nigéria, Libéria, Serra Leoa, Angola, Moçambique e muitos outros.
As religiões abraâmicas costumam reivindicar para si a origem dos princípios da não violência e do perdão. Entretanto, Jacques Derrida demonstrou que cada uma delas estabelece exceções para aquilo que considera imperdoável e que seus livros sagrados contêm inúmeras narrativas marcadas pela violência.
Segundo ele, a tradição africana diferencia-se justamente por sua disposição para perdoar até mesmo o imperdoável.
Desmond Tutu e Mpho Tutu responderam que, sob a perspectiva do Ubuntu, a própria ideia de algo imperdoável simplesmente não existe.
Entre os igbos, esse princípio encontra expressão na arquitetura ritual do Mbari, descrita por Chinua Achebe.
Martin Luther King Jr. formulou ideia semelhante ao falar da Grande Casa do Mundo, defendendo uma comunidade humana baseada no amor e na convivência, em vez do caos.
Arquitetos e engenheiros africanos também recorrem aos chamados Fractais Africanos, incorporando a complexidade às construções para aumentar sua funcionalidade e segurança.
Ron Eglash observa que, em alguns casos, é necessário desconstruir completamente uma antiga estrutura para reconstruí-la sobre novos fundamentos.
É exatamente o que simboliza o ritual Mbari: após representar simbolicamente toda a comunidade — pessoas, animais e espíritos — a construção é deixada deteriorar naturalmente antes de ser reconstruída.
Na cultura rastafári, esse mesmo princípio recebe o nome de One Love.
Em Ruanda, manifesta-se na tradição dos tribunais comunitários Gacaca.
O próprio Mahatma Gandhi reconheceu ter aprendido importantes lições sobre resistência não violenta observando a coragem do povo zulu.
Assim, a não violência deve ser entendida simultaneamente como filosofia e como estratégia política.
Como foi demonstrado ao longo deste ensaio, autodefesa não significa necessariamente recorrer à violência.
Na maioria das situações, manifesta-se por meio de:
- marchas pacíficas;
- protestos públicos;
- greves;
- boicotes;
- desobediência civil;
- participação eleitoral;
- ações judiciais.
O autor propõe que uma das maiores contribuições africanas à civilização mundial seja precisamente essa tradição de resistência não violenta.
Ele observa, inclusive, que diversas línguas africanas possuem numerosas expressões para designar a paz, mas não apresentam uma palavra equivalente para violência.
Ao perguntar a estudiosos africanos como traduziriam esse termo para suas línguas maternas, não encontrou resposta satisfatória.
Caso alguém conheça um termo indígena africano correspondente, convida o leitor a compartilhá-lo.
Kassala Kamara atribui essa cultura relativamente pacífica às antigas civilizações africanas.
Segundo ele, os governantes do antigo Kemet (Egito) chegaram a conceder independência ao principado rebelde de Damasco, em vez de esmagar militarmente sua revolta.
O reino egípcio expandiu-se muito mais por sua autoridade moral e intelectual do que pela conquista militar.
Povos vizinhos desejavam integrar-se a ele espontaneamente.
Os reinos do Alto e do Baixo Egito unificaram-se pacificamente.
Filósofos gregos viajaram ao Egito para estudar durante décadas.
Seus monumentos foram concebidos como centros religiosos e científicos, e não como fortalezas militares.
Embora guerras defensivas tenham ocorrido, o legado histórico do Egito está associado principalmente à ciência, à agricultura, à arquitetura e às artes.
Não há registro de guerras genocidas promovidas pelo antigo Kemet.
Maulana Karenga ilustra essa tradição por meio da narrativa do Camponês Eloquente, que utilizou argumentos racionais para recuperar seus bens, em vez da violência.
Chinua Achebe apresenta exemplo semelhante em A Flecha de Deus, no qual o sacerdote Ezeulu enfrenta o colonialismo recorrendo à inteligência e até mesmo a uma greve de fome, recusando-se a tornar-se chefe colonial entre os igbos, povo que tradicionalmente afirma não possuir reis.
Agozino ressalta que culturas indígenas de diferentes partes do mundo também desenvolveram tradições não violentas.
Como recordava W. E. B. Du Bois diante da Suprema Corte dos Estados Unidos, a paz não pertence a uma única nação.
Walter Rodney, em Groundings with My Brothers, advertia que a história africana não deveria ser estudada apenas por meio de seus grandes impérios e monarquias.
Grande parte da África era formada por sociedades organizadas democraticamente, sem reis, equivocadamente chamadas de “sociedades acéfalas” pelos antropólogos coloniais.
Essas experiências oferecem referências muito mais úteis para quem busca fortalecer práticas democráticas na atualidade.
Em How Europe Underdeveloped Africa, Rodney afirma que antes do tráfico de escravizados e do colonialismo não existiam registros de guerras genocidas no continente.
Os conflitos existentes costumavam ser resolvidos por meio do diálogo e da negociação.
Cheikh Anta Diop documentou essa tradição em Precolonial Black Africa.
Até Karl Marx, lembra Agozino, admitia — conforme o prefácio escrito por Friedrich Engels para a edição inglesa de O Capital — que uma revolução não violenta seria possível na Inglaterra, desde que os proprietários de escravizados não reagissem violentamente, como ocorreu nos Estados Unidos.
O autor reafirma, portanto, sua hipótese central: a não violência ocupa posição fundamental nas civilizações africanas.
A filosofia rastafári do One Love reforça essa ideia.
Bob Marley, por exemplo, recusou-se a denunciar às autoridades o jovem que tentou assassiná-lo quando este retornou pedindo perdão.
One Love para todos. Paz e amor.
Agozino pergunta se essa filosofia poderia contribuir para solucionar conflitos contemporâneos envolvendo a violência estatal, o Boko Haram, o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP), o Al-Shabaab e outras insurgências.
Conclusão
Steve Biko também negou, em tribunal, a acusação de incentivar a violência.
Quando o promotor afirmou que ele conclamava a população a confrontar o apartheid, respondeu que naquele exato momento estava sendo confrontado pelo próprio promotor — e, apesar disso, não havia violência alguma na sala do tribunal.
Agozino conclui afirmando que quem insiste em interpretar Fanon como apologista da violência precisa reler atentamente o encerramento de Os Condenados da Terra, onde o autor escreve:
“Não percamos tempo em ladainhas estéreis nem em imitações nauseantes. Deixemos essa Europa onde nunca cessam de falar do Homem enquanto assassinam seres humanos em toda parte: nas esquinas de suas próprias ruas e em todos os cantos do mundo. Durante séculos sufocaram quase toda a humanidade em nome de uma suposta experiência espiritual. Vejam-nos hoje, oscilando entre a desintegração atômica e a desintegração espiritual.” [13]
Segundo Agozino, Fanon, Lumumba e Malcolm X defendiam outra guerra: a guerra contra o analfabetismo, contra as doenças, contra as fronteiras coloniais que fragmentaram a África e alimentaram conflitos entre seus próprios povos.
Defendiam a cura das profundas feridas psicológicas deixadas por séculos de escravidão, colonialismo e violência.
Apoiariam a construção de partidos comprometidos com a democracia social, uma reforma agrária capaz de alimentar a população e investimentos maciços em infraestrutura.
Walter Rodney lembrava que, quando os colonizadores afirmavam não haver recursos para construir escolas, eram os próprios africanos que as edificavam.
C. L. R. James considerava o Movimento Nacional de Escolas, criado por Kwame Nkrumah em Gana, uma de suas maiores realizações.
Ng?g? wa Thiong’o convocava à descolonização da mente africana.
Essas são, segundo Agozino, as batalhas que Fanon, Lumumba e Malcolm X convidariam hoje os povos africanos e afrodescendentes a travar.
Abaixo o militarismo!
Feliz centenário de nascimento de Patrice Lumumba, Frantz Fanon e Malcolm X!
Paz e amor!
Onwubiko Agozino é professor de Sociologia e Estudos Africanos e Afro-Americanos na Virginia Tech, em Blacksburg, Virgínia, Estados Unidos.
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